“Quero mostrar como fazer uma gestão social em Goiânia”

0
2107
Flávio Sofiati (PSOL) é um dos representantes da esquerda

Nesta que é a sua primeira candidatura a um cargo eletivo, o professor Flávio Sofiati, do PSOL, aceitou um desafio e tanto: enfrentar candidatos apoiados pelos governos estadual, federal e municipal que disputam a prefeitura de Goiânia. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Sofiati é professor adjunto de Sociologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e é tido por analistas como alguém que pode contribuir significativamente com os debates nesta campanha. Flávio propõe um modelo de gestão por meio do diálogo com a sociedade, com mais técnicos e menos políticos na administração. Sem recursos financeiros para investir em divulgação – ele disse que tinha arrecadado menos de R$ 1 mil de doações até a semana passada –, o candidato da esquerda tem outro problema: conta com apenas 14 segundos de propaganda gratuita na TV. Mesmo com tantas adversidades, Flávio Sofiati mantém o bom humor e quer marcar a posição do partido na capital.


Manoel Messias e Marcione Barreira

Tribuna do Planalto – Como o sr. está desenvolvendo sua campanha, em termos estruturais, já que está concorrendo com candidatos que contam com a força do governo estadual e da prefeitura?
Flavio Sofiati – Minha candidatura é a única que não tem vínculos no passado nem no presente, nem com o governo estadual nem com o municipal. É uma campanha, do ponto de vista financeiro, bem humilde. A gente tem que tentar desenvolver um novo modelo de campanha no Brasil que não seja as campanhas milionárias. As campanhas milionárias, em geral, são financiadas por grandes grupos econômicos que depois vão cobrar a fatura de quem ganhar. Isso tem sido uma constante das prefeituras e nos governos em geral e aqui em Goiânia não é diferente. Na minha campanha estamos pedindo para as pessoas a doação de tempo. Estamos pedindo para as pessoas colaborarem com o tempo delas ajudando na militância digital. O nosso maior desafio é levar para o maior número de pessoas as nossas propostas.

Não é uma tarefa muito difícil, já que o sr. tem apenas 14 segundos de propaganda na TV e somente um partido na coligação, marcando 0,2% de intenções de voto? O sr. pretende chegar a que nível de aceitação do eleitorado?
O grande desafio na verdade é apresentar propostas. A gente avalia que as eleições não são, de fato, a festa da democracia. Ela é desigual. Enquanto candidatos com muito dinheiro têm condições de apresentar suas propostas para a cidade como um todo, a minha candidatura é mais limitada. Isso é antidemocrático porque não permite que uma parte da população tenha acesso às nossas ideias. Então, levar as nossas ideias não é uma tarefa fácil. Eu estou representando um projeto coletivo e doei um tempo da minha vida para essas eleições para, de fato, apresentar esse projeto porque eu acredito nesse ideal.

Sua coligação é denominada “Se a Cidade Fosse Nossa”. Explica para o leitor o porquê dessa denominação?
A sociedade tem se organizado de diversas maneiras. Nós da esquerda também estamos nessa onda de organizar a sociedade civil. Desde o ano passado, nós organizamos aqui em Goiânia o movimento “Se a Cidade Fosse Nossa”. A proposta é resgatar a cidade para as pessoas pensando o direito à cidade. Nós temos direito à cidade. Hoje, muitas vezes, não conseguimos diferenciar direito o público do privado. Vou te dar um exemplo: o transporte é público, mas aquele ônibus que você pega todos os dias é privado. Então, para mim, é um contrassenso você ter o transporte coletivo público sendo administrado por setores privados. O movimento “Se a Cidade Fosse Nossa” tem essa perspectiva de pensar o direito à cidade do ponto de vista daqueles que mais precisam, que seria a maioria da população. O nosso programa foi pensado em torno desse movimento. Em princípio, a gente queria apresentar a nossa plataforma para todas as outras candidaturas, mas os caras não iam topar. O movimento “Se a Cidade Fosse Nossa” traz o diálogo com a universidade em termos de pesquisa e com as pessoas. A nossa constatação é que quando se desenvolve políticas públicas nas cidades não se faz o bê-a-bá. Então, o “Se a Cidade Fosse Nossa” é esse movimento social que disputa as eleições, mas que começou antes das eleições e segue para depois das eleições. É a sociedade civil se mobilizando para de fato pensar a cidade.


