Cansados e oprimidos pelo crack

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Repórter da Tribuna do Planalto passou 24 horas internado em uma Casa de Recuperação para viciados, ouviu histórias de usuários em tratamento e a opinião de especialistas sobre o método destas instituições de internação

Yago Sales

Sérgio bate o ponto. Ele veste uma farda justa, em um corpo de 95 quilos distribuídos em 1,80 m de altura. No coldre, o revólver calibre 38 está carregado. É o seu companheiro em mais um plantão de vigilância do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). De repente, Sérgio esfrega as mãos, agoniado, fissurado. Um homem lhe chama do lado de fora da cerca e lhe entrega a segunda companhia da noite. É uma pedra de crack. O vigilante teme pela vida de alguém que pudesse aparecer quando a onda vier, então, tira a munição do revólver e a deposita no chão.
Ele quebra os pequenos cristais com os dedos, tira o cachimbo do bolso e acende com um isqueiro. Em oito segundos, Sérgio escuta vozes, vultos se aproximam. Está inseguro, parece flutuar. Como se se protegesse, ele se agacha, assustado, em pânico. A noite é adrenalina. Doze horas depois, ao término do plantão, passa ainda em uma boca de fumo perto de casa. Já dentro do seu quarto, se torna estatística. Sérgio acreditava que poderia usar crack durante anos, sem que ninguém desconfiasse.
14 horas de segunda-feira, dia 3 de outubro. Depois de esperar por mais de uma hora, entro numa saleta pequena, com vários certificados na parede. Sobre a mesa, um computador, pastas e Bíblias amareladas. Uma edição de junho da revista Época está aberta na entrevista com José Mariano Beltrame (Secretário de Segurança Pública do Rio) com o título: “A guerra às drogas é perdida, irracional”. Acima da cabeça do pastor – que não quis dizer o nome – de quase 70 anos, esparramado sobre a cadeira que quase tomba para trás, uma folha avisa: “Deus está no controle”.
Com jeito carrancudo – mas de “coração muito bom”, atestariam alguns internos mais tarde –, sotaque estrangeiro e olhos azuis, o pastor faz perguntas e bate com os dois dedos indicadores nas teclas. Enquanto é feita a triagem, a voz indócil do pastor se mistura ao ruído do ventilador. Então, tenho a carteira e o celular confiscados em um armário. A partir de agora, estou internado na Casa de Recuperação Vida Nova, no Guanabara, em Goiânia, e sairei 24 horas depois.
Uma muda de roupas, dois blocos de anotações, duas canetas e um gravador se juntam ao kit de higiene pessoal entregue pelo obreiro Gilvan Luiz, 48, o faz-tudo na comunidade. Ele passou pela Vida Nova e, quase dois anos depois, está livre das drogas. Mas não pretende sair dali. Não abre mão de retribuir o amparo que teve depois que o patrão lhe ajudou na internação.
O portão estreito não fica trancado. Mas os internos se comunicam com os funcionários por uma brecha na parede, que fica a maior parte do tempo aberta. Logo na entrada é possível ver Pivete, o cachorro de pelo menos quatro anos, cor de mostarda, gordo e limpo. Por mais que seu olhar implore, recebe banho semanalmente dos internos. Curioso, ele encara o visitante, mas de longe, com o rabo entre as pernas. Pivete, o diretor da Casa Marcos Mendes assegura, não gosta de quem fuma. Não seria diferente. O cão veio para cá ainda bebê e todo dia escuta falar dos males do vício.
Sérgio, o segurança amável, conhecido como homem sério, encontrou no crack o tapume para esconder o vão que se abriu em sua vida depois que descobriu a traição da mulher. Sua vida, porém, vinha se deteriorando desde que soube que é fruto de um malsucedido aborto. Com todas as culpas, decepções e desprezos, além do crack, a depressão o tornou dependente de antidepressivos.
Ele marchava como soldado, agora anda como prisioneiro do crack. Transformou-se de vigilante a vigiado. Tinha olhar certeiro, esperto, o crack fez com que adotasse um olhar perdido, de quem elucubra, à espera de uma pedra.
Sérgio quer voltar a ser vigilante. “Da escolta armada”, diz, apontando para uma empresa de transporte de valores, enquanto se dirige, numa das poucas saídas do Centro de Recuperação Nova Vida, no Uno prata de quatro portas da Casa Nova Vida conduzido por Gilvan Luiz, para o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Negrão de Lima. Ali, se encontra com a psicóloga. Uma hora de consulta depois, ele sai sem aquele corpo subjugado. “Saio daqui com a autoestima elevada”, conta.


