“A gente faz tudo que é possível para atender a nossa comunidade”

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Felizmente, a renovação na Câmara de Vereadores de Goiânia, que chegou a dois terços dos parlamentares, preservou Cristina Lopes Afonso, a Dra. Cristina (PSDB), uma das parlamentares mais preparadas e atuantes da Capital. Se em 2012 ela foi eleita como a mais bem votada entre as mulheres, com 6.080 votos, este ano, Dra. Cristina obteve expressivos 9.114 votos, a segunda melhor votação entre todos os candidatos. Oriunda da área médica – ela é fisioterapeuta –, sem políticos na família e com origens em outro estado, o Paraná, ela chegou pra valer e já no primeiro mandato se destacou como uma vereadora de posições firmes e opinião clara. “Entrei pra CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) como vice-presidente, uma comissão em que você aprende demais, sou presidente da Comissão de Direitos Humanos, sou da Saúde, e sou da Comissão de Educação. Então, eu me entreguei, estudei a Lei Orgânica do Município, o Regulamento Interno da Câmara, que são como bíblias para quem quer desempenhar um bom mandato”, explica Dra. Cristina durante a entrevista à Tribuna do Planalto ao ser indagada sobre a dificuldade de participação da população no processo legislativo. “A grande maioria da população infelizmente não tem entendimento, muitos nem sabem onde é a Câmara. E não falo de quem mora longe, mas de gente que mora ali e não sabe para que serve a Câmara. Há uma confusão, uma distorção de informação muito grande. E essa falta de interesse pelo processo político só agrava a situação, ela alimenta, ela permite que irregularidades se perpetuem”. Na entrevista, a vereadora fala sobre seu trabalho e expectativas
para o novo mandato.


Daniela Martins e Manoel Messias

Em 2012, a senhora chegou à Câmara como a vereadora mais bem votada entre as mulheres. Agora, está entre os 13 parlamentares reeleitos e ainda foi a segunda vereadora mais bem votada, no geral. Alcançar novamente uma votação tão expressiva é o reconhecimento pelo bom trabalho realizado no Legislativo?
Computo ao trabalho desenvolvido, porque não tenho família goiana, não tenho sobrenome ligado à política nem respaldo financeiro. Tenho é disposição para o trabalho e compromisso com a comunidade. Atendo a todas as pessoas que nos procuram, todas as demandas, as causas, as problemáticas da cidade. Tudo que chega até nós, sempre ponho para frente, busco respostas, solução e esse comportamento estabeleceu uma relação de confiança com as pessoas. Elas sabem que vão ter um retorno. Nem tudo é possível, porque nem tudo faz parte do mandato como vereadora, mas a gente faz tudo que é possível para atender a nossa comunidade. Nesses quatro anos conseguimos organizar grupos da sociedade civil, ongs que trabalham com a questão da defesa da mulher, que trabalham com crianças, cooperativas de material reciclável. Conseguimos ter um alcance muito maior do que o que eu tinha como profissional, como fisioterapeuta com especialidade em queimaduras. Houve uma ampliação e isso teve uma resposta nas urnas. Realmente essas pessoas com quem trabalhamos juntas se comprometeram com o mandato, trabalharam e votaram.

É possível fugir do estereótipo de ser um despachante junto à prefeitura? A sra. tem conseguido fazer um trabalho além desse de atender a demandas pontuais?
Com certeza. Tivemos vários episódios importantes, como a questão da iluminação pública, os próprios funcionários da Comurg nos relataram a situação grave, dizendo que eles não tinham ocupação, ficavam cumprindo expediente sem ter absolutamente nada o que fazer e ao mesmo tempo sendo contratada uma empresa para realizar o serviço. Demos sequência a essa denúncia. O resultado foi a suspensão da licitação. Ficou comprovado que os funcionários conseguiriam realizar um trabalho bem melhor que a empresa terceirizada, com mais eficácia e menor custo. Então a gente deu sequência e conseguiu resolver. Mas o prefeito é insistente e voltou agora com essa questão da licitação. Conseguimos regularizar várias cooperativas que não tinham Estatuto, a titulação de utilidade pública. Conseguimos junto à prefeitura, com essa pressão que é um trabalho do vereador, desafetação do terreno público. Agora vem a parte do governo estadual para a construção da sede das cooperativas e depois o governo federal com equipamentos e maquinários. Essa foi uma causa muito importante também. A causa das doulas, que são aquelas mulheres que participam na hora do parto como uma mão amiga, de apoio à mãe que entra em trabalho de parto. Nossa tentativa é fortalecer o parto natural. Sabemos que há uma infinidade de cesarianas desnecessárias, que colocam a mulher em risco. Você facilita para e equipe médica, mas pode dificultar muito a vida do bebê e da mãe.

