“As empresas saíram de Goiânia por falta de respaldo da prefeitura”

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Vereador Milton Mercez: “A Câmara precisa ter uma postura independente e responsável”

Servidor da Casa há 37 anos e vereador desde 1988, Milton Mercez (PRP) conhece a Câmara de Vereadores de Goiânia como poucos. Ele já foi diretor duas vezes e, agora, se reelegeu com menos de três mil votos, puxado pela estrondosa votação de Jorge Kajuru. Aos 64 anos, empresário, ele declara que chegou a desistir de sair candidato, devido ao alto custo da campanha. Mas voltou atrás após ser convidado por Jorcelino Braga para comandar o partido na Capital. Agora, Milton Mercez pretende voar mais alto. Ele almeja chegar à presidência da Câmara de Vereadores e está articulando para isso. Na entrevista, ele fala também sobre burocracia no serviço público, a falta de uma política de atração de empresas para Goiânia e sobre a expectativa de mais um mandato do prefeito Iris Rezende.

Daniela Martins e Manoel Messias

Certamente o Sr. está muito feliz com a reeleição, pois foi muito beneficiado pelo partido, o voto na legenda o favoreceu.
É. Desde minha primeira eleição, em 1988, e os seguidos mandatos, com o tempo se vai sofrendo um desgaste porque é difícil atender à vontade do eleitor, em tudo o que o eleitor pede. Em sete eleições eu tive em média 5 mil votos em cada disputa. A minha intenção era ter desistido de eleição. Não era pra eu ter sido candidato este ano. Depois que houve o desentendimento comigo e o PTB, em 2015, decidi que, se fosse pra eu ser candidato em “chapão”, eu não iria. O gasto financeiro é muito alto e não acho justo. Eu já tinha declarado que não era candidato, mas eu estava descendo a Avenida Goiás e recebi o convite do Jorcelino Braga para ir administrar o PRP. Eu perguntei para ele quantos candidatos iriam. Ele me respondeu que só tinha um. Então eu disse: “Está bom, então você tem dois”.

E por que o Sr. foi para o PRP?
Eu fui confiando mesmo no Jorge Kajuru. Ele já tinha a legenda dele, eu não tinha que fazer a legenda para ele. Qualquer pouquinho que eu fizesse, estava dentro. Aí eu perguntei ao Braga: “Vem cá, se eu formar o partido, como ficam as pessoas que quiserem entrar no partido?” Ele disse: “Só você autoriza, você veta e põe quem você quiser. Pode tomar conta do partido”. Então, estou dentro. Fiz um compromisso com ele. E não me preocupei muito com a chapa, fui formando nomes de qualidade.

O Sr. usou a estratégia do voto de legenda.
Usei estratégia para não gastar. Eu não estava a fim, acho que não compensa… Hoje você tem numa eleição, se você começar a gastar muito, contratar gente, aí a despesa fica fora. Não tem necessidade. Não justifica se você ganhar um salário de R$ 10 mil por mês e gastar 120 mil, 480 mil para ser eleito. Você gastar aí 600, 700 mil, depois falar que é honesto. Eu não quero prejudicar minha vida. Não quis isso. Não quero ser desonesto, não quero fazer nada de errado.

Como o Sr. atende a comunidade, seus eleitores?
Quero ajudar o máximo a comunidade, levar benefícios. Tenho levado creches, escolas, reformas. Isso é uma coisa do administrador, mas, através das emendas nossas na Câmara, direcionamos para atender os interesses da comunidade. O que eu quero é um município bom, gerando emprego e o empresário podendo trabalhar aqui, porque a maioria dos empresários hoje está indo para outros municípios por falta de apoio. Sou um vereador que tem buscado dar apoio. Recentemente, trouxemos o Assaí, que instalou um atacadão na Avenida Perimetral Norte. Eu dei total apoio, porque geraria 600 empregos e imagina o quanto de imposto estão pagando para o município. Então, é com isso que quero continuar trabalhando. A saúde está uma calamidade, a educação. Não é fazer prédio para a saúde, não é fazer prédio para escola. Isso já temos. É preciso reformar e dar qualidade para que possa atender as crianças. Abrir o município de Goiânia, dar condição para essas empresas se instalem aqui, para gerar emprego e pagar imposto. É isso que quero continuar fazendo, eu não quero errar.

Mas de que jeito o Sr. pretende fazer? Apresentará projetos, o Executivo tem de ir atrás dessas empresas?
Quando o empresário te procura, como aconteceu no caso do Assaí, eu procurei o prefeito Paulo Garcia e contei para ele do investimento que o empresário queria fazer. Ele me deu total cobertura e abriu espaço. E em agradecimento o prefeito me contemplou com uma creche no meu bairro, onde vai abrigar 120 crianças, acabou de inaugurar agora. Eu quero continuar isso. As mães precisavam deixar suas crianças e lá no meu bairro não tinha uma coisa de qualidade. Abrigavam 40 crianças só. Agora a creche vai abrigar 160 crianças.

Agora, pensando a cidade como um organismo, Goiânia não tem uma política de atração de empresas?
Olha, a mentalidade dos administradores ainda é muito atrasada. Eu vou te falar. É triste eu dizer isso, mas a grande parte das empresas do município de Goiânia saiu para o município de Aparecida por falta de respaldo do prefeito, do administrador.

Não incentiva…
É. Às vezes são colocadas nas secretarias pessoas incompetentes ou que não entendem do assunto e que deixam os funcionários fazerem o que querem e atrapalham a administração. Hoje o estado, o município tem que arrebanhar gente para dentro e não deixar sair. Meu irmão foi legalizar uma cervejaria, no Jardim Guanabara, e não deu conta por causa das exigências, da burocracia. Ele recebeu o convite para ir para Aparecida e se instalou lá.