Casulo de fé e esperança

Dopados, sujos, arranhados, se desmanchando em sangue, sem resquícios de humanidade – senão alguma coisa palpitando dentro do peito denunciando vida – eles chegam de todos os cantos do Brasil. Familiares, amigos, patrões, ou a assistência social do município entregam homens maltrapilhos a pastores, obreiros, presbíteros e a quem se diz livre de drogas e pronto para ajudar. Eles são internados por que extrapolaram, quebraram tudo em casa, roubaram, tentaram matar, sobreviveram a algum atentado, ou por que mataram. Invariavelmente por causa do crack.
Há muita gente que tem na mente um usuário de crack estereotipado, meio zumbi, meio selvagem, bicho mesmo. É compreensível que este tipo específico de usuário seja mais lembrado, já que, alheio à normalidade, é mais exposto ao horror dos “normais”. Agarrado com um cachimbo, fumando a pedra de crack na periferia, em regiões menos assistidas pela Segurança Pública.
O crackeiro exposto pela mídia se identifica com tudo aquilo que a sociedade rejeita: o descontrole emocional, o desamparo (muitos deixam filhos), improdutividade, abandono dos sonhos. Desenraizado do próprio conceito de existência, é subvertido, desprezado pela família. Ele é perigo, vergonha. É ninguém.
A Casa de Recuperação Vida Nova atende há 15 anos, desde junho de 2009, em uma área de dois mil metros quadrados. A unidade está fundamenta na filosofia do acolhimento, da abstinência, e o reencontro com a existência. Acolhe homens maiores de 18 anos em busca de um local para se esconder da cobiça pela pedra. O Centro oferece atendimento, também, a quem não consegue viver sem o álcool.
Na pequena biblioteca, marcenaria, piscina, uma mesa de sinuca, alguns equipamentos para ginástica, uma horta e uma quadra. “Tudo isso é para mantê-los longe de lembranças do passado. Damos a eles ocupações para sentirem mais incluídos, reativamos os prazeres que se esqueceram”, disse o diretor da Casa Vida Nova, Marcos Mendes da Silva, 38, que veio de Londrina, viciado em crack. “Cheguei aqui com 55 quilos. Deus fez uma mudança na minha vida”, relata.
Marcos ensina instrumentos aos internos, além de falar de sua restauração cotidianamente. “Ao chegar aqui percebi que a igreja tem muita influência sobre a vida de um dependente químico que perde tudo, inclusive a fé.”
“Aqui me reaproximei de Deus”. No terceiro mês que estava na Casa, foi confiado a Marcos o papel de motorista da Kombi. “Damos todo o apoio para que o interno consiga se encostar pelo INSS. Eu mesmo ganhei e pude voltar a pagar a pensão dos meus filhos”, revela.
No sétimo mês passou a ajudar como obreiro – quando o interno angaria mais liberdade e passa a exercer certo poderio sobre o restante dos internos, se tornando um vigilante do andamento do tratamento dos outros. E, claro, exemplo a ser seguido.
A Casa tem capacidade para atender 40 internos, mas quando estive lá, tinham apenas 18. Em seus oito dormitórios, é possível encontrar beliches, alguns com quatro, outros com duas camas, uma prateleira que serve como guarda volumes, criado mudo com livros, cadernos e Bíblias.
O frio e a chuva fina tornam a rotina mais árdua na instituição. Um sinal desperta os internos às 6h30 da manhã. Às 7h, um pastor espera o grupo na capela. Uma oração de agradecimento a Deus pela “oportunidade de mais um dia de vida”. É possível perceber o desinteresse de três internos que não esperam completamente em Deus a cura do mal. Enquanto fingem escutar, o pastor lê um versículo bíblico e pede para que o restante leia os seguintes. Dois não sabem ler e repetem o que os colegas ditam. Às 8h, é servido chá com roscas, pão e bolos que um dos internos traz de uma dispensa e esquenta no forno.
“É pastor pra mais de mundo”, comenta um interno, quando o sinal avisa: outro pastor está esperando na capela. Todos estão munidos de um livro de capa azul, o “Narcóticos Anônimos”, no qual se discutem os doze passos. No livro, aprendem que são adictos. Ou seja, são controlados pelas drogas e estão fadados a três destinos: a prisão, instituições, a morte.
A onda – aquela sensação de prazer intenso – passa rápido demais no beco, sob a marquise de um banco, na rodinha de usuários na praça à luz do dia, diante do pânico de quem passa. O que parece uma eternidade são nove meses. O que se apregoa muito é que nove meses representa uma gestação. Se o interno sai antes, prematuro, pode não sobreviver e acabará voltado à estaca zero do tratamento. “Se cair, volta com o tratamento desde o início”, explica um pastor.


