A velha e a nova política brigam pelo poder em Goiânia

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Iris traz consigo a carga de mais de 50 anos atuando na vida política

Vanderlan Cardoso (PSB), aliado ao PSDB do governador Marconi Perillo, tenta bater o poderio de Iris Rezende (PMDB), que traz consigo o peso – positivo e negativo – de mais de meio século de vida política

Manoel Messias

Neste domingo, dia 30 de outubro, os eleitores de Goiânia irão às urnas representar toda a população da capital, estimada em quase um milhão e 500 mil habitantes. É um momento ímpar, porque se chega a uma encruzilhada. Não se pode dizer que há dois caminhos opostos, mas de alguma forma eles representam duas possibilidades distintas. De um lado, Iris Rezende, com o peso de ser o político vivo com maior história em todos os tempos da política goiana. De outro o empresário Vanderlan Cardoso, que, apesar de ter sido prefeito de Senador Canedo não passa de um novato e termos de história política frente à magnitude da biografia de Iris.
O pleito na capital, como de resto em boa parte dos municípios goianos, é marcado pela polarização entre dois grupos políticos: aquele liderado pelo próprio Iris Rezende, encabeçado pelo PMDB, e o liderado pelo governador Marconi Perillo, do PSDB. Mas o que, de fato, representa essa disputa? É possível ao eleitor de Goiânia escolher, sem paixões, por um candidato que melhor conduzirá os destinos da capital para os próximos quatro, oito anos?
A resposta não é simples. Para começo de conversa é preciso lembrar o que os dois candidatos, Vanderlan e Iris, representam no espectro político goiano. Enquanto Iris, com sua marcante presença em mais meio século na política de Goiás, deseja voltar ao comando da capital pela quarta vez, Vanderlan almeja pela primeira vez chegar a um posto político de destaque. Iris traz consigo, além do peso de sua trajetória, toda a carga positiva e negativa acumulada durante mais de 50 anos de vida política. O desgaste é imensurável. A evidência desse descompasso do líder com as novas exigências da população ocorreu na eleição de 1998, quando Iris foi vencido por Marconi Perillo na corrida ao governo estadual.
Naqueles tempos, e já se vão quase 20 anos, Marconi era um franco-atirador enfrentando uma força descomunal, representada por Iris Rezende e todo o poderio por ele construído em mais de 40 anos de atividade política, especialmente depois da redemocratização, no início dos anos 1980, quando se elegeu o primeiro governador após o Golpe Militar de 1964. Iris perdeu uma eleição tida como ganha e desde então, Marconi comanda a política estadual, eleito quatro vezes governador do Estado e, no intervalo, elegeu Alcides Rodrigues, seu vice, tornando, assim, o líder que mais governou Goiás em tempos democráticos.
A derrota nunca foi assimilada por Iris Rezende, que voltou a enfrentar Marconi Perillo em 2010 e em 2014, sendo derrotado em ambos os pleitos. Desde 1999, quando assumiu o primeiro mandato, Marconi implantou uma nova forma de administrar, mais moderna e compatível com as exigências de um novo Brasil, renovado pela tecnologia que possibilitou, entre tantos avanços, o acesso de grande parte da população às redes sociais, à comunicação instantânea. Uma das marcas dessa nova forma de governar inaugurada por Marconi foi a criação dos Vapt Vupt e o diálogo permanente com a sociedade organizada e os atores sociais. Iris assim, em nível estadual, estava liquidado. Ele não conseguira se reinventar para as exigências no novo país que surgira com a popularização da internet e das redes sociais. Isso é um fato.

Vanderlan almeja pela primeira vez chegar a um posto político de destaque
Vanderlan almeja pela primeira vez chegar a um posto político de destaque

