“Quero dar continuidade aos projetos que comecei”

0
2293
ENTREVISTA - IRIS REZENDE. Paulo José

Entrevistar Iris Rezende não é tarefa fácil. Trata-se de um político cuja trajetória se confunde com os últimos 70 anos da história política de Goiás, portanto é uma enciclopédia humana. Basta uma pergunta e ele conta uma história, geralmente já sabida, sobre sua relação com a política, um fato de sua vida com repercussão social. O fato é que, mesmo conhecido o episódio, por se tratar de um político com a história de Iris, a narrativa ganha contornos de ineditismo, de dramaticidade. Assim foi que, na terça-feira, dia seis, lá estávamos no escritório do ex-prefeito, ex-governador, ex-senador, ex-ministro, ex-político aposentado para saber de seus projetos pra Prefeitura de Goiânia, caso seja eleito. E à primeira pergunta, Iris contou fatos que remontam às origens de Goiânia e do próprio estado de Goiás nos moldes atuais. Naturalmente, o leitor não terá acesso a toda a entrevista, afinal não se trata de uma narrativa da vida de Iris Rezende, mas para não deixá-lo sem o gostinho do que foi tratado, citamos aqui que ele falou sobre como urbanizou a Praça Universitária, a partir de doação de 248 lotes para ocupantes da região, doação solicitada por ele, prefeito nos anos 1960, aos donos das três maiores imobiliárias da capital. Ele lembra como construiu bairros como Vila Redenção, Vila União. “Naquela época, acabei com as favelas de Goiânia”, diz. E segue: “Quando eu volto como governador [redemocratização, 1983], a mesma tara pra construir casa para os pobres. Goiânia já estava sendo tomada de novo por favelas. Fui fazer a Vila Mutirão, mil casas num só dia. Fui tirar o resto [das invasões] agora, pra abrir a Leste-Oeste. Então eu sempre me preocupei [com a falta de moradia]”, diz, destacando que esse será um dos motes de sua campanha e bandeira de uma eventual administração. “Mas eu só preocupei com casa em Goiânia? Não. Goiânia é a única cidade do Brasil com mais de um milhão de habitantes que não convive com favela. Não sou vaidoso, não sou metido a besta, não, mas esse mérito eu tenho, foi porque me preocupei cedo com essa questão. Há 30 anos, construí o Sistema de Abastecimento de Água do Meia Ponte, que está abastecendo Goiânia até hoje. Eu construí a rodoviária mais bonita em Goiânia. Tava aquela carcaça do Palácio da Justiça, terminei de construir o Fórum. Então, eu sempre tive zelo por Goiânia. Por reconhecimento, por amor”, fala, conduzindo ele mesmo a entrevista. Entrando nas memórias de fatos recentes, Iris conta como decidiu encerrar a carreira política, mas voltou de última hora pra se candidatar a governador em 2014 e foi derrotado. E novamente tomou a decisão de encerrar a carreira. “Mas quando eu soltei aquela nota, eu senti um desencanto nessa cidade, no sinaleiro eu parava… ‘Não, você não pode fazer isso, não!…’ Isso foi mexendo comigo, de repente eu chamei as novas lideranças do partido e falei, Bruno, Daniel, vocês têm que ser candidato. Resumindo, sou candidato por amor a essa cidade, por gratidão a essa cidade”. Esse é Iris.

Daniela Martins, Manoel Messias e Ronaldo Coelho


Tribuna do Planalto – O que o levou a sair candidato mais uma vez a prefeito de Goiânia?
Iris Rezende – Goiânia pra mim é uma comunidade especial, envolve muito sentimento pessoal meu, de gratidão, de reconhecimento, de responsabilidade. Eu entendo que a criatura humana não pode ser movida simplesmente pelos interesses imediatos, tem que atuar, seja em qualquer área da atividade humana, procurando servir e na política, sobretudo. Cheguei em Goiânia com 15 anos de idade, exatamente em julho de 1949. Meu pai vendeu tudo que tinha em Cristianópolis, mudamos pra cá, para nos dar oportunidade de estudo. Na escola, fui eleito presidente do Grêmio Estudantil, entrei no Lyceu. Aí entendi que minha vocação era política. Em 1958, eu era eleito o vereador mais votado de Goiânia; quatro anos depois, eu era eleito o deputado mais votado de Goiás, com uma votação extraordinária de Goiânia; vereador, eu tirei mil setecentos e tantos votos – eu tinha colega na Câmara com cento e tantos votos… Pra deputado, eu saí com quase 11 mil votos. E daí a três anos eu fui eleito prefeito. Ora, se essa cidade não tivesse acreditado em mim desde a política estudantil, Goiás não teria me conhecido. Então esse sentimento não brotou em mim agora, vem lá do início. Agora, eu tive meus méritos, que eu entendo até como uma questão espiritual. Por que, eu, um prefeito com 30 anos de idade, entendi que a moradia era o primeiro item pra dar dignidade a uma pessoa, a uma família, por quê?

