De cabeça fria, análise do resultado das eleições municipais em Palmas

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Rumenig Osborne é Tocantinense morando no exterior e acompanhando o dia-a-dia do Estado
De propósito, resolvi escrever este texto somente alguns dias depois de passado o dia da eleição e apuração das eleições municipais de 2016 no Tocantins. Vamos tratar de Palmas, em função de abrigar a maioria dos servidores públicos do Estado e, portanto, ter uma maior influência por causa da atuação do Governo do Estado. E de cara eu já digo que Carlos Amastha (PSB) não foi reeleito. Ele foi reconduzido ao cargo por causa do voto de protesto de grande parte dos servidores públicos estaduais – em greve há quase dois meses – em função do não atendimento de reivindicações e outras questões relativas ao funcionalismo.
Só para que se tenha uma ideia, uma mensagem com boato de que o governo iria parcelar os salários a partir de outubro e que já tinha tudo pronto e acertado com a Assembleia Legislativa demorou mais de 10 dias para ser desmentida pelo governo. Este, que em tese apoiava a candidatura de Cláudia Lelis, só desmentiu essa história de parcelamento de salários na véspera do dia de votação. Além disso, por conta da falta de pagamento desde maio, deixou que os serviços de atendimento médico do PlanSaúde fossem suspensos totalmente ao funcionalismo na semana que antecedeu a eleição e só resolveu, pela via judicial, dois dias antes dos eleitores irem às urnas.
Por essas e outras que a candidata Cláudia Lelis (PV) não conseguiu fazer frente e ainda despencou nas pesquisas na véspera da eleição. O que se ouvia nas ruas é que “seria uma boa candidata para votar, mas carregava todo o peso do governo nas costas”, ou então, “não vou votar em candidato desse governo”. Ela ainda tentou arrebanhar os votos úteis de Raul Filho, mas a dança judicial desta candidatura não permitiu.
Falando em Raul Filho, o ex-prefeito perdeu para sua própria falta de estratégia político-eleitoral. Primeiro, porque boa parte da população só guardou de seus oito anos como prefeito a parte ruim dos dois anos finais, que foi não cuidar dos buracos no asfalto da cidade e ainda não fazer a decoração natalina. Com relação à decoração natalina, aparentemente um tema bobo, como Raul desdenhou no debate da TV, os comerciantes e a população consideram de grande importância. Para os comerciantes, é a data comercial que mais gera vendas durante o ano e a cidade enfeitada atrai pessoas de fora e estimula os compradores da própria Capital. Para a população em geral, o Natal gera mais empregos e estimula as pessoas a permanecerem na cidade para as compras, estimulando também o clima de confraternização. Somando os dois temas, cidade sem buracos e o clima natalino, fizeram as pessoas terem uma lembrança ruim da administração de Raul Filho, mantendo sua rejeição em níveis altos.
Raul ainda perdeu para si mesmo quando deixou que um processo bobo o deixasse impedido de disputar a eleição. Condenado na Justiça Federal por crime ambiental, já em segunda instância, o ex-prefeito sequer compareceu à sua seção de votação no dia da eleição pelo simples fato de estar com o título suspenso. Muitos eleitores ficaram decepcionados com a falta de consideração de Raul Filho de estimular o voto em sua candidatura sabendo que não poderia ser votado. No final das contas, os votos de Raul devem ser contados como nulos, ou pelo menos deveriam. Isso faria com que o número de votos brancos, nulos e abstenções fosse maior que os votos dados ao candidato eleito. Isso aconteceu em muitas cidades brasileiras.
Também interessante é que Raul Filho tenha demorado três dias para se pronunciar sobre o resultado e para agradecer os votos recebidos. Ao ponto de veículos de comunicação estamparem manchetes do tipo: “Onde está Raul?”
E ainda dá um tempinho para lembrar do Aragão, que pensou ter uma votação estrondosa em Palmas depois de conseguir 40 mil votos para Senador em 2014. Esqueceram de explicar para o Aragão que cada campanha tem suas nuances e são completamente diferentes. Além disso, quando foi candidato ao Senado, Aragão tinha mais tempo de TV, mas foi prejudicado pela campanha de Ataídes Oliveira ao governo. Mas isso foi outra história. Aragão perdeu a oportunidade de recomeçar como vereador mais bem votado de Palmas e, talvez, do Brasil, proporcionalmente falando.
Já o Zé Roberto (PT) fez a lição de casa. Apesar da baixa momentânea do PT, o deputado fez a marcação de espaço de seu partido e conseguiu até emplacar um bom discurso ao eleitorado. No debate, mostrou que conhece bem Palmas e seus problemas e que está mais bem informado até que o atual e reeleito prefeito. O eleitor certamente lembrar-se-á dele na eleição de deputado estadual em 2018.
Finalizando, Amastha conseguiu capitalizar bem os problemas dos seus adversários e confundir os eleitores que lhe eram contrários. Os marketeiros de Amastha foram mais eficazes e eficientes que os de seus adversários, explorando bem as fraquezas já explicadas acima. Um fato chegou a prejudicar sua campanha, a prisão do secretário municipal de Finanças, Cláudio Schuller, pela Polícia Federal na semana anterior à eleição. Mas os problemas de Raul e Cláudia foram bem maiores que isso e o fato não foi explorado por seus adversários. Assim, mesmo procedendo como políticos antigos (aumento de impostos na calada da noite, contratações sem licitação duvidosas, desrespeito ao funcionalismo municipal e até aplicações duvidosas de recursos do fundo municipal previdenciário – na véspera da eleição a Prefeitura de Palmas estava sem Certificado de Regularidade Previdenciária-CRP, o que a impede de receber recursos federais e firmar convênios e empréstimos). O eleitor enganou-se ou foi enganado. (Do Site Agora-TO)

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