“A Câmara deve ser nova em atitudes, não de caras e nomes”

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Foto: Paulo José

Engenheiro civil por formação, o vereador eleito Vinícius Cerqueira (PROS) chega à Câmara Municipal de Goiânia como um dos representantes da grande renovação que deve impactar o Legislativo a partir de janeiro de 2017. Aos 32 anos, ele é casado, pai de dois filhos, e alcançou o título de terceiro vereador mais bem votado, com 8.582 votos, nas últimas eleições. Avesso a rótulos, Vinícius Cerqueira não acredita na divisão entre novatos e veteranos. “A Câmara é uma só”. Ele garante que pretende pautar seu mandato pelo diálogo com a população, os colegas do Legislativo e o Poder Executivo.

Daniela Martins, Yago Sales e Fabíola Rodrigues

O senhor faz parte da renovação da Câmara, que nesta eleição alcançou mais de 62%, e também chega ao Legislativo como o terceiro vereador mais bem votado de Goiânia, com 8.582 votos. Por outro lado, a classe política e nossas instituições, assim como a Câmara, estão desacreditadas pela população. Diante deste cenário, quais são as perspectivas do vereador Vinícius Cerqueira para este início de mandato?
É importante ressaltar que essa renovação foi justamente pela população estar desacreditada na classe política. Muitos deixaram de ir às urnas, muitos anularam os votos ou votaram em branco. Mas a grande maioria sabe que toda transformação ainda vem da política, não tem como negar isso. Ao tentar essa mudança que a população espera, a votação migrou para essa renovação. É uma renovação de esperança em novas atitudes na Câmara, de uma nova Câmara. Sempre falo que não adianta ser novo na Câmara, mas ter atitudes antigas. Então, a importância é uma nova Câmara de atitudes, e não de caras e nomes. Tem gente muito boa que está na Câmara e retornou. E tem gente muito boa que entrou e vai poder demonstrar isso. Agora cabe a essa Câmara demonstrar que é um nova Câmara, sem esse recorte de novatos e veteranos, acho que a Câmara é uma só.

Como conseguir quebrar isso? Essa lógica de política antiga, como fazer isso na prática?
De imediato, já estou tentando inovar meu mandato, tentando fazer com que a população possa participar efetivamente de um mandato popular usando a tecnologia. Estou criando um aplicativo tanto para IOs quanto para Android, onde as pessoas vão poder dialogar com o nosso mandato pelo smartphone, porque sei que a maioria das pessoas são muito corridos, ninguém tem tempo. As audiências públicas da Câmara são durante as manhãs, o cidadão está trabalhando, como ele vai lá para participar de uma audiência pública nesse horário?
Esse é o projeto do Gabinete Digital?
Isso. O Gabinete Digital é algo que nós estamos tentando inovar para que a população possa participar efetivamente da Câmara e que a gente possa ter um diálogo muito salutar. A população deve saber o que acontece na Câmara. O vereador trabalha muito, bobeira falar que o vereador não trabalha, que são só três sessões. São três sessões durante o plenário, mas a todo momento o vereador está trabalhando, de dia, à noite, com a população, resolvendo questões da cidade e a gente tem que mudar essa concepção. Durante toda a campanha a gente tinha de falar de propostas e ao mesmo tempo convencer o eleitor da importância da política. Qualquer ato que acontece na Câmara vai refletir diretamente na vida, na casa do cidadão. Cabe a ele participar ou não. Eu sempre o conscientizei de que não participar é pior, porque você está perdendo a oportunidade de opinar, de tentar fazer com que as mudanças na cidade venham para o lado bom.


“A sociedade pode se organizar e fazer algo diferente”

O sr foi candidato pela primeira vez, em 2012, pelo PCdoB alcançoucerca de 3.600 votos e ficouna suplência. Agora o sr mais que duplicou o número de votos. O que o sr fez de diferente nesta eleição?
Nunca parei de trabalhar. Sempre tive o sonho de ser vereador por Goiânia. Em 2006 comecei minha trajetória política, em 2009 virei conselheiro tutelar. Em 2006 criei uma associação, uma ONG, onde trabalhava com esporte para a juventude mais carente. Depois virei conselheiro tutelar, dois anos e meio depois, tentei a vaga no legislativo e não obtive êxito. Mas mesmo assim, nós continuamos trabalhando a todo vapor. Se eu não tivesse sido eleito agora continuaria trabalhando na mesma metodologia. Talvez não para alcançar a Câmara, mas para mim ideologicamente é importante demonstrar que a sociedade pode se organizar e fazer algo diferente.

