Dia a dia estressante no Eixão

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transporte coletivo: Eixão

Uma vitrine de produtos se estende pelas plataformas, sob gritaria e o constante medo de furtos

Yago Sales     

O percurso de 48 minutos entre o terminal Padre Pelágio e o terminal Novo Mundo parece uma eternidade para os passageiros do Eixo Anhanguera, em Goiânia. A reportagem fez uma viagem e escutou toda espécie de reclamação quanto à rotina que a maioria dos usuários definem como caos.
O barulho provoca poluição sonora nas plataformas, nos terminais de embarque e desembarque e dentro dos ônibus. Ônibus lotados, excesso de ambulantes e, de sobra, furtos, quando não assaltos com facas, estiletes e armas de fogo geram estresse. Com isso, basta uma viagem para perceber uma rotina de medo entre passageiros e motoristas que, estressados em meio ao tumulto, empurrões e, não raro, tapas.
A caixa de isopor amparada por um carrinho improvisado com pontas enf­errujadas esbarra nas pernas da diarista Ana Lúcia, 48, que resmunga alguma coisa. Enquanto o vendedor ambulante se afasta oferecendo garrafas de água a R$ 1, ela repara o calcanhar dolorido e maldiz o homem.
Ana trabalha no Centro de Goiânia e há pelo menos dois anos faz o percurso entre o trabalho e a casa, em Senador Canedo. “Tem dia que o barulho é tão insuportável que passo dias com dor de cabeça”, conta. “Fora o medo de ser roubado pela…”, diz, sem  se lembrar de quantas vezes teve bolsas rasgadas, e levados celulares, bolsinhas.
A reportagem da Tribuna do Planalto percorreu  a extensão do Eixo Anhanguera, entre o Padre Pelágio e o terminal Novo Mundo. Em média, 48 minutos em seus 14 km. A cada uma das 19 plataformas, pelo menos um ambulante aguardava sua vez para adentrar o coletivo e oferecer seus produtos. Às vezes, o acordo – como contou um dos ambulantes – de apenas um ambulante vender dentro do ônibus é desrespeitado por alguns e as vozes se misturam no transporte, cujo ruído intensifica o nível de estresse do passageiro. Na ida, a reportagem contabilizou 29 ambulantes dentro do coletivo. Nas plataformas, a reportagem contabilizou pelo menos 300 deles que se encarregam de cercar o cliente no embarque e no desembarque, diariamente.
A rotina, para André Luz, 38, é insuportável. “Ás vezes passo por vários terminais para evitar o eixão. Isso daqui é o próprio inferno, tanto quanto à quentura quanto ao barulho”, desabafa.
Um motorista que não quis se identificar contou que frequentemente ouve-se gritos de mulheres pedindo socorro por causa de furtos. “Ontem mesmo uma senhora gritou. Depois a gente só encontra a bolsa vazia ou os documentos esparramados pela extensão do eixo”, revela.
O articulado perpassa cinco terminais: Padre Pelágio, Dergo, Praça A, Praça da Bíblia e Novo Mundo. Essas plataformas concentram um grande número de ambulantes que amontoam bugigangas numa espécie de corredor. Os passageiros ficam acuados, sem chance de fugir dos produtos que, no chão, formam um tapete para o consumo. Bolachas, pipocas, paçocas – cinco custam R$ 1 – são vendidas em saquinhos de plástico.
No Padré Pelágio, ponto de  partida da reportagem, Luiza Ferreira Lourenço, 48, vende pano de prato. Quatro panos de prato pelo preço de R$ 10. “Aqui ganho mais do que em lavar para madame”, conta, sem revelar a média de ganhos.
Ao lado de Luiza, um homem mastiga o amendoim vendido por um garoto que passou há pouco, enquanto negocia um copo de pequi. “O pequi amarelado”, mas pequeno, mirrado, “pode ser preparado com frango e arroz”, tenta convencer o vendedor.
Quando o articulado encosta no Praça A, um grito invade a janela do ônibus. Todo mundo olha. Uma moça vendendo paçocas quase cai na plataforma. Ela logo segue sua sina, vendendo seu produto. À frente, uma outra moça oferece chip para celular. “Leva o chip e paga só o crédito. Leva o chip, moça, só R$ 10″, oferece.


Um shopping na plataforma

Além da lotação, barulho e insegurança, passageiros precisam lidar com os ambulantes que entram e saem dos ônibus e terminais
Além da lotação, barulho e insegurança, passageiros precisam lidar com os ambulantes que entram e saem dos ônibus e terminais

