Vale a pena conhecer a nova Praça Cívica

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Além de duas fontes luminosas e ciclofaixas, a nova Praça Cívica conta com anfiteatro de três lados, escadaria de 80 metros de extensão ao redor do Monumento às Três Raças

Após anos funcionando como estacionamento a céu aberto, a praça que simboliza o marco inicial da construção da capital finalmente ganhou uma reforma significativa

Yago Sales

Quando os pombos esfomeados, as andorinhas silenciosas e os periquitos barulhentos não se revezam sobre palmeiras, as aves zarpam para a munguba para balançar sua copa densa, de onde desabrocham flores e frutos grandes, conhecidos como cacau-selvagem. As aves se distribuem sobre a sibipiruna e esparramam as flores amarelas pelo chão de concreto e assentos de granilites. Ao passo que garis varrem falando alto e rindo debaixo de uma gameleira, cupins marcham pelo entrelaçado de raízes, troncos e galhos, que se misturam há décadas numa árvore gigante – a testemunha de Goiânia.
A descrição é da Praça Cívica, o marco inicial da construção de Goiânia, em 1933, por Pedro Ludovico Teixeira, estimulado pela Marcha para o Oeste, sob o entusiasmo de Getúlio Vargas. A Praça Cívica foi entregue pela prefeitura após revitalização no final de agosto deste ano. As obras duraram 18 meses e custaram R$ 12,5 milhões.
A revitalização buscou resgatar algumas características do projeto original, assinado por Attilio Correa Lima, e foi custeada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas, sob aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Vale lembrar que a praça é tombada como patrimônio histórico.
Uma das grandes novidades da praça – e objeto de críticas – é o monumento “Caleidoscópica”, do artista plástico Siron Franco, construído onde ficava o Palácio de Campinas, antiga sede da prefeitura de Goiânia. A ideia do artista era fazer referência ao passado e ao futuro de Goiânia, por meio de escultura feita com aço inoxidável. Quem se por diante da obra verá o próprio reflexo.
Além de duas fontes luminosas e ciclofaixas, o projeto atual conta com anfiteatro de três lados, com escadaria de 80 metros de extensão ao redor do Monumento às Três Raças. A ideia é trazer apresentações culturais.
À primeira vista, a praça ficou muito atraente, mas pouco se aproxima do esperado pelos entusiastas da história de Goiânia. Para entender melhor essa obra, a reportagem convidou Marcela Ruggeri, integrante do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-GO), para percorrer a Praça Cívica, após a revitalização. Para ela, a maior novidade é o calçamento, com pedras portuguesas em volta da praça.
“A substituição do asfalto pelo piso privilegia o pedestre, o ciclista e de alguma forma o deficiente visual em função da adoção de piso tátil durante toda a extensão da praça”, avalia.
“Em contrapartida, o cadeirante, por causa do desnível, trepida nesse tipo de piso”, destaca.
“Houve uma má execução no desnível do piso central da praça. Ela por si só tem um desnível próprio. Essa instalação deixou um pouco a desejar e é muito perceptível”, destaca Marcela, a alguns metros de funcionários da construtora Marsou Engenharia que retiravam, a marretadas, algumas pedras de piso drenante com defeito.
Guilherme dos Santos, 16 anos, mora em um apartamento na rua 9, no Centro. Ao voltar de uma viagem, foi à praça com os amigos André Souto, 17, Luiz Agusto, 16, e a namorada, Luana Silva, 16. O estudante do 3° ano do ensino médio gostou da praça que se tornou um lugar a mais para andar de skate.
“Aqui ficou muito bom. Foi pensado para a gente”, diz antes de ser chamado pelos amigos a ler a placa de inauguração: “Requalificação da Praça Cívica. Michel Temer, no exercício do cargo de presidente da República”.
Procurada pela reportagem, a construtora Marsou Engenharia informou que “os funcionários trocavam o piso quebrado por carros e que fotos atestavam isso”. O fiscal da obra, o engenheiro da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Seinfra) Fábio Oliveira, disse por telefone que viaturas da Polícia Militar estacionaram sobre o piso. “PMs e guardas costumam estacionar em praças, mas não sabiam que no piso drenante é proibido”, justificou.


