Jovens empreendedores e a compulsão por trabalho

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Criativos, inovadores, focados e estratégicos. Essas características definem bem a maioria dos jovens empreendedores brasileiros. São pessoas superconectadas, que buscam colocar em prática as melhores ideias,  correm contra o tempo e não medem esforços para alcançar resultados satisfatórios para os negócios.
Muitos entendem que empreendedor é quem não tem medo de trabalho duro e que desenvolve suas atividades por muito tempo em algo que passe a dar resultados financeiros ou de promoção pessoal. No mercado, o conceito de empreendedor tem sido divulgado como aquele que sempre precisa ter uma ótima ideia e que seja colocada em prática logo para dar certo em pouco tempo.
Quando a ideia não dá certo tão rápido, a pessoa já acha que tem de mudar, tem de fazer algo a mais, e assim começa a cobrança exagerada. Isso tem criado uma geração de ‘adultos jovens’ que não consegue esperar, que não dá tempo ao tempo para as coisas amadurecerem e se atropelam em ideias e atitudes. É certo que com a tecnologia, tudo acontece em uma velocidade maior, assim grandes marcas surgem, algumas somem e outras se reinventam. O grande medo da juventude é ser efêmero ou que a sua onda passe logo neste cenário, por isso os jovens se cobram muito para ter a melhor ideia.
Há uma constante cobrança desses ‘adultos jovens’, que são pessoas de 20 a 35 anos imersas em uma competitividade contra eles mesmos. Cada dia que passa se cobram ser melhores do que foram no dia anterior e pretendem mudar ainda mais o mundo, seja no âmbito social, ambiental e na perspectiva ética. A cobrança é tamanha que ele entra em conflito com valores pessoais.
Alguns passam a se questionar sobre seus próprios hobbies e diversão. É como se não pudessem descansar, como se tivessem que ter a ideia que o outro teve, alcançar o que o outro alcançou. E não olham pra si para descobrir qual é o real desejo e objetivo da sua própria vida.
Por não saberem o real desejo em relação às próprias vidas, algumas pessoas acabam por ter no trabalho a única fonte de satisfação e reconhecimento. Isso pode trazer prejuízos para a saúde física e mental. Essa tal busca é incessante, mas não se sabe o que se deseja e isso torna a busca mais intensa e cada vez com menos sentido ou significado para a pessoa, tornado vazio o seu dia a dia.
Certos indivíduos acabam por não se permitirem ter uma agenda livre ou sem compromisso, tendenciados a ter sempre o mesmo discurso de que estão na ‘correria’ ou de que não tem mais tempo pra nada. O tempo é o mesmo para todos, o que diferencia um trabalhador empenhado de um workaholic patológico é o modo como se prioriza vida pessoal e profissional, amigos e trabalho, assumindo assim a prioridade de cada dia.
Se esse jovem se dedica apenas ao trabalho, é certo que haverá um prejuízo à saude. Fisicamente surgem rinites, alergias de pele, problemas de visão, dores em pescoço e ombro, colesterol alto e mesmo a obesidade. Psicologicamente, há estresse, ansiedade, bruxismo, insônia e até doenças de pele.
A solução é tentar vivenciar as diferentes partes do dia de diferentes modos, no intento de abarcar as múltiplas possibilidades do indivíduo. O segredo está em exigir de si todos os aspectos relacionados à sua personalidade, ou seja, ao explorar as diferentes e amplas capacidades da pessoa, ou de si mesmo, acaba por perceber a sua grandiosidade em diferentes aspectos, as novas capacidades e novas saídas. Assim o melhor é explorar cada parte a fim de que se possa compor um ser humano em sua totalidade, tanto para sua vida no trabalho como em sua vida fora dele.
Danilo Suassuna é psicólogo do Instituto Suassuna. Doutor e Mestre em Psicologia, escritor e professor.

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