O brejo do João, um paraíso em Goiânia

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João Fabrício Pedroso, 57 anos, em frente à cabana que construiu no Brejo reflorestado na Vila Pedroso, em Goiânia

João Pedroso, herdeiro de uma tradicional família goianiense, conserva o pedaço de terra que sobrou da fazenda que originou a Vila Pedroso. Ele resgatou nascente e fez patrimônio ambiental. Esperou oito anos para o eucalipto que plantou crescer e construiu o inédito: cabanas irresistíveis.

Texto: Yago Sales

Fotos: Nara Cunha De los Angeles

Ao invés da confusão de automóveis e da gritaria de ruas e bares, um cocoricar tímido, um pouco distante, me desperta às 7h da manhã de um sábado, horário de verão. Espio pela brecha da cortina sobreposta à porta dividida ao centro, com uma tela, para afastar os insetos. O céu ainda escuro, com camadas de nuvens azuladas, carregadas de mistério. Os grilos e as pererecas se unem, orquestrando uma cantiga que sabem de cor e salteado. O canto perdurou a noite toda, trilha sonora para a experiência de dormir em uma cabana num brejo, em Goiânia mesmo, na Vila Pedroso, a menos de 10 minutos do Centro da capital. Logo percebo que a cantoria dos insetos silencia-se com a vinda da claridade do dia. Os insetos escondem-se entre a folhagem verdinha. É o brejo do João Maurício Pedroso, ou melhor: do JP. O pedaço de terra de João fica na Villa Cavalcare.
Guiado pelo anfitrião João Pedroso, 56 anos, cuja chuva fina lhe molha o chapéu na madrugada de sexta-feira para sábado, quiçá por instinto, sob a luz da lua, cheguei àquela cabana a 1 da madrugada. “Aqui é tudo muito rústico. Ali tem água quente, no frigobar tem água gelada, toalha no banco, cobertores”, aponta João, antes de desaparecer mata adentro, rumando para a casa dele.
Quando acordo, vejo João escavando o solo úmido. É o transplante da orquídea. As unhas de João são o bisturi. Com as mãos, recorta o solo e replanta, dando nova vivenda pra flora. Ele faz do vício na plantação, o arsenal de guerra para combater um dos maiores inimigos contemporâneos: o desmatamento. Ali no seu pedaço de terra, o lençol freático limpo, as matas ciliares no seu devido lugar, o ar circula em paz, o solo é rígido.
“Hoje não tenho mais espaço pra plantar, não. Planto no vizinho”, gaba-se. Vai ver é por isso que 70% dos nove alqueires, pelo menos 450 mil metros quadrados, estejam reflorestados. Numa matemática inexata, pelo menos 400 campos de futebol do tamanho do Serra Dourada num verde de perder de vista.
E não era sempre assim. A família Pedroso tirava do chão a argila para produção de tijolos. Escavava e provocava enormes voçorocas na propriedade. “Buracos enormes. Então pensei, vou trazer a mina para cá e transformar em um enorme lago”, conta João. Pelo menos dois buracões se tornaram em lagos de até dois metros de profundidade.

João Maurício Pedroso, o JP
João Maurício Pedroso, o JP

João é um Homem apropriado pra perguntar sobre a restauração do mundo. Homem em letra maiúscula pelo caráter Criador dele. João Pedroso recolhe da mata, do chão, a matéria prima para sua arte: tudo quanto de madeira, da terra vira móveis, vira casa. Dos irmãos, por exemplo, criados naquelas mesmas bandas, João é o mais mirrado. Magro, rosto sugado, queimado do sol, uma calvície alinhada por um de seus 15 chapéus. Mas não tem nome por ali que conheça mais das coisas da mata do João, o JP.
A maior parte de nossa entrevista, por sua vez, se dá na ampla área de sua casa. A água de uma das minas recuperadas por ele perpassa um canal de concreto, do nosso lado. Não acredito quando vejo uma caranha de quase dois palmos, calma, passeando com tambaquis. “Aí tem muito pintado, parideira”, João cita tantos nomes que não consigo anotar tudo. Entre perguntas e repostas, goles de café na xícara esmaltada, ao longe João cospe no monte de mato depois de findar mais um cigarro de palha .
Contrariando a mulher, que não aguenta a fumaceira, ele fuma uns seis cigarros por dia. “Se eu beber, pula pra nove, dez”, revela, com o pulmão cheio. “Esse trem causa danos demais”, assume com o coração cheio de orgulho daquilo tudo ao derredor.
Ele corta o rolo de fumo com o canivete. “Esse aqui é o corneta, uma raridade. Não se faz mais com esta forma”, conta. Um desse chega a valer R$ 200, mas João comprou em uma cidade do interior por menos de R$ 50. “Na venda, não conheciam seu valor. Bati o olho e vi que era diferente. Levei”.
Enquanto João fala, meio que desmontado sobre um banco fabricado pelas próprias mãos, tragando com gosto, ele explica, sem gesticular, a falta do dedo anelar da mão direita. “O dedo esfolou tudo, ficou só o osso”, descreve. Sem mais, João finaliza: “Tava pegando uma janela e esgarranchou. Desuniu couro com osso e esparramou sangue por toda banda”. Era o dedo da aliança. