Set de filmagem na periferia

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Wanessa Gouveia fica em frente à câmera e estala a claquete: "Ação"

Reportagem da Tribuna do Planalto acompanha set de filmagem de curta-metragem na periferia de Goiânia

Yago Sales

Wanessa Gouveia se posiciona em frente à câmera e estala a claquete e, então, ouve-se uma voz: “Ação”. A cena: três policiais avistam um jovem negro encostado em uma moto na esquina. A viatura freia repentinamente diante do suspeito no setor Conjunto Vera Cruz II, em Goiânia. A pistola automática de um dos policiais aponta para o jovem que esboça correr. Não dá tempo. “Mão na cabeça”, grita o policial esfregando o rosto do rapaz contra o muro de placas de concreto. Uma vistoria breve revela um revólver no bagageiro da moto. O jovem recebe tapas. Outro policial descobre uma poção de maconha. Mais tapas se sucedem.
A abordagem, muito comum no dia a dia da polícia, principalmente na periferia, desta vez é flagrada pela câmera Sony A7SII, sob a condução do operador Leonardo Rocha que a manipula em um gimbal, um objeto que estabiliza e profissionaliza o movimento com a ajuda de Ramon Ovídio. O som da mão de um dos policiais no rosto do ator Alisson Borges só é audível por que o operador de som, Weverton Nunes, aproxima o microfone boom, acima da cabeça dos atores.
A cena é assistida por dezenas de moradores que nunca viram a produção de um filme logo ali, na calçada de casa. A equipe de 17 pessoas cumpre o roteiro de Issac Brum, de 37 anos, que decidiu por conta própria – no sentido literal da expressão, já que ele economizou R$ 30 mil nos últimos anos para produzir um filme independente. “Me inscrevi em alguns editais, mas não fui contemplado”, disse. “Queria discutir a política de repreensão às drogas”.
Para produzir um filme com esta temática, Isaac contou com o apoio de Raphael Gustavo da Silva, coordenador e curador do Favera, o Festival Audiovisual Vera Cruz. “A gente apoia projetos que levam a realidade da periferia às telas de cinema”, esclarece Raphael, que também é diretor da É Nóis Ki Tá Produções, uma produtora independente.
O curta-metragem “Intervenção” de Isaac demonstra a ascensão do cinema goiano. Para tanto, Isaac não abre mão de parceiras, como o aceite da Ideia Produções de ceder espaço para filmagem. Mais cedo, a equipe se instalou em um dos estúdios para gravar uma cena em que os dois policiais recebiam, no gabinete de um comandante, ordens para dar “resultados” nas ruas.
Com 70% a menos de orçamento, o filme de Isaac é uma das produções que não contam com apoio financeiro público-privado, o que não desestimulou o jovem cineasta e recém-casado que teve de convencer a mulher que deveria apostar no sonho.
“Eu sempre quis dirigir, ser cineasta mesmo. É preciso fazer o primeiro, para mostrar o trabalho”, disse, enquanto preparava a viatura caracterizada exclusivamente para o filme. O carro foi emprestado pela sogra de alguém da equipe e o desenho gráfico foi realizado por um dos fundadores do canal Entre Brisas, o publicitário Diego D´Ascheri. Ele revela: “Uni os símbolos da polícia de São Paulo, do Rio e, claro, a cor e o modelo do carro se parecem muito com o próprio modelo da polícia goiana”.
Desde que Diego apostou no canal Entre Brisas, ao lado de parceiros, é considerado uma promessa para a divulgação do cinema goiano. É que ele aprendeu a fazer das tripas o coração. “Sem muito recurso, pouca gente, precisamos aguçar a criatividade”, afirma.
Diego ressalta que este tipo de parceira torna o clima menos burocrático. “A hierarquia é quebrada. Todo mundo faz de tudo. E isso é muito bom”, avalia Diego, que tem quase 23 mil inscritos no canal Entre Brisas e mais de um milhão de acessos.
Outro que não perde a oportunidade de contribuir com trabalhos independentes, Caco Rodrigues, 26 anos, está em Goiânia há três anos. “Daqui não saio. Acredito nas pessoas que estão aqui. Quero fazer cinema em Goiás”, sentencia.
No filme de Isaac, Caco é o preparador. Ele é responsável por personalizar os personagens, ou seja, criar a identidade. Por exemplo, antes de gravarem a cena da abertura desta reportagem, Caco levou o ator para uma barbearia. Passaram a máquina dois e mexeram na sobrancelha. “Fora o preparo físico, vocal, tenho de traduzir o sentimento, e a ação do elenco”, completa.


