Violência contra professor vira rotina

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A falta de respeito dos alunos com os professores e a baixa remuneração têm trazido desestímulo ao exercício da profissão, a insegurança e o medo têm tomado conta da rotina de trabalho do educador

Vítimas constantes de agressões físicas e verbais dos próprios alunos, educadores se sentem desestimulados a estar em sala de aula

Fabiola Rodrigues

Estão cada vez mais comuns as agressões, físicas e verbais, de alunos contra o professor. Os fatores que levam os estudantes a cometerem esses são principalmente a falta da participação da família na vida estudantil dos filhos e a ausência de investimento dos governos na educação escolar. Desmotivados, muitos profissionais estão deixando a sala de aula devido à má conduta do aluno.
Pesquisa realizada em 2014 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que 12,5% dos professores ouvidos no Brasil disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. Trata-se do índice mais alto entre os 34 países pesquisados – a média entre eles é de 3,4%. A diretora da Escola Estadual Deputado José de Assis, Euripia Basílio, é educadora há 20 anos e diz que nos últimos cinco anos as ofensas direcionadas aos professores se agravaram.
“Desde 2011, cinco professores pediram exoneração do cargo na escola em que trabalho. Eles foram vítimas de agressões em sala. A falta de respeito desmotiva, além de ser um desestímulo ao profissional”, conta.
A diretora está respondendo a um processo após ser acusada de agredir física e verbalmente uma aluna, mas garante que a acusação não procede, pois, segundo ela, foi a estudante que provocou a situação e depois a acusou.
“Vou continuar provando que não fiz nada. Infelizmente a falta de punição para o aluno que não tem um bom comportamento é fraca”, diz a diretora.
Euripia Basílio ressalta que o estudante não tem se preocupado com as punições que ele pode receber ao criticar ou agredir o professor, o que abre brechas para se sentirem encorajados a desrespeitar o educador.
“Não temos punições que intimidem o estudante. Ele se sente livre e de modo geral não se importa quando é informado que pode ser suspenso, advertido ou terá os pais chamados na escola”, diz.
Para a diretora os projetos de prevenção contra a violência nas escolas são bons, mas não suficientes. Ela diz que a mediação dos conflitos escolares deve ser feita mais de perto e observa que a educação vive um caos.
“Os professores estão preocupados com o futuro da carreira deles. Ensinar se tornou um desafio constante. Os adolescentes estão com sérias dificuldades para respeitar. Há dez anos encontrávamos mais facilidade de dialogar com os alunos, tínhamos melhores relações em sala”, lembra Euripia Basílio.
O professor de geografia Leandro Garcia ministra aulas desde 2007 e diz que já foi agredido verbalmente em sala de aula e buscou o autocontrole para não criar mais problemas. A situação foi levada para a coordenação da escola para não se tornar mais crítica.
“Busco dar o respeito e ser respeitado, mas tem dia que o estudante acorda de mau humor e por um simples fato ele pode se sentir no direito de provocar ou insultar. Já passei por essas situações e é lamentável. Levei os casos diretamente para o coordenador, tentando evitar maiores constrangimentos”, diz o professor

Valores educaconais  precisam ser reencontrados
A psicóloga Maris Eliana afirma que as agressões crescentes causadas por alunos são respostas de várias situações familiares e sociais que precisam ser sanadas com urgência – ela lembra que o País está vivendo não somente um crise econômica, mas também de identidade na educação. A internet e o fácil acesso a informação fazem com que o estudante se apoie menos ao professor.
“Com o avanço dos meios de comunicação, os alunos tendem a ignorar o educador e desrespeitá-lo por achar que ele não tem grande relevância em sala. Pensam que pesquisas realizadas nos computadores ou celulares podem substituir o conteúdo; com essa aparente liberdade se desfazem dos professores”, diz a psicóloga.
Instituir os valores de respeito ao próximo e aceitação são pilares fundamentais para educar e eles devem ser ensinados para as crianças e adolescentes, especialmente no seio familiar. Porém resgatar esses conceitos é uma das grandes dificuldades da família atualmente.
“Os alunos que presenciam brigas dentro de seus lares e acabam levando esse comportamento para a escola. Quando os pais não têm boa conduta em casa, fica mais difícil para ele aceitar algum tipo de correção do professor”, observa Maris Eliana.
Em meio aos desafios para o educador ensinar, a psicóloga diz que existe mais um: a educação escolar deve ser reencontrada. Muitos alunos estão refletindo em sala influências externas da família, dos amigos, dos relacionamentos, das redes sociais ou até mesmo do mau exemplo dos políticos.
“Reencontrar novos métodos de ensino será um desafio; os adolescentes estão passando por crise de identidade. Nesse momento é essencial o professor ter cautela e se esforçar para continuar instituindo os valores de respeito, patriotismo, compreensão e utilizar a cultura como meio de conscientização”, orienta.


“A situação está caótica”, diz presidente do Sintego

Presidente do Sintego, Bia de Lima: “O professor entra em sala de aula e não é respeitado mais”
Presidente do Sintego, Bia de Lima: “O professor entra em sala de aula e não é respeitado mais”

Os educadores estão sendo ameaçados e sofrendo vários constrangimentos – é o que conta a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), Bia de Lima. A falta de respeito dos alunos com os professores e a baixa remuneração têm trazido desestímulo ao exercício da profissão.
“O professor entra em sala de aula e não é respeitado mais. O aluno pensa que tudo pode, acha que não tem limite para nada. Estamos precisando de atenção, o poder público precisa olhar para nós, a situação está caótica”, expressa Bia de Lima.
A presidente do Sintego conta que tem recebido vários casos alarmantes de professores que foram agredidos de alguma maneira pelos estudantes. A quantidade de ameaças feitas pelos alunos chega a ser assustadora.
“Temos atendido a cada dia casos e mais casos de professores que são ameaçados pelos alunos por motivos fúteis. Nosso departamento jurídico até pouco tempo não tinha envolvimento com situações criminais, mas estamos atendendo, o professor está buscando através do nosso trabalho recursos para se defender e provar que são reféns”, diz.
Bia de Lima lembra que educar era prazeroso para os professores, mas atualmente a classe se encontra desmotivada para dar aula, a insegurança e o medo têm tomado conta da rotina do educador. As calúnias e difamações estão afastando eles do exercício profissional.
“Precisamos de apoio das autoridades educacionais do nosso Estado, não vamos mudar a educação sozinhos, sabemos que a família também deve cumprir o seu papel de ensinar e não vem fazendo. O ambiente escolar é um dos meios de propagar a educação; não é responsável por educar. Se as situações não mudarem, vai chegar a hora de não existir mais professores”, adverte.

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