Navalhadas na crise

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Marcus Raphael, conhecido como Dudu, percebeu a onda de demissão que rondava o shopping em que trabalhava como manobrista e investiu na capacitação para mudar de ramo

Barbearias, sejam do modelo tradicional ou moderno, são um mercado atrativo. Para driblar onda de desemprego, trabalhadores investem em cursos profissionalizantes. Somente este ano, turmas de barbeiros do Senac já formaram 200 novos profissionais

Yago Sales

No campo de grama esverdeada e bem aparada, jogadores driblam triunfantes sobre o adversário e balançam a rede. Stive Sena, de 20 anos, vibra diante da televisão na casa onde mora com o pai, em Trindade. Mas ele não observa apenas a desenvoltura em campo. Barba a fazer, cavanhaque, bigodes em ângulo quase reto, cabelos com tintura e penteados inusitados dos jogadores também lhe chamam a atenção. Isso explica por que não sai de casa sem passar um bom tempo em frente ao espelho, cuidando da aparência.
A partir da mania de cuidar de si, quando foi demitido de uma vidraçaria este ano, não pensou duas vezes. Após receber o acerto, procurou Isaac, um conhecido barbeiro de Trindade e perguntou se não tinha uma “maquininha” em desuso. “Pega aquela ali”, disse. Stive comprou a máquina de corte super taper wahl branca. “Bem cuidada”, garante. No mesmo dia, ajeitou um espelho na parede, puxou uma cadeira comum, improvisou a toalha e cortou o cabelo de cinco amigos. “Só não cobrei o primeiro, para mostrar que podiam confiar. Não parei mais”, conta.
Stive não quis se tornar estatística de desemprego no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), pelo menos 22,7 milhões de pessoas com idade produtiva estão desempregadas ou trabalham menos do que poderiam. O número, referente ao segundo trimestre deste ano, é a somatória dos desempregados, subocupados e inativos para trabalhar no país.
De tanto levar as fotos dos cortes que fazia ao dono da barbearia do seu bairro, Stive acabou convencendo-o. Conseguiu o emprego de barbeiro, em contrapartida, teria de procurar o Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac) para fazer o curso de Barbeiro. “Procurei a unidade e me matriculei. Hoje consigo fazer cerca de oito cortes por dia”, gaba-se. O dinheiro que ganha dá para pagar o curso e comprar os objetos que compõem seu imaginário: navalhas, maquininhas, giletes e outros.