Entre a sala de aula e a igreja

Professora Maria de Lourdes, ensino de cidadania
Professora Maria de Lourdes, ensino de cidadania

A palavra escrita com firmeza pela professora Maria de Lourdes, da Sala de Extensão do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), é repetida em coro pelos alunos. Ci-da-da-ni-a. “O que é cidadania?”, ela pergunta. Silêncio. Os internos têm aulas de segunda a sexta-feira, exceto na terça-feira. De dia, sala de aula; à noite é igreja.
De um lado, um púlpito; do outro, o armário com lápis de cor, livros, caderno e pincel. A professora conta que a ideia de dar aulas surgiu quando visitou o filho, que foi dependente químico, em uma casa de recuperação e soube que a rotina se resumia a orar e ler Bíblia. “Sempre gostei de lutar pelas minorias. O trabalho com os excluídos nos ensina bastante”, ressalta.
Em silêncio durante toda a aula, Alexandre, de 34, está internado há cinco dias. Ele tem o olho roxo. Quase não sai do quarto, com um algodão no ouvido que dói continuamente. Mas não deixaria de assistir à aula.
Depois do traficante da região do Garavelo descobrir que ele passaria a distribuir crack na área de seu domínio, juntou cinco comparsas e preparou uma “casinha” ao novato do tráfico. “Os caras foram covardes comigo. Não perdoo de jeito nenhum. Talvez quando ele estiver empacotadinho”, declara ele, cego do olho esquerdo, depois de esfaqueado.
Ao final da tarde um grupo de alunos de uma escola de cabelereiros acompanhados de professores, munidos de tesouras, máquinas, espelhos, aventais adentram o portão da Comunidade Terapêutica Vida Nova. Há quem há muito tempo não tem o cabelo cortado, a fisionomia transformada. O sorriso do rosto, agora, tem algum sentido.


Vagas ociosas por falta de recursos

Quando cheguei à Casa de Recuperação, ainda do lado de fora, fui abordado por um homem de 26 anos, identificado como Wilson. Ele veio de Sergipe em busca de emprego e aguardava o almoço que Gilvan lhe traria num prato. “Moço, me ajuda. Preciso me internar”, pediu. Já viciado em drogas, saiu da cidade natal com a impressão de que não voltaria ao consumo de crack em Goiânia. “É mais fácil conseguir crack do que emprego”, disse.
Segundo o pastor da triagem, a Casa Nova Vida não pode receber mais internos pois não tem sido repassado o recurso do Centro Estadual de Avaliação Terapêutica Álcool e Drogas (Ceat-AD).
A presidente do Grupo Executivo de Enfrentamento às Drogas (Geede), Ivânia Fernandes, justifica que para que os Centros recebam o recurso, é preciso se atentar aos prazos do edital. “Disponibilizamos 500 vagas para o acolhimento”, disse. O recurso vem dos governos de Goiás e Federal. A internação rende às casas R$ 1 mil mensais por interno. No caso de mulheres com criança pequena soma-se R$ 200 ao valor.
De maio de 2014 a agosto de 2016, o Ceat-AD atendeu a 3.047 pacientes em Comunidades Terapêuticas. Ao todo, somando atendimento pelo CRAS, CREAS, CAPS, Saúde, Orientações, chega a um total de 8.369. Deste total, 91,44% é do sexo masculino e 53,79% tem de 31 a 59 anos.
Já a respeito de um estudo mais detalhado sobre o cenário do crack goiano, Ivânia releva que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) está preparando uma pesquisa que elucide as dúvidas.
“O usuário é abraçado, são importantes, têm disciplina”. Ela acredita que o tratamento é sustentado pelo tripé “espiritualidade, disciplina, laborterapia”.  O modelo, no entanto, está em desacordo com a as políticas públicas de saúde mental e é alvo de críticas de profissionais ligados à psiquiatria.


Críticas ao longo período de internação

Rômulo Fabriano Gonzaga, mestre em Educação com ênfase em Saúde Mental/Toxicomanias, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), atua no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD) Negrão de Lima e discorda de Ivânia Alves. “Do ponto de vista científico, este tipo de acolhida tem problemas. Elas se pautas por doutrinas religiosas”, ressalta. “A questão não é a religião, mas a imposição”.
Outro problema é a infraestrutura. “Se alguns centros de reabilitação passassem pelos crivos da vigilância sanitária continuariam funcionando”, alerta. Outro aspecto das comunidades terapêuticas em conflito com os argumentos científicos é o tempo. “A interpretação da psiquiatria quanto ao tempo não deve ultrapassar 45 dias”. Para ele, o CAPS é uma boa saída, pois oferece atendimento a médio ou longo prazos, para a reorganização da vida. “Na casas de recuperação o paciente fica isolado”, finaliza.
A psiquiatra Clarissa Rezende de Almeida, do CAPS-AD, discorda da internação de nove meses. Uma semana já pode surtir algum efeito. “O que funciona é o CAPS, que tem apoio psicossocial para o usuário e a família. A aderência é muito maior, mais do que a internação”, constata.
Clarissa atende a pelo menos 30 policiais que usaram crack. “Há três anos, em acompanhamento com psicólogo, exercício físico, nenhum reincidiu no uso”. “Eu exijo o acompanhamento familiar. Meu celular fica continuamente à disposição para qualquer urgência. Oriento a meus pacientes pelo whatsapp”, relata.
Para ela, as Casas de Recuperação não têm suporte médico, nem de nível de saúde. “Faltam médico, psicólogo, musico-terapeuta. Não vejo justificativa de se internar em instituições religiosas – que englobam desde a evangélica, espírita, católica”, considera.

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