O que o Sr. pretende fazer como prefeito de Goiânia que ainda não fez?
Tudo que a cidade precisa, tudo. Eu tenho que continuar a pensar na habitação, construindo casas e distribuindo lotes urbanizados para as famílias pobres, pra não deixar Goiânia voltar a ser palco de favela, eu tenho que pensar na saúde, deixamos Cais funcionando 24 horas por dia, construímos unidades de saúde, a cidade tranquila, bem atendida; hoje a cada lugar que chego, alguém diz: “Nosso Cais fechado, não atende mais, essa coisa toda”. Então, temos que pensar seriamente, porque tem gente morrendo à míngua. Nós aqui do centro muitas vezes não sabemos o que se passa lá nos bairros mais distantes. Ainda mais agora com esse desemprego, fechando lojas. E também a educação, porque eu entendo que tudo começa numa boa educação. Quando cheguei na prefeitura, encontrei o programa dos Cmeis, de educação infantil, que foi criado pelo Pedro Wilson. Eu me apaixonei por aquilo. Quando fui visitar o primeiro, antes da posse, eu vi criancinha de dois, três anos brincando com brinquedos que iriam ajudar no desenvolvimento intelectual dela, eu falei, “Olha, eu vou investir nisso”. Tinha quatro mil vagas, deixei 12 mil em cinco anos que fiquei na prefeitura. Hoje já tem um déficit de não sei quanto. E o ensino fundamental? Eu introduzi o tempo integral na escola de ensino fundamental, que parece não foi pra frente. Então eu vou voltar a transformar as escolas de ensino fundamental em tempo integral para os filhos dos casais que trabalham fora, a criança vai ficar sob os cuidados da prefeitura o dia todo. Então, nosso projeto é esse, dar continuidade àquilo que comecei nos últimos cinco anos que fui prefeito.


“Farei o necessário para resolver o problema do transporte coletivo”

O Sr. está em primeiro lugar nas pesquisas. Como está a receptividade nas suas andanças pela cidade?
Olha, emocionante. Ontem (dia 5) eu estive na Rua 4, Camelódromo, é algo de emocionar. Eu estou sendo honrado por Deus nessa fase da minha vida pelo carinho popular. Agora, por que isso? Porque eu sempre levei a sério todas as posições que eu assumi na vida pública, sempre.

O Sr. se arrepende de ter largado a prefeitura para candidatar-se a governador, em abril de 2010?
Me arrependi. Foi um erro meu. Eu não podia ter feito aquilo. Agora, por que eu fiz? Por responsabilidade com o meu partido. Chegam todos os prefeitos do PMDB de Goiás, todos os deputados estaduais do PMDB chegaram na prefeitura, pediram audiência, para tratar do ICMS, que a Celg não está pagando… Mas nada disso foi tratado. Chegaram lá e me pediram para largar a prefeitura e candidatar a governador, porque a candidatura do Adib Elias tinha ido por água abaixo… Me fizeram chorar de emoção. E eu via no Paulo [Garcia, então vice-prefeito] um irmãozão, fui me encantando com o Paulo. Então eu não titubeei.

