Me ama!

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Andei a navegar nas terras do amor e da paixão. Perguntando a Querubins e até aos demônios o por que da ventura e desventura deste aprisionamento. Nem santos nem poetas me deram resposta. Louvado por Jesus, ressabiado pelo apóstolo Paulo, segue a jornada do amor em nossas vidas. Quem não quer beijo, colo, afago, ter as pernas bambas no frenesi de encontrar o amor que se aproxima? Ele ali está na saga de Eros e Psique na mitologia grega, em Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta. E pernoita as várias noites sem sono dos enamorados. Queria que estivesse aqui.
Quem não alimenta a inveja do desejo de viver o conto de fadas, de viver o eterno querer, diante de um bem, no “felizes para sempre”? A inveja do que vemos nos filmes e no contemplar dos velinhos de mãos dadas no banco da praça no por-do-sol de março. Qual a sombra diante da luz sempre a nosso lado, vivemos da necessidade do amor.
De Joaquim Manuel de Macedo a Clarice Lispector, de William P. Young a Nicholas Sparks, reinventamos o mesmo jeito de falar do drama universal, o arquétipo de Jung, da necessidade. Amor é sobreviver.
Quem não quer colo?
Um dos autores que melhor versou sobre a história do amor foi Joseph Campbell. Especialmente por mostrar o racionalismo na construção ocidental e a disputa do poder nas histórias de amor que são crivos de ordenação social.
Por sua vez, o analista James Hillman nos mostra  que tudo isto encadeia-se diretamente com o sentido de nosso existir, no confronto com nosso destino.
Alguns dão sorte, outros vivem no eterno querer. Lembrei do homem poderoso de coração frio que muito amou em “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, ou do Bentinho de Capitu, de Machado de Assis. Esta cruz tem seu peso e é escrita em nosso parnasianismo, na morte sofrida pela tuberculose e na expectativa da chegada do bem amado, que as vezes não vem. É o lamento de João da Cruz. Como te quero!
Odiado por uns, evitado por outros na ilusão da independência, criando por vezes a clausura do ser que habita a caverna tentando abstrair as batidas que sente no peito. Feridas mal cicatrizadas efervescem e o coração indomado raras vezes escolhe quem amar. Para alguns fugir não é opção, é uma chance de subsistir diante do drama da incompatibilidade. E muita teoria e ideologia foi criada na ilusão de controle e condicionamento de afeto. A modernidade reinventou um jeito de vivenciar o recalque na aptidão do racionalismo e negação. Por fora, sorriso; por dentro, gelo.
Outra leitora me trouxe este questionamento, falando de sua história, da eterna busca do bem que ameaçou vir, mas não apareceu. Falou em sua carta de seu romantismo e do quanto hoje isto é chacota entre as amigas que fazem sexo aleatório como jogo de azar.
Hoje há pessoas que momentaneamente são felizes, no cultivo da ilusão que se esvanece com qualquer brisa. O amor pós-moderno sofre do mal do egoísmo. Egoísmo que decretou o fim do romantismo, preferindo banqueiros a poetas ou o ideal do poeta banqueiro. Isto serve a uma boa reflexão.
Medo é outra palavra chave problema. Quero alguém que me dê segurança. Novo isolamento. Quem é que vai segurar o outro de seus defeitos? Alguém por aqui presta? Resumindo: falamos de amor, mas há tanto ego, tanta onipotência que na atualidade, o que menos importa é o que realmente existe no coração. Você realmente quer um?
As crises afetivas estão por traz de várias psicopatologias. Pelo menos um terço das pessoas que procuram um consultório para análise o faz por conflitos de relacionamento. E a vida levada de barriga, que desconsidera o coração, é a resposta que dou ao movimento da ilusão pós-moderna. O negócio coração vai falir. Impossível mentir a si mesmo.
Particularmente prefiro poetas a banqueiros.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C.G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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