“A gente tem uma preferência pelos pobres”

O sr. é a favor do aumento dos impostos?

Para ricos.

Qual é o critério para estabelecer se é rico ou se é pobre?
Não e só a questão da renda. Tem a questão da moradia. Quem mora nos grandes condomínios de luxo e os especuladores têm que pagar mais. O IPTU hoje, que é caro e que é cobrado do cara que mora na periferia, prejudica a vida do trabalhador. Muitas vezes tira o prato de comida do filho dele. O prefeito tem que ter essa sensibilidade. A gente não vai conseguir governar para todos, a gente tem uma preferência pelos pobres, mas olha, eu tenho certeza vai ser bom para todos porque nós vamos melhorar a vida das pessoas.

Estamos vivendo um momento da política brasileira que, de alguma forma, está num processo de mudança. O PT, que já foi de esquerda, conseguiu chegar ao poder com suas concessões e se desvirtuou. Depois de 13 anos no comando do país, vemos diversas lideranças desse partido atrás das grades. Isso não demonstra o fracasso da esquerda?
Tem algumas coisas importantes a considerar disso que você falou. Temos que destacar que a justiça brasileira fez uma opção em só prender o PT. O PMDB e o PSDB são partidos muito mais corruptos do que o PT. O PT é um partido corrupto, mas PMDB e o PSDB, se você fizer um levantamento, os dez grandes escândalos de corrupção nas últimas décadas têm envolvimento do PSDB. O PMDB é um partido que já colocou no poder três presidentes sem nenhum voto. Temos que considerar que quando o PT chegou ao poder, ele já não era mais de esquerda. Se lá na frente isso acontecer com o PSOL eu vou construir outra ferramenta de construção de uma sociedade justa. O desafio do PSOL é mostrar para a história do Brasil que não basta ganhar as eleições, nós temos que ganhar as eleições à esquerda.


“Ando de eixo, ônibus, de táxi, mototáxi, uber, enfim, de bicicleta”

Como é o dia a dia do candidato Flávio Sofiati?
A gente não pode artificializar as nossas relações. Eu sou um indivíduo que tenho o meu trabalho, tenho minha família. Eu ando de carro, mas eu diversifico muito. Eu ando de eixo, de ônibus, de táxi, mototáxi, uber, enfim, de bicicleta. Esse meu cotidiano agora é mais acelerado, mas eu sou um militante social. O que eu estou fazendo agora é tentando ampliar as minhas andanças pelos bairros. Eu tento fazer isso mantendo o meu perfil de cidadão.

Em Goiás, o partido lançou quantas candidaturas a prefeito?
Bem, nós temos Luziânia, Catalão, várias cidades do entorno de Brasília. Na Cidade de Goiás, Caldas Novas, Jataí, aliás, a nossa candidata em Catalão está muito bem nas pesquisas.

A população em geral está muito descrente com a política. Cada dia mais as pessoas não acreditam na classe. Isso é fato notório. Como fazer para recuperar o ânimo do eleitor que vive cada dia mais descrente?
Eu não sei porque não sou político. Sou um cidadão. Um ativista social e é por isso que eu estou há 20 anos nos movimentos sociais. Eu não sou um político profissional. Eu tenho minha vida. Eu acho que nós devemos mudar a política e isso só será possível quando pararmos de deixar a política nas mãos dos políticos profissionais.

Qual a avaliação que o sr faz do governo estadual e do governo municipal?
Eu sou o único candidato do fora Temer. No governo estadual, nós pedimos um impeachment do governador. Somos oposição a eles. Em relação ao governo municipal, os meus amigos mais antigos falam que esse é o pior governo e eu estou achando que é isso mesmo. É um governo inapto, ineficiente e irresponsável.