Capacitação
A convite do professor Flávio Renato, da unidade Senac Elias Bufaiçal, no setor Aeroporto, Marcus Raphael, conhecido como Dudu, de 29 anos, apara a barba de um voluntário, sob o olhar atento de Stive.
Dudu percebeu a onda de demissão que rondava o shopping em que trabalhava como manobrista em Goiânia. Sem perder tempo, paralelamente ao emprego, procurou o curso de Barbeiro para investir no negócio próprio. “Fiz o curso para me profissionalizar e buscar habilidade.” Depois de pegar o diploma, pediu demissão e criou uma logo para o salão Dudu Badershop, que  compartilha nas redes sociais. O salão está quase todo montado, no setor Condomínio das Esmeraldas.
“A gente não pode parar, tem sempre de buscar capacitação. O mercado tem lançado muitas tendências e precisamos acompanhar. E o público exige”, alerta.
“E nada melhor do que formar pessoas que atendam à demanda”, diz Priscila Brito, supervisora técnica dos cursos de Beleza e Aprendizagem do Senac. “Antigamente, o foco maior era o corte. Os homens não estavam acostumados a usar barba no ambiente de trabalho. Com essa nova tendência, é importante capacitar nossos profissionais devido à procura frequente de moços estilosos”, ressalta.
“Os empregados, ou os patrões, têm que ter um bom cartão de visita, com aparência bem cuidada. E isso demonstra um cuidado da empresa também”, explica Priscila. Em 2016, pelo menos 200 alunos, distribuídos em 16 turmas, terão se formado no curso de Barbearia, que teve início em junho. Priscila destaca ainda que sete turmas estão em andamento, num total de 121 alunos. “Alguns deles já trabalham em salões, outros buscam uma renda alternativa”. Em Goiânia, duas unidades oferecem o curso para barbeiros: Elias Bufáiçal e Vila Redenção. Pelo interior, já oferecem o curso as unidades de Anápolis, Iporá, Itumbiara, Caldas Novas, Rio Verde, Mineiros e Aparecida de Goiânia.
O presidente da Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio), José Evaristo, explica que o Senac tem tradição em oferecer capacitação profissional na área da beleza. “O Senac de Goiás tem vários cursos em várias cidades que buscam capacitar profissionais que pretendem atender com excelência”, disse. “O segmento de beleza, de modo mais amplo, é um grande atrativo para o público, sobretudo feminino. A participação dos salões masculinos soma cerca de 20%. Mas temos vistos salões masculinos buscando agregar valor a seus serviços e, por isso, crescem”.
José Evaristo conta que a nova tendência dos salões masculinos não passou despercebida. “Visitei alguns para entender melhor. Eles são equipados com mesa de bilhar, barzinho para o cliente tomar café. Isso é inovação”.  O barbeiro não quer perder o cliente que, no aguardo de sua vez, utiliza o frigobar, joga uma sinuca ou o videogame.
O presidente observa que não tem segredo para montar um salão. “A capacitação já tem, no Senac. É preciso um registro do estabelecimento que não tem muita burocracia”. Se a demandar for maior que a capacidade do proprietário, ele poderá contratar “meeiros”. “Eles ganham 50% do que ganham em cada serviço prestado usando, muitas vezes, os instrumentos do proprietário do salão que não terá muitos problemas para contratar profissionais como meeiros. Isso é aceito pela legislação”, explica.
Sobre a formalização, o vice-presidente administrativo do Conselho Regional de Contabilidade  (CRC), Rangel  Francisco, ressalta que é de suma importância tornar o negócio  legal. “É  sempre vantagem a pessoa estar com seu empreendimento legalizado,  sobretudo como microempreendedor. Algumas vantagens lhe são  garantidas, como a contribuição  do INSS. Ele terá um CNPJ, com isso consegue tirar os alvarás de lenciamento e existem algumas linhas de crédito abertas”, explica.
O fundamental, porém, é o atendimento. “Tradicionalmente, a maioria dos clientes são fidelizados. Procuram o mesmo profissional. É o perfil do consumidor deste tipo de segmento”, explica Evaristo. Se o atendimento não for priorizado, o cliente muda de salão”, alerta
Dudu não perde tempo. Sabe como conquistar a freguesia. Não deixa nenhum cliente sair ileso. Depois do corte, sempre posta a foto com frases de entusiasmo e agradecimento na conta do instagram com a hashtag #DuDubabershop. Ainda no improviso na área de casa, ele garante a volta de clientes que compartilham o ânimo do barbeiro que não se deixou levar pela ode da crise.
“Goiânia tem quase 2 mil barbearias, esparramadas por todos os bairros”, afirma  Marcelino Vitor Lucena, presidente do Sindicato dos Proprietários de Barbearias, Institutos de Beleza e Afins do Estado de Goiás (Sindibeleza-GO). “Essas barbearias contam com quase 3 mil barbeiros. Nos últimos dois anos, tivemos um crescimento de 30% nos últimos dois anos, um crescimento de 30%”. A nova tendência apresenta ao goianiense o Undercut e o Pompadour, um novo estilo de atendimento vindos da Europa.
Sobre o crescimento das barbearias, Dudu tem um diagnóstico: “Em Goiás tem muito cantor sertanejo e jogadores que buscam se diferenciar”. Ele segue dezenas de perfis de famosos no instagram. De Gustavo Lima a Neymar. “E se um cliente me pedir para contar ou ajeitar a barba igual de um famoso?”, interroga Dudu, que espera contratar um ajudante.

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