Burocracia e  incertezas em incentivos

Atualmente, quem pretende tirar do papel algum projeto de cinema, se não tiver recursos próprios, podem recorrer à Lei Municipal de Incentivo à Cultura, da prefeitura de Goiânia, ao Fundo Estadual de Cultura (FAC), e Lei Goyazes, os dois últimos do Governo do Estado. Na esfera Federal, podem, ainda, buscar editais da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Existem alguns projetos da Secretaria do Áudio Visual, a SAV, vinculado ao Ministério da Cultura (MinC).
Raphael Gustavo da Silva, coordenador e curador do Favera, o Festival Audiovisual Vera Cruz que ele criou e que foi realizado na escola Laurindo Sobreira do Amaral entre os dias 11 e 15 de novembro deste ano, reconhece a importância desses incentivos, mas faz ressalvas.

Como funcionam esses incentivos?
Primeiramente, esses incentivos têm duas diferenças. A primeira, de renúncia fiscal, como a Lei Goyazes, onde as empresas privadas têm descontos em impostos. Os Fundos de Cultura, por exemplo, têm recursos do próprio fundo e vão para o proponente do projeto. A lei do Estado tem hoje duas leis. Uma do Fundo de Arte e Cultura, e a Lei Goyazes. Mas há muito tempo elas não funcionam como deveriam. Era para valor subir todo ano, só que não sobe. Constantemente os proponentes, ou seja, os produtores culturais, não só do audiovisual, são surpreendidos com tentativas de desvirtuar o objetivo dessa grana. Na Assembleia, discute-se pegar 30% daquilo que seria do Fundo de Arte e Cultura e destina para os projetos do próprio Governo, para a Seduce, que, inclusive, já tem verba própria. O Governo está pegando um dinheiro que era para ser investido em projetos da sociedade civil, e está querendo levar para fazer propaganda deles. Trocando em miúdos, eles querem pegar o dinheiro da cultura e investir em propaganda. Quando se fala em Estado temos muitas dificuldades. Outra complicação é o pagamento desse fundo. O fundo de 2015 foi pago para a maioria dos projetos. Um projeto meu, o Curta em Classe, deveria ter sido pago em agosto deste ano. Há uma previsão para o final deste mês. Estão esperando a liberação da Secretaria da Fazenda.

O que pretende com o festival Favera e como ele funciona?
Buscamos levar cultura às pessoas e dar espaço para aqueles que a produzem. São três mostras competitivas: mostra de filmes Nacionais, Goiana e Infantis. Somente a última não conta com um júri profissional. O pressuposto da Mostra Nacional é que o filme tenha sido desenvolvido em alguma favela do Brasil. Temos também os Melhores Filmes do Festival, onde o público recebe uma cédula e vota naquele que mais gostou tanto da categoria Mostra Goiana quanto Nacional.  A gente oferece oficinas que ensinam a editar vídeos, produzir curtas, fabricar figurinos e até para atuar.

Conseguiram algum incentivo?

A gente conseguiu da Lei Goyazes.

Quantos inscritos vocês tiveram?
Tivemos 600 inscritos, juntando as edições 2015 (que não conseguimos realizar por que tive problemas pessoais) e 2016.

 

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