O senhor foi eleito com mais de 5 mil votos na região do Guanabara, uma região carente. O sr vai defender as pautas que não são muito representadas no legislativo goianiense?
Com certeza. Cresci no Jardim Guaranabara, conheço seus problema e a população depositou em mim essa quantidade expressiva de votos, mas sou vereador por Goiânia. Assim, com relação a toda matéria, toda lei, tudo que eu for debater e discutir, estarei falando da cidade de Goiânia, com quase um milhãoe meio de habitantes. Claro que por eu ter uma representatividade muito grande no Jardim Guanabara, com certeza a opopulação vai estar mais próxima. É bem claro também que sou vereador hoje, amanhã posso virar prefeito, um deputado e para isso tenho que defender a cidade de Goiânia. Não posso pensar só, exclusivamente, num único bairro. Lógico, que é o bairro em que nasci, cresci e tenho um carinho imenso pela população.

O sr. vai ser um representante da população mais carente?
Com certeza.

E o que essa população demanda?
Infelizmente, às vezes a população deturpa um pouco a função do vereador. Quando você fala de gerar emprego e renda, está falando de cuidar dessa população mais carente. Quando você fala de ter vaga de Cmei, debate e briga por isso na Câmara, você está ajudando a população mais carente. Quando fala de ter esporte para toda criança, que ela tenha oportunidade de praticar esporte no contraturno escolar, você está brigando pela população mais carente. Porque o cidadão bem financeiramente tem condições de pagar uma escola de tempo integral para o filho dele, tem condições de pagar a faculdade, pagar um esporte. Já a população carente, de um país que hoje vive recessão, onde o desemprego aumenta a cada dia, as primeiras coisas que essa população corta são nessas áreas. E são áreas muito importantes para a juventude, para a mulher, os idosos. Quando você briga por essas bandeiras, que eu já defendo há algum tempo, sua luta atinge automaticamente a população mais carente.

Na sua opinião, quais são os principais problemas que a cidade enfrenta e como devem ser enfrentados pela Prefeitura logo de início?
Hoje, para mim, os principais desafios que o prefeito e a Câmara têm são a saúde, um dos maiores problemas, e a questão do transporte público. O transporte é um problema que passa ano e entra ano ninguém consegue resolver de fato. Tem ainda a questão da segurança. Hoje, todas as pesquisas qualitativas em Goiânia levantam a questão da segurança pública. Só que eu, como militante dessa área mais de prevenção da segurança pública, sei que segurança não é um papel só de repressão. Hoje, as pessoas avaliam muito que está faltando polícia na rua. Tudo bem, a questão do policiamento na rua é muito importante, mas se não tiver políticas públicas para prevenir que as novas pessoas entrem na criminalidade, isso torna-se uma bola de neve. Nós estamos aqui enxugando gelo. Hoje, é notável que cadeia não tem mais espaço e que a cadeia não recupera ninguém. Então, a gente tem que tentar entender que as formas de prevenção são muito mais eficazes, só que o tempo para apresentarem resultado é maior. Por exemplo, essa prevenção é oferecer o cuidado à criança que hoje tem 8 anos para quando ela chegar na idade de 18, 20 anos ela ter um emprego, educação de qualidade. Isso demora um tempo e o mandato é de quatro anos. Então, nós políticos temos esse desafio de tentar fazer com que a população não seja apenas imediatista. É importante o policiamento na rua, o videomonitoramento, é importante a repressão… mas se a gente não entender que é muito mais barato você prevenir, aí a segurança pública vai por água abaixo, como já está.


“Quem tem dado oportunidade para nossa juventude é o tráfico”

Como a Câmara pode ajudar a solucionar esses problemas, mostrando que não só são necessárias soluções imediatistas, mas soluções a longo prazo?
Por exemplo, em nosso primeiro ato, vou defender a contratação de menor aprendiz pela Câmara. Hoje, a própria Câmara não tem contratado nenhum menor aprendiz. O que tem a ver a questão do menor aprendiz com segurança pública? Tem muito a ver. O jovem clama por uma oportunidade para trabalhar. Ele estuda, começa a ter os gastos, faz parte de uma população que cobra você ter um bom tênis, um celular bacana e a mãe não tem condições de dar. Então, se o jovem tiver um emprego, terá a oportunidade de comprar um tênis, levar a namorada para lanchar, se sentir útil. E outra,quem está dando oportunidade para a nossa juventude hoje é o tráfico de drogas, que ganha e paga bem.