Quer dizer, o poder público, em invés de ajudar, atrapalha.
Atrapalhou. Agora, ele contrata quem está lá próximo. Temos de acabar com a burocracia.


“O Iris é bem-intencionado e acredito que fará uma boa administração”

Qual deve ser a relação dos vereadores com o novo prefeito, que assume em janeiro?
Todos os municípios do país passam por dificuldades, não é só Goiânia. Então, acho que o Iris tem que fazer uma administração mais enxuta e acho que tem que convidar todos os vereadores para mostrar, expor a situação em que está o município em termos de arrecadação, os recursos que tem. Fazer bons projetos para buscar os recursos para continuar administrando a cidade. E pedir a participação dos vereadores. O Iris é um homem inteligente, bem-intencionado. Acredito que ele vai fazer uma boa administração.

O seu grupo político vai apoiá-lo?
O Legislativo é muito complexo. O prefeito tem que chamar cada vereador e conversar, um a um, colocar a situação, para ele definir uma boa administração. Se pensar “eu sou o melhor”, “sou o bambambam” e não conversar com ninguém, largando a coisa solta, aí não dá conta de andar.

O que o Sr. achou a renúncia do Major Araújo ao cargo de vice-prefeito?
O Major Araújo é um deputado muito bem-intencionado, é muito focado na Assembleia Legislativa, onde já marcou sua presença como oposição. A gente que participa de eleição é diferente um pouco de vice-prefeito. Em conversas comigo, ele disse que foi muito alijado do processo eleitoral, deram muita cotovelada nele. Isso foi magoando o moço. Como ele deixaria o papel que está fazendo, um papel bonito, na Assembleia, como opositor? Deixar isso para vir pra uma administração que ele mesmo não está confiando. Não é pelo Iris, como ele falou, mas pelos auxiliares do Iris, seu secretariado, que ele acha que pode ser alijado do processo administrativo. Largar uma tribuna para ser ninguém, ser nada. Não ter espaço.


“Paulo Garcia foi um dos prefeitos que mais fizeram por Goiânia”

Qual nota o Sr. dá para a administração do Paulo Garcia?
Você pode achar que estou muito otimista, mas não é. O que faltou na administração do Paulo Garcia foi divulgação, faltou pegar o jornal, pegar a imprensa e divulgar o que é feito. Paulo Garcia foi um dos prefeitos que mais fizeram no município de Goiânia. E obras importantíssimas. Não deu conta de acabar, por exemplo, o BRT, mas essa obra é uma valorização imensa da região norte, ele vai abrir esse espaço. Tem vários parques, várias praças. Se você for olhar em termos de obras, a administração do Paulo Garcia foi uma das que mais construíram benefícios à comunidade. Creches, reformas de colégios, eu tenho participado disso. Então, eu vejo a administração do Paulo Garcia hoje, não vou dizer que merece a nota máxima, mas ele merece um 8.
Foi um bom administrador, apesar de não divulgar muito bem?
Só não divulgou, só faltou isso. Faltou, às vezes, parar um pouquinho e divulgar as suas obras, como ocorre com o governo estadual, divulga suas obras no rádio, na televisão. Ao Paulo faltou isso. Ele fez um bom trabalho. Sua administração fez grandes obras e obras importantíssimas.


“Minha trajetória me credencia a pleitear a presidência da Câmara”

Como estão as articulações para eleição do presidente da Câmara, que agora será também o vice-prefeito de Goiânia?
Somos 35 vereadores. Todos por lei têm o direito de pleitear a presidência. Há três candidaturas postas e outras camufladas. Quero dizer para você que vai ter surpresa.

Do grupo do Sr., tem alguém que vai pleitear?
Estamos conversando para ver se a gente lança uma candidatura. Estamos trabalhando isso aí, e não vou esconder que todo mundo tem vontade. Minha trajetória me credencia a pleitear a presidência. Eu já sou o vereador mais velho do Parlamento, de idade só tem um mais velho que eu, mas de mandato… eu estou hoje indo para o oitavo mandato. É uma coisa que eu só tenho que agradecer nossa sociedade, os amigos meus que têm nos ajudado, porque eleição não é da gente, é dos companheiros. E eu tenho dado prova a essa lealdade desses companheiros que têm nos ajudado. E a gente tem procurado também buscar essa eleição. Não vou mentir pra você. Só que eu não coloquei ela ao público. Mas tenho procurado conversar com um, conversar com outro. Mostrar pra eles a importância dessa eleição, mostrando para eles o que é o presidente, que o presidente pode ser como um companheiro no Parlamento, que o Parlamento anda muito desgastado e com isso o espaço do vereador é pequeno. Então, a presidência colabora muito para que o vereador faça um bom trabalho.

O Sr. está articulando para ser o Sr. mesmo o presidente?
Estou trabalhando isso e nem queria comentar esse assunto. É a primeira pessoa que eu estou falando isso em público. Estou tentando articular isso.
O Sr. acha que a Câmara deve ter que postura diante do Executivo?
A Câmara tem que ter uma postura independente, se tornar totalmente independente. Mas apesar da independência, a Câmara tem que ter responsabilidade com a sociedade. Essa independência não quer dizer que ela tem que ser contra o prefeito. A independência dela é para direcionar as coisas, tem coisas que às vezes a administração quer fazer que eu entendo que não há necessidade no momento. E tem coisas como a saúde que estão em crise, tem que batalhar para resolver, tem a questão do transporte coletivo. Tem que batalhar isso, os vereadores junto ao prefeito para resolver. A educação, ah vai fazer prédio… Pra quê fazer prédio? Reformar o que se tem às vezes é mais barato. Um exemplo é o Cais do Urias Magalhães, com uma grande estrutura, que está fechado há muito tempo.

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