A sra relatou importantes projetos na Câmara…
Sim. Sempre convoco a população a participar, promovendo audiências públicas. Exemplo é o caso da reforma administrativa, em que houve acertos por parte da prefeitura, mas muitos equívocos também. Um que conseguimos corrigir foi a manutenção do Fundo Municipal de Meio Ambiente, que estava sendo extinto. Agora estamos com o decreto do prefeito que prevê a cobrança das taxas dos grandes geradores. Nunca houve um interesse da prefeitura em se adequar a essa legislação e veio justamente na época da campanha, por decreto, sem passar por uma discussão na Câmara. É um decreto absolutamente equivocado e que não garante que o dinheiro seja usado no meio ambiente, como preconiza a lei federal. Como conseguimos manter o Fundo do Meio Ambiente, vai reverter essa verba para o fundo. Mas recebi uma denúncia hoje de que as 13 empresas, que foram credenciadas estão indo aos grandes geradores. As ongs que ajudamos a regulamentar, uma delas é a Amor Sem Dor, que trabalha com a mulher e os homens agressores. Essas coisas pontuais não me chegam muito, a não ser na área da saúde, porque meu nome é absolutamente ligado à área da saúde. Mas são causas derivadas da falta de funcionamento adequado do poder público. Temos de garantir os avanços sociais e o processo democrático.

No país inteiro, a saúde enfrenta dificuldades. A gestão dos últimos prefeitos ou do último ajudou a piorar, afinal Paulo Garcia é muito mal avaliado?
É, apesar dele afirmar que ainda vai ser reconhecido como o melhor prefeito de Goiânia, tudo o que a gente ouve na população e que vê dentro da Câmara é que há um descompasso grande na administração e isso vai resultar em grandes consequências para ele e secretários. Agora, a saúde, como a educação, que são processos que podem acolher ou desamparar nossa população, vêm de erros sequenciais, não é somente desta gestão. Corrigir esses erros não é uma coisa fácil. Você está lidando com a maior mão de obra que temos no município. É um processo difícil, precisa ter coragem, ter enfrentamento, e dificilmente quem está preocupado com as urnas terá essa coragem.


“Na saúde de Goiânia há má gestão com desvio de dinheiro público. Não sei o que é pior”

Durante seu primeiro mandato, a sra. visitou rotineiramente as unidades de saúde do município, enviou relatório ao secretário de Saúde. O que havia nesse relatório, quais eram as sugestões de melhoria?
Existe uma desestrutura absoluta dos nossos Cais, dos Centros de Atendimento de Saúde. É vaso sanitário quebrado, paredes infiltradas, torneira que não funciona, camas que não têm colchão, lençol, além da insegurança dentro das unidades de saúde. A situação é dramática e o que o prefeito e o secretário de saúde sempre alegaram é que depende de licitação, de processo. Eu propus, nas emendas parlamentares, a adequação de todas essas unidades. Se as aprovassem, já era uma resolução direta, através de emenda. Mas não foram aprovadas. Então não se vê vontade política. Mas o maior ganho que nós tivemos, além, claro, de ajudar as pessoas que estão ali de imediato, foi a denúncia das UTIs. Em uma das nossas visitas a unidade de saúde, um motorista das ambulâncias estava muito angustiado, desesperado, e acabou dizendo que tinha perdido um paciente, que estava revoltado com a situação e dali surgiu a denúncia ao Ministério Público. Protocolamos uma denúncia que acabou gerando, bem depois, o processo investigatório todo, essa denúncia da máfia das UTIs.

Essa desculpa de que precisa de licitação já não dá mais… Tem que ser superado isso. Já tem 20 anos que a gente ouve isso…
Sim, é uma conversa que já cansou.

A falta de gestão também é patente de um modo geral?
Olha a corrupção, o desvio de dinheiro, é tão danoso quanto a falta de gerenciamento. Eu acho que ali há um cruzamento desses dois problemas: má administração com desvio de dinheiro público e não sei o que é pior.

