Medo e Violência

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Nosso Deus é medo? Por que cultuamos o temor? Qual é o sentido de viver no embate, na pancadaria pra sustentar uma psíquica disputa de poder que a nada conduz? Jean de La Fontaine, o mestre das fábulas já dizia: “E todos acreditamos facilmente naquilo que se teme e se deseja”. Do que é que você tem medo? Será que os teus medos não são maiores que você mesmo?
Foram cinco minutos em que assistia propaganda eleitoral gratuita pra observá-los: a dupla infalível medo e agressividade. Falta de classe, ataques pessoais e uma pura manipulação da opinião publica para tentar, pelo medo, ganhar votos. Propostas de inovação inexistentes, criatividade zero, mas nos ataques, presente ali, a raiva, o medo, a insegurança. A política espelha o que fazemos hoje nas redes sociais, no convívio social, nos relacionamentos afetivos, no sexo, na religião, na educação, na família, enfim, em todas as instâncias sociais.
Temos muita violência na sociedade em todas as esferas por que nos alimentamos do medo. Medo que é mercado, uma instituição ampla que é uma das mais lucrativas se pensarmos nos dividendos da indústria de armamentos, em todos os gastos com segurança pública, seguros, condomínios fechados, sistemas de segurança, proteção etc… quantos trilhões hoje no mundo são investidos para que você se proteja, para que sinta se diferenciado de outras pessoas em um “cantinho” seguro fora dos perigos deste mundo cruel? Qual é o custo desta ilusão no pensamento coletivo em nosso inconsciente cultural?
Em contrapartida, quanto dinheiro investimos para transformar as pessoas pela educação em indivíduos mais seguros, mais aptos a conter as emoções agressivas, a ter equilíbrio para superar as horas difíceis da vida? Não é difícil perceber que o investimento no medo é trilhões de vezes maior que qualquer tentativa de se desenvolver pessoas com maior capacidade de elaboração afetiva para conter seus próprios instintos. Mas como você lida com seus medos? Você agride os outros para se proteger?
Toda esta temática me fez repensar no quanto ainda, nesta civilização, somos presos aos instintos básicos, a força da natureza que nos assemelha a insetos e animais, vivendo no ataque e fuga. As redes sociais, os noticiários, televisão, do cinema de Tarantino aos clássicos da aventura, investimos em nosso lazer para ver banho de sangue, pancadaria, alguém sendo esfolado e a isto chama-se de diversão. Nosso ser primitivo que sempre gostou de um Cristão jogado às feras na Arena…
Reproduzindo Stendhal: “O medo nunca está no perigo, mas em nós”, fenômeno já observado por Camões, Cervantes e os sensíveis escritores, poetas da humanidade. Onde foi que você colocou sua paz de espírito, sua suavidade, sua tranquilidade?
Que animal hoje representa o ser humano, que tomado por sua Sombra, vivendo por e para seus próprios instintos, personifica uma Persona de um arauto de agressividade em uma tentativa tosca de proteger aos gritos a humanidade que ele mesmo destrói?
Quem é que com medo vai construir uma vida de paz e serenidade?

Jorge Antônio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C.G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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