ENTREVISTA/Marcela Ruggeri

Marcela Ruggeri: “as edificações da praça não tiveram manutenção adequada”
Marcela Ruggeri: “as edificações da praça não tiveram manutenção adequada”

“O centro da praça continua com sua aridez, sem sombreamento”

Tribuna do Planalto – A identidade da praça foi resgatada?
Marcela Ruggeri – Houve uma releitura, reconstrução de alguns aspectos com o obelisco e as fontes. Dá uma impressão de que houve uma tentativa de se fazer um espaço aberto, “democrático”, em alguns pontos mais secos, de circulação, de uso provisório, contínuo. As luminárias, portanto, não são desenho art déco.

A praça é atrativa para o passeio em família?
Em alguns pontos da praça, sim. Debaixo de algumas árvores, por exemplo. Mas o centro da praça continua com sua aridez, sem sombreamento. O projeto original determinava que esse espaço fosse aberto mesmo, para o povo chegar até o poder, se aproximar do palácio do governo. Mas a impressão que se tem é que este espaço é contemplativo. O piso pedestril, para o pedestre, longe do anel interno é importante. Não existe mais estacionamento e isso modificou o uso.

Alguma parte da revitalização recuperou a história da Praça Cívica?
Por mais que a dimensão dos obeliscos não seja considerável pelo tamanho da praça, recuperou o aspecto cultural.

O que falta para melhorar a revitalização?
Fora o palácio do governo, as edificações da praça não tiveram manutenção adequada.


ENTREVISTA/ Geraldo Coelho Vaz

“Obra é uma falta de respeito com a memória de Goiânia“
“Obra é uma falta de respeito com a memória de Goiânia“

“Faltou um estudo aprofundado sobre a história da Praça Cívica”

Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG)., Geraldo Coelho Vaz afirma que a revitalização “é reviver aquilo que existia” e critica as mudanças na Praça Cívica. “Não acredito que tenha havido propriamente uma revitalização”. O escritor é um dos principais militantes da manutenção da memória de Goiânia. Para ele, a obra é “uma falta de respeito com a memória de Goiânia. Poderia ter sido conservado muito do que existia na praça”. Vaz critica a falta de identificação com o passado. “Eu acho que foi feita muita coisa, mas que não identificou a praça do que já foi”. Para ele a praça se tornou “modernosa”.

Tribuna do Planalto – O senhor chama a revitalização de modernoso. O que seria modernoso?
Geraldo Coelho Vaz – Modernoso é quando se amontoam as coisas de qualquer forma. Sem estudar. Faltou um estudo mais aprofundado sobre a história da Praça Cívica, de Goiânia. Falta ver a história na Praça Cívica. Na Europa, por exemplo, se vê palacetes, casas de 800 anos com suas características conservadas. O que falta em Goiânia é conservar esses monumentos para que daqui a 500 anos seja visto como um marco histórico. O que acontece em Goiânia é que estão destruindo os marcos históricos. Esse é o grande erro do que o modernismo quer impor e que não passa de um modernoso.
O senhor critica a revitalização. O que poderia ter sido conservado?
Os postes da década de 1930, por exemplo, desapareceram. Com esses postes, o povo saberia como era a iluminação da época. Não resta dúvida de que não era uma iluminação boa, mas poderia ser mostrada a forma dos postes, dos globos, das lâmpadas.

Alguma coisa mais lhe chamou a atenção?
As fontes luminosas revitalizadas sem dúvidas trouxeram luz à história da praça. Ela existia, mas, desativada, não compunha o cenário da praça. Eles deram um nova forma.

Como seria a Praça Cívica na década de 1930?
O Palácio no centro da Praça Cívica, o Tribunal de Justiça de um lado, o Fórum de outro. Dentro da praça o museu Zoroastro e em outro ponto a prefeitura de Goiânia – que nunca foi feita, a não ser um barracão muito feio feito uns trinta anos atrás e que já foi demolido.

 

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