Caso eleito, o Sr. pretende ficar os quatro anos na prefeitura?
Eu tenho dito e você pode botar em letras garrafais: vou ficar os quatro anos, até o último dia do meu mandato. Por que eu escolhi o Major Araújo? Eu fiz uma aliança com o DEM, com o PRP, que é o partido do Braga, e o Major hoje simbolia firmeza, caráter, foi dos pouquíssimos da Assembleia que peitou tudo quanto é trapaça esse tempo todo. Você viu agora essa isquinha aí de Saneago… você não sabe o que passa nesse Estado… Por que, tudo que eu peguei, eu saí bem? Nunca abri espaço pra malandro, pra aproveitadores, de forma que o dinheiro sobra. Eu assumi a prefeitura com R$ 262 milhões de dívidas só do ano de 2004. Foi a única declaração que eu dei que possa ter aborrecido o Pedro Wilson. Foi quando eu tomei aquelas atitudes, logo na primeira semana: dispensa todos os carros alugados; tinha 800 guardas armados vigiando grupos escolares, de uma empresa, rescindi o contrato, abri concurso botei 2000 guardas municipais, ficou sobrando dinheiro; tirei aquela empresa de coleta de lixo que estava aqui há 17 anos esquentando a mão de tudo quanto é vagabundo, tive coragem, tiro a empresa, compro 55 caminhões pra pagar em 15 meses, passou a custar um terço do que custava a coleta de lixo; celular, mandei cortar tudo, não deixei nem pra mim. Tudo isso sem barulho, não humilhava ninguém.


“Vou ficar os quatro anos, até o último dia do meu mandato”

Como resolver o problema persistente há décadas do transporte coletivo?
É uma área muito sensível, que também está deixando a desejar, bagunçou tudo. Quando eu assumi a prefeitura em 2005 o transporte estava uma bagunça. Alguém liderou essas pessoas mais humildes pra comprar van e invadir Goiânia. Eram mais de 200 vans, tomando lugar de ônibus, era aquela coisa, construiu-se aquela anarquia. O prefeito na época e o governador reuniram, falaram, “Vocês compram ônibus, nós arranjamos linhas pra vocês…” Foram lá em São Paulo e compraram ônibus já rodados, trouxeram e os ônibus quebravam no caminho. E as empresas perderam o incentivo. Eu ganhei a eleição, chamei um grupo de técnicos na área, elaboramos um edital para todas as linhas de Goiânia; estabeleci no edital o que custaria a passagem, porque o empresário, pra investir, ele precisa saber o valor da passagem, reajustável anualmente; publicamos e espalhamos o edital país afora. Os empresários de Goiânia decidiram investir, porque acreditaram em mim. Investiram. 1.200 ônibus e pusemos em Goiânia; o edital dizia: ônibus zero-quilômetro, com ar-condicionado, cada um com dispositivo para cadeirante e idoso. E esses ônibus passaram a rodar nessa Goiânia inteira e essa cidade ficou feliz; completa um ano, reajustei, certinho. Terceiro ano, reajustamos; quarto ano, reajustamos; quinto ano, reajustamos. O melhor transporte que poderia se conceber era o de Goiânia. Eu saio da prefeitura pra ser candidato a governador, começaram a inventar moda: ah, esse segmento não precisa pagar passagem, ah, 70 mil passes [livres] por um ano, vem outro, tanto por cento pra estudante… e não pagavam às empresas esses passes. As empresas quebraram, estão aí em situação de pré-falência. Tudo isso, falta de competência, atitude e seriedade na condução dos negócios públicos. Sempre angariei respeito, carinho, pela prestação de serviço público.

Mas agora, qual a proposta pra melhorar o transporte coletivo?
Eu ganhando a eleição, daí a uma semana já estaremos com técnicos estudando onde é que vamos criar novas linhas, linhas ligando um bairro a outro sem passar pelo centro. Abrimos avenidas como a Leste-Oeste que podem ser ocupadas por ônibus.

O Sr. vai fazer um novo processo de licitação das linhas do transporte coletivo?
Nós vamos estudar, vamos fazer o que for necessário. E essas coisas, eu digo a vocês, não é por me gabar, não, se Deus me deu o dom político, Deus me deu o segundo dom: facilidade pra tomar decisão. Muitas vezes uma coisa que uma autoridade demora um, dois meses eu tomo em cinco minutos. Posso ter errado? Posso. Mas eu tenho facilidade pra tomar decisão.

Equipe da Tribuna entrevista Iris sobre o desejo dele de ser novamente prefeito de Goiânia
Equipe da Tribuna entrevista Iris sobre o desejo dele de ser novamente prefeito de Goiânia

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here