Em qual área o senhor pretende atuar mais fortemente?
Fui conselheiro tutelar e tenho uma defesa muito forte na questão da criança e adolescente. Fui esportista, ex-atleta de alto rendimento. Goiânia precisa de uma lei que incentive o esporte, hoje nós estamos perdendo atletas para o ABC paulista. É muito ruim uma cidade como Goiania não ter uma Secretaria de Esportes. Já tive conversas com o próximo prefeito, já falei sobre essa questão do esporte na cidade. A questão da habitação, moradia, que é uma pauta que depois das eleições eu aprendi a trabalhar. Fui superintendente da Habitação. Enfim, eu quero trabalhar. Sou engenheiro civil por formação e esse ano que vem é um ano muito importante, vamos falar sobre Plano Diretor da cidade
O senhor já esteve na superintendência de Habitação e também foi conselheiro tutelar na Região Norte. Essas experiências devem ajudá-lo como vereador?
Eu estava do lado de lá e aí você vê os problemas que o gestor também enfrenta para implementar a política. Muitas vezes você está numa cadeira e escreve, é bonito o texto, mas ele não é aplicável. A teoria é muito boa, mas na prática não vai funcionar. Então, essa questão da gente ter feito parte da gestão, e conhecer os dois lados, tanto da população quanto do gestor, esse meio termo é o que vai falar. Isso me deu uma experiência enorme. Eu passei pela Seinfra, pela Comurg, pelo Planejamento da Cidade, pela Habitação, estou atualmente como fiscal, tudo isso me deu um gabarito muito grande para ajudar Goiânia na Câmara Municipal.


“Quero fazer política com diálogo”

Foto: Paulo José/Tribuna
Foto: Paulo José/Tribuna

Como será a postura do senhor com relação ao prefeito eleito do PMDB, Iris Rezende?
Quero ter uma postura muito independente na Câmara Municipal. No que for bom para a cidade, o prefeito pode contar comigo. No que eu não concordar, dentro do plenário, ele vai ouvir minhas críticas. Mas não serão críticas apenas por criticar, serão críticas com sugestões, fazendo emendas nos projetos que talvez eu ache melhor, discutindo, dialogando. Quero fazer política com diálogo.

A presidência da Câmara já está sendo discutida, já tem alguma articulação para a eleição? O sr já definiu seu apoio?
Todos os dias. Neste momento alguém está conversando sobre isso, principalmente com essas declarações do futuro vice-prefeito ou futuro não vice-prefeito. E de fato, o presidente da Câmara pode virar o vice-prefeito de Goiânia. Então, aumenta muito essa vontade de ser presidente. Quem não quer ser vice-prefeito de Goiânia, presidente da Câmara, com 35 vereadores? Não declarei apoio a ninguém, estou ouvindo tudo e todos. Ouvindo o que é que os pretensos candidatos à presidente pensam da Câmara. Eu defendo uma Câmara Municipal com muito autonomia, que não seja submissa, que não seja uma extensão do Paço Municipal. Lá é um outro poder, e quem tiver essa proposta de autonomia, de austeridade, de estar lutando pela cidade, fazendo esse contraponto, vai ter meu apoio, o apoio do meu paritdo.

Como avalia a gestão do prefeito Paulo Garcia?
Fiz parte desta gestão. E o prefeito Paulo Garcia, do que ele fez, não publicou nada. Poucas pessoas de Goiânia conhecem o Parque Macambira-Anicuns. E quem conhece fica encantado. Faltou divulgar mais as suas ações como prefeito. Penso também que o prefeito em alguns momentos errou, e aí eu falo que é por falta de diálogo, ele não conversava com o governador. O governador por ser uma pessoa, o baluarte, que toca o estado de Goiás, poderia ter ajudado muito mais a cidade, como ajudou em Aparecida. O Maguito Vilelajá teve muito diálogo com o governador e a gestão do Maguito é tão aprovada que ele fez seu sucessor no primeiro turno. Então, o prefeito Paulo tem esses erros e, infelizmente, deixou uma marca aí negativa na população, mas eu vejo muito mérito na gestão do Paulo também.
Com relaçao a rombos nas contas da Prefeitura, qual sua opinião?
Não fui ordenador de despesas na gestão do Paulo. Muito sinceramente, não tenho como opinar se tem rombos ou se ele pegou (a Prefeitura) com rombos, como ele declara. Penso que toda cidade do país hoje vive crise financeira. O Estado vive crise financeira, o país vive crise. O Paulo nunca deixou atrasar salários de servidores, então, se tivesse algum rombo, o primeiro a sentir seria o servidor público. Então, é muito difícil a gente falar isso, proque fica um jogando que pegou a prefeitura com dívidia, que o outro vai pegar. A crise se instalou como um todo, e não foi só em Goiânia. E aí é o que falo sobre a gente dialogar não só com o governo estadual, mas com o governo federal. Porque o Maguito fez isso muito bem nas esferas estadual e federal. Conseguiu obras, recursos, programas e tocou Aparecida com muita criatividade. O Paulo tinha muita abertura em Brasília durante o governo do PT, mas acho que faltou muito essa questão do diálogo com o governo estadual. No último ano, ele dialogou e a gestão nesse final deu uma alavancada maior. Será apenas coincidência?!

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