A burocracia dificulta a participação e fiscalização do cidadão nos órgãos públicos?
Há uma dificuldade do entendimento do processo legislativo e eu te falo com conhecimento de causa porque tenho duas faculdades, 23 anos de trabalho com atendimento público, fundei e administrei por muito tempo duas ongs em Goiânia e eu não tinha clareza do funcionamento do Poder Legislativo, das possibilidades, do trâmite, como que isso realmente funciona. Agora, presidi e participo de comissões, me entreguei, estudei a Lei Orgânica do Município, o Regulamento Interno da Câmara, que são como bíblias para quem quer desempenhar um bom mandato. Mas a população não tem entendimento, muitos nem sabem onde é a Câmara. E não falo de quem mora longe, mas de gente que mora ali e não sabe se a Câmara é do Estado ou do município. Há uma confusão, uma distorção de informação muito grande. E essa falta de interesse (da população) pelo processo político só agrava a situação. Ela alimenta, permite que situações como essa se perpetuem e permite que calúnias e difamação sejam imputadas a uma pessoa que muitas vezes não é aquilo.

A sra. considera uma boa opção a divisão de Goiânia em regiões com subprefeituras?
Essa subdivisão sendo bem administrada facilitaria o acesso, deixaria os processos mais claros, mais transparentes e mais eficazes. Mas talvez isso não seja de interesse.


“Na proteção à mulher, tem vários organismos trabalhando,mas se tem pouco resultado”

Uma das bandeiras de luta da sra. é o combate à violência contra a mulher. Por que, apesar da lei Maria da Penha, é tão difícil conter esse tipo de violência? O município tem ou deveria ter um plano de acolhimento a essas mulheres?
O município tem a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que foi uma das poucas secretarias que se manteve com autonomia na reforma administrativa, e tem a Casa de Abrigamento da Mulher, aqui em Goiânia. Promovi uma audiência pública com todas as organizações não-governamentais, governamentais do Estado e do município, polícias Militar e Civil, e percebemos que tem vários organismos trabalhando, mas se tem pouca efetividade, pouco resultado. Onde está o problema? Há de se construir essa rede integrada de proteção não só à mulher, mas à família, porque quando a mulher é agredida, isso agride a família inteira, tem uma repercussão nos parentes, no vizinho. E está mais do que comprovado que os meninos que assistem o espancamento, apanham junto com a mãe, tendem a reproduzir essa violência. Então isso tem que ser cortado lá na raiz, e a gente tem feito um trabalho muito grande. Tenho trabalho com o grupo de homens agressores nesse curso que eles são obrigados a fazer, quem está cumprindo pena, e está sendo uma experiência riquíssima para mim.

Como está em Goiás o enfrentamento à violência contra a mulher?
Goiás é, infelizmente, um estado muito violento, onde a mulher de modo geral ainda é muito maltrata.

Por quê?
Vejo aí uma raiz cultural muito forte. Culturalmente a mulher se submete e o homem usa da sua força para o controle. E aí quando há uma reação que fere essa regra social, vem o desentendimento, as briga. Normalmente, uma mulher que é agredida fica em torno de dez anos dentro de uma relação. O círculo é muito nefasto, a pessoa ajoelha, pede perdão, chora, ameaça suicídio, usa os filhos e ainda tem a questão financeira. E o segundo episódio vem mais grave, mais grave… e chega até a morte.


“Acredito que ele (Iris) não vá ficar nas relações pequenas como o atual prefeito”

Qual deve ser a relação da Câmara com o prefeito eleito?
O prefeito Iris Rezende é um homem bastante experiente, já foi prefeito da Capital, governador, ministro de Estado. A experiência lhe confere uma capacidade muito maior para administrar Goiânia. Acredito que ele não vá ficar nas relações pequenas como teve o atual prefeito. Tenho muitos amigos, várias pessoas que são pacientes minhas que trabalham na estrutura municipal e me falavam que meus encaminhamentos eram vetados. Mas eu acabava conseguindo resolver porque tenho amizade, pessoas que conhecem meu trabalho, mas na verdade havia uma relação muito pequena e eu nunca deixei de ponderar positivamente tudo que foi feito de bom, porque há coisas boas nessa administração. Mas houve muito equívoco, muitos erros, especialmente falta de disposição para trabalhar e enfrentar problemas. Acredito que o prefeito Iris Rezende tenha preparo e condições de realizar um trabalho e ter uma relação com o Legislativo muito melhor, um pulso firme com a equipe de primeiro e de segundo escalão muito mais forte. Isso é essencial, você tem que ter gerenciamento.

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