“O transporte coletivo é ruim, não se pode tirar lucro dele”

O sr. propõe um governo com uma espécie de plebiscito e que vai, de certa forma, na contramão do manual da boa governança. O sr. propõe muitas estatizações…
Quando a gente fala em desprivatizar a cidade significa recuperar para a cidade serviços públicos de qualidade. Todos nós reclamamos do transporte. O primeiro passo para se ter o transporte público de qualidade é transformar a CMTC numa operadora ou criar uma pequena empresa pública autônoma, com mandato, sem intervenção direta do prefeito, avaliado periodicamente pela população e que vá fazer com que tudo que entrar de arrecadação seja reinvestido para a melhoria do transporte público. O transporte coletivo é ruim, não se pode tirar lucro dele. Tudo que tiver de rentabilidade tem que ser reinvestido. Não pode ter lucro. Então, nós vamos fazer uma auditoria de todas as contas e progressivamente, ao longo de quatro anos, ir rompendo com os contratos e assumindo a administração dos serviços.

O sr. acha que o governante em vez de ouvir, por exemplo, os estudiosos que têm uma capacidade de entender as coisas nas suas complexidades, deve ouvir diretamente a população?
Não só os especialistas e não só o povo. Tem que ter uma simbiose. Tem que ter um diálogo. Quem entende é quem está sofrendo com a situação e quem vai diretamente se envolver diretamente na parte pública com isso. Então, por exemplo, vamos pensar no Centro de Atenção Psicossocial, que é um tema muito importante. Os CAPs estão subfinanciados, então como vamos pensar a reestruturação dos CAPs? Com os setores que entendem de políticas públicas. Mas tenho que falar também com os servidores atendem na área e tenho  que entender o que as famílias desejam. Então, não só os especialistas nem só o povo, mas um diálogo com quem entende e com quem está sofrendo com os problemas. Às vezes o poder público não entende isso.


“Vou priorizar as relações com micros, pequenos e médios empreendedores”

O sr. falou em trazer alguns setores que podem ser de responsabilidade da prefeitura, mas que hoje estão com a iniciativa privada, caso, por exemplo, do transporte coletivo. Esse é um processo burocrático. Como o sr. faria isso no seu mandado, caso eleito?
A gente quer ressignificar a relação com a sociedade civil e com os setores do empresariado. Tem de ter nesses quatro anos de mandato, se eu for eleito, uma moratória com o grande empresariado. Terei uma relação republicana com a Fieg, com os grandes setores imobiliários, as grandes empreiteiras, mas não vou priorizar as relações com eles. Vou priorizar as relações com micros, pequenos e médios empreendedores. São vários os motivos que me fazem pensar assim. Vou citar dois. Primeiro: a gente teria mais controle. Não tenho compromisso com o grande empresariado. Eles não estão botando dinheiro na minha campanha. Isso possibilita que eu estabeleça uma relação republicana com esses setores. Segundo ponto: os setores de micro, pequeno e médio empreendedores são os que de fato geram trabalho e renda na cidade. São os que, de fato, levam o nome da cidade. Eu, por exemplo, ando de bicicleta. Eu não fui comprar minha bicicleta na Decathlon, com todo respeito à Decathlon que é uma multinacional francesa. Comprei minha bicicleta no Duda Bike, lá do meu bairro. O Duda Bike leva o nome do bairro, gera emprego, tecnologia de negócio. Tenho de investir nisso.
O sr. citou o exemplo de que a compra na vizinhança valoriza o mercado, porém, no caso da bicicleta ela foi fabricada com tecnologias que somente grandes empresas com grandes investimentos conseguiram fazer. Ou seja, também não dá para desprezar o capital que gera novas tecnologias…
De jeito nenhum. Mas se a gente, enquanto poder público, não investir nos micros, pequenos e médios, vamos continuar importando tecnologia de fora. O que estou querendo dizer é que temos que pensar uma nova concepção de sociedade no Brasil.

Na gestão pública a grande parte dos recursos vai para custear educação e saúde, que já têm verbas carimbadas, e também o salário do servidor, que deve receber em dia. De onde viriam os recursos pra implantar as políticas que o sr. defende?
São alguns fatores aí, três. Eu, como tenho aliança pequena, não vou precisar ficar distribuindo cargos para os partidos. Minha gestão não vai precisar de todos esses cargos comissionados. Meu primeiro dia de governo já vai ser uma economia. Em médio prazo, essa lógica da desprivatização trará mais recursos para o setor público. Quanto menos a gente drenar dinheiro para o bolso dos grandes empresários, mais dinheiro vai para os cofres da prefeitura. Em longo prazo é reequalizar o IPTU. Eu tenho dito na minha campanha: quem ganha mais, paga mais. Quem ganha menos, paga menos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here