A plataforma do terminal se torna shopping em meio a tantas coisas para comprar. Os cheiros do caldo de feijão, de mocotó e de frango invadem as narinas do repórter que prefere o café vendido por uma mulher. Ela acaricia a criança cadeirante acompanhada por uma cliente. O cachorro quente, preparado com pães amontoados em uma bacia verde e coberto com dois panos é vendido a R$ 3. Tudo oferecido a base do grito.
Quando o repórter sai do Padre Pelágio, às 16 horas, 19 pessoas se acomodam nos bancos. Uma moça de cabelos vermelhos entra, com uma blusa de frio amarrada em volta ao quadril, com quatro garrafas de água entre as mãos. Ela masca chiclete e não vende nenhuma garrafa com água. Mas quando o motorista ia fechando as portas e a voz anunciava “porta-fechando-porta-fechando”, uma mulher a chamou pela janela e quase ficou sem os R$ 3 do troco de R$ 5 que entregou pela janela. Diferente do restante do percurso, onde se encontra água por R$ 1, ela pagou R$ 2. “Está muito gelada, nesse calor não tem coisa melhor”, considera Maria das Graças, que ia ao Centro comprar uma panela de pressão para o Chá de Panelas do sobrinho.
O ônibus sai do terminal Padre Pelágio. Um vapor quente incomoda os passageiros que reclamam. É a deixa para outro vendedor. Em três minutos, 12 garrafinhas de água são vendidas. “Eu já cheguei a vender 30 águas em um único ônibus, revela Júlio.
Júlio ignora uma visível placa cuja inscrição passa despercebida: “Proibido vendedor ambulante”. Quando o repórter lhe apresenta a placa,  ele debocha: “O eixão tá sempre cheio e não dá para ficar olhando para placas”.
“Só água”
Uma cliente, que não quis dizer o nome, defende a venda de água. “Só água. Se não tiver água aqui, onde vamos beber? Nos terminais, naquela nojeira?”,  questiona. “Se bem que podiam tirar daqui os pedintes”, sugere Célia Pires, 33, bem na hora em que um homem estende um papel plastificado com sua história. “Não queria incomodar, mas queria pedir uma ajuda pra mim comer hoje”, diz o texto.
Com rosto e cabeça cicatrizados, o homem entrou na porta da frente, perto do motorista e, até chegar na última porta, não conseguiu ajuda.
Não menos 20 produtos é vendido por um deficiente visual. Ele vende desentupidor de chama de fogão, ralo para pia, pirulito, velas, tampa de tanque, balinhas de mel e gengibre, goma de mascar, chicletes, óculos, bolas de gude. Aquele homem era um camelódromo.
“Moço, me dá uma tampa para o tanque”, pede Luciana Lopes, 32. “Escolhe a cor”, sugere, depois se desencadeia no ambulante uma crise de tosses. Até descer na próxima plataforma, esbarra nas pessoas e pisa no pé do repórter.
No Dergo, a Guarda Municipal está no encalço de alguém que pula uma das catracas e foge. Duas crianças ajeitam a caixa de isopor na plataforma. Vazia.  “É o calor, tio”, justifica o menino mais falante, batendo a sandália kenner desgastada, saindo do terminal.
No Praça A, a reportagem encontrou amendoim torrado, suco, bolos, sonhos (com recheio de doce de leite), picolés, antenas de televisão, pipocas, café com leite, pão de queijo, carregador, bolachas, capas para celular e até tabletes. Pelo menos 25 ambulantes se amontoam, espremendo os usuários num espaço pequeno para a demanda de usuários.


Psicóloga sugere válvula de escape

Psicóloga Simone Minassi: alternativa à correria
Psicóloga Simone Minassi: alternativa à correria

O rosto enrijecido de Carla Souza, de 28, compõe o cenário caótico do Eixo Anhanguera, em apenas um fragmento do dia a dia de pelo menos 300 mil passageiros. Ela está estressada.
No terminal Praça da Bíblia, o eixo nada lembra o vazio do início da viagem. Dois passageiros discutem por causa de uma coisa comum no Eixo: pisar no pé. Um vendedor de limpador de para-brisas oferece o produto. “Vai que alguém tem carro em casa”, justifica Pedro Henrique, 19, ao ser perguntado se aquilo  tinha algum sentido. “Eu vendo no sinaleiro. Como vou pra casa, aproveito para oferecer. Vai que cola”, brincou.
No terminal Novo Mundo, a fumaça de cigarro ultrapassa a plataforma e invade o ônibus. O cliente de uma banca logo à frente, abriu a carteira do Paraguai e acendeu ali mesmo. O vendedor: um menino de 15 anos. Depois de vender, abre uma sacola com cigarro estocado, pega uma carteira e a encaixa junto a outras empilhadas.
Na plataforma de embarque e desembarque, o barulho é intenso. A fileira de ambulantes agita-se cada vez que estaciona um dos eixões. Vozes de vários gêneros, várias idades, oferecem toda espécie de produtos. Todos os preços.
“Em alguns momentos, o passageiro é esquecido no contexto do trânsito. O estresse, a rotina, o cotidiano, todos os estímulos que se recebe, o passageiro também sofre”, alertou  Simone Minassi,  psicóloga e especialista em Psicologia do Trânsito. “Com o barulho no coletivo, o passageiro pode descer atordoado e pode sofrer algum acidente”.
“Temos de adequar o trânsito para o passageiro e, também, claro, para o condutor. Em relação ao estresse, cada um deve procurar condições internas para se adequar à rotina”, aconselha a pisicóloga. O passageiro pode fugir do estresse, por exemplo, lendo, escutando música com o fone de ouvidos. “O passageiro pode tentar se distrair no coletivo”, aponta.

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