Jovens estão distante das urnas

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Bruno Henrique (17), Jhéssica da Silva (16), Wellington Marinho (17) e Karla Indaiana (17): mesmo quem já tem o título eleitoral não tem interesse em votar

Historicamente, os movimentos estudantis foram importantes para a transformação política do Brasil. Hoje, apesar do aparente desinteresse de jovens com a política, considerado a partir da redução no número de eleitores de 16 e 17 anos, o momento político-econômico conturbado pode engajar novamente a juventude brasileira

Daniela Martins

Se entender o atual cenário político brasileiro não tem sido tarefa fácil para pesquisadores e especialistas da área, imagina para jovens de 16 e 17 anos, sempre cheios de dúvidas e questionamentos na cabeça. A juventude que no passado com os movimentos estudantis conquistou o voto aos 16 anos, hoje parece não estar tão disposta a fazer parte das decisões políticas do país. Ao menos é o que nos fazem pensar os números.
Pelos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na comparação entre 2014, ano das últimas eleições municipais, e o pleito de 2016 é possível constatar uma diminuição de 21% no total de eleitores nessa faixa etária no país. Em Goiás, essa redução foi de 15% e, em Goiânia, chegou a 42%. Na capital, dos 9.170 eleitores com 16 e 17 anos, em 2012, chegou-se a 5.356, neste ano.
Para o cientista político Itami Campos, os dados do TSE não são muito animadores. “Tem diminuído o interesse, os jovens cada vez mais se afastam da política e os números indicam isso”, considera.
Numa conversa com quatro alunos do ensino médio do Colégio Estadual José Lobo, no Setor Rodoviário, é possível perceber que há mesmo uma falta de entusiasmo do jovem com a política. Três deles fizeram o título eleitoral “apenas para ter a documentação completa”. Uma aluna não se preocupou: “A fila (para solicitar o documento) era muito grande, não tive interesse”, diz.
Quem já tem o título conta que se for realmente votar no dia das eleições, será um voto nulo. “Não conheço muito de política, não acompanho nada”, confirma  Wellington Marinho, 17 anos. “A gente só vê falar mal de política, que político só rouba… aí não tenho interesse”.
“Pelo jeito que anda o Brasil bate uma descrença, uma insegurança em votar. É complicado, a gente fica confuso sobre quem está mentindo, quem está falando a verdade”, argumenta Jhéssica da Silva, 16 anos.

Itami Campos: menor interesse dos jovens com a política
Itami Campos: menor interesse dos jovens com a política

Além da diminuição do interesse, há de se levar em consideração o envelhecimento da população como fator crucial na redução do eleitorado jovem na faixa do voto facultativo. Seria necessária uma comparação da curva de redução desses eleitores  com a curva de redução da população jovem para se ter uma visão mais acertada desse desinteresse juvenil pela política.
“Se for confirmado, há algumas explicações tanto do ponto de vista político quanto econômico e de comportamento”, aponta a jornalista Cileide Alves, especializada em política e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Primeiro, enumera, esses jovens que nasceram na década de 1990 viveram um mundo melhor do que os jovens das décadas anteriores, que pegaram um Brasil saindo da Ditadura Militar, com a inflação e desemprego em alta. “Tudo isso empurrou os jovens daquela geração, pais dos jovens de hoje, para os movimentos políticos”, explica.
Foram justamente esses movimentos que melhoraram o Brasil e assim o país viveu, dos anos 90 até 2013, um período de normalidade política. “Eleições corriam normalmente, o país começou a ser recuperado, inflação foi debelada e veio um período de crescimento da economia”. Portanto, avalia Cileide, aparentemente estava tudo tranquilo e esses jovens não tinham muito pelo que lutar.

Cileide Alves, jornalista: “Novo caldo político e social”
Cileide Alves, jornalista: “Novo caldo político e social”

Um segundo ponto é a crescente tecnologia da informação. “Esse jovem já nasceu digital. E o mundo mudou com a revolução digital. Os jovens estão com novas prioridades, se falam, se informam e se divertem pela internet. E isso é importante a gente considerar”, pondera Cileide, que acredita que essa geração será entendida mais profundamente daqui a alguns anos,  quando tivermos um retrato melhor deste período.
Para completar, ao longo dos anos a política e os políticos foram perdendo crédito diante da população. “Tudo isso somou-se na formação política desses jovens”.
Assim, chegamos à atualidade. A partir do ano de 2013, o país apresentou fatos novos: as manifestações sociais. “Hoje já estamos vendo mais jovens na rua, mais jovens nas manifestações. Acho que esse momento agora é de uma quebra de status quo”, reforça a jornalista.
Na sua opinião, os jovens podem não estar tão interessados nas eleições, mas em função de todos os acontecimentos pelos quais o Brasil tem passado pode haver um novo engajamento deles na política. “A gente não vai saber disso agora. Vamos saber disso daqui mais alguns anos”, finaliza.

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