Derrotado em 1998 ao governo estadual, Iris não se deu por totalmente derrotado, e em 2004 venceu a eleição para prefeito de Goiânia, o que, para quem tinha sido governador por duas vezes, ministro, senador, representava de certa forma um retrocesso. Iris se diminuiu ao concorrer à prefeitura de Goiânia. Além de ser um cargo inferior aos que já tinha ocupado, concorrer à prefeitura de Goiânia representava uma espécie de prêmio de consolação ao político impossibilitado de chegar ao governo estadual. E isso se deu não por capricho do destino, mas porque o eleitor de Goiás reconheceu que Iris estava ultrapassado para comandar os destinos do estado. Marconi representava o futuro, uma nova forma de governar, mais participativa, menos autoritária, democrática e moderna.
Mas em Goiânia, todavia, apesar de sua ligação com a política do passado, Iris era um nome imbatível, não por ser o novo, o futuro, mas pelo seu peso político, especialmente por ter sido prefeito eleito ainda na década de 1960. Assim, Iris foi eleito e reeleito em 2008 prefeito de Goiânia.
Todo esse histórico serve para mostrar que na eleição de Goiânia, no próximo dia 30, está em jogo novamente o embate entre as duas forças que dominam o poder em Goiás desde os anos 1990, comandadas de um lado por Iris Rezende e de outro por Marconi Perillo. Apesar de não estar diretamente envolvido na disputa, Marconi é o comandante do PSDB e o vice de Vanderlan Cardoso, Thiago Albernaz, é do PSDB. Ninguém duvida de que a vitória em Goiânia representa um grande passo na vitória ao Palácio das Esmeraldas, ainda que paradoxalmente não haja relação direta – sendo na verdade opositiva essa relação – entre a força política eleita na capital e aquela vencedora na esfera estadual. Mas o fato é que o grupo político que vencer em Goiânia no próximo dia 30 sai fortalecido para a eleição estadual de 2018.

Consciência
Portanto, é salutar que o eleitor da capital vote com a consciência de que, na sua decisão, estão em jogo dois modelos de fazer política: de um lado, a velha e tradicional forma de lidar com a coisa pública, representada por Iris Rezende; de outra, o nome novo que pode representar uma guinada na forma de administrar em Goiás, Vanderlan Cardoso. Mas o que credencia Vanderlan a ser rotulado de novo ou moderno? Nesta campanha ele está aliado à forma do PSDB – e logo de Marconi – de fazer política. Mas ele já enfrentou Marconi em outras disputas. O raciocínio é de que nada garante que Vanderlan fará um ótimo governo ou um governo moderno, a não ser acreditar em suas propostas; todavia, no caso de Iris é previsível por todo seu histórico que ele continuará na velha forma de fazer política, por uma razão elementar: foi o que ele sempre fez em toda sua longa trajetória política. Portanto, eleitor, você decide: continuar com a velha forma de fazer política ou dar um crédito à inovação, que, como sabemos, implica em riscos, mas pode ser altamente positiva.


Candidatos tentam desqualificar o adversário

A campanha para prefeito de Goiânia deste ano ainda não terminou, mas já é possível perceber que ficará marcada pela tentativa de desqualificação entre os dois principais adversário, que tentou colar a imagem do concorrente a políticos que estão mal avaliados não opinião pública. Especialmente o candidato do PMDB buscou vincular a candidatura e o próprio Vanderlan Cardoso com o governador Marconi Perillo, esperando assim enfraquecê-lo.
Pesquisas indicam uma avaliação negativa da administração de Marconi Perillo no momento, todavia não é garantido que o apoio dele, como governador, retire voto de um candidato a prefeito da capital. Nesse esforço para tentar atingir Vanderlan, a coligação de Iris Rezende abusou dos artifícios e acabou sendo punida pela Justiça Eleitoral, especialmente por ter dito, na propaganda política, que Vanderlan iria criar mil cargos na prefeitura de Goiânia que seriam entregues a Marconi Perillo. Além de ter sido condenado a pagar multa por infringir a legislação eleitoral, Iris foi obrigado a retirar a propaganda do ar e ainda foi dado direito de resposta a Vanderlan.
Diante dos ataques, a coligação de Vanderlan Cardoso resolveu usar da mesma moeda. Na semana passada passou a veicular nas pílulas de propaganda no rádio a relação de Iris com o PT dos ex-presidentes Dilma e Lula, além da vinculação entre o PMDB de Iris e o PT de Paulo Garcia, prefeito que foi vice de Iris e que é muito mal avaliado. A propaganda de Vanderlan mostra elogios de Iris a Dilma e Lula e vice-versa. A equipe de comunicação de Vanderlan acredita que, dessa forma, vinculando Iris ao PT, possa retirar votos de Iris, já que o partido de Dilma e Lula passa por sua maior crise, com péssimo desempenho nas urnas.
Não se sabe o efeito desses comportamentos durante campanha. Em alguns casos, os ataques parecem funcionar, como a vinculação, na campanha de governador de 1998, de Iris Rezende a uma panelinha política e a velhas práticas administrativas; nesse caso, o irismo estava desgastado pelos 16 anos de poder e apresentava pouca renovação, o que talvez tenha contribuído para pegar no candidato a pecha imposta pelo adversário. O fato é que o improvável aconteceu e naquele pleito Marconi Perillo (PSDB) venceu Iris com um discurso da renovação. Em Goiânia agora os tempos são outros e as relações políticas têm outra configuração. O modo como o eleitor olha e percebe o cenário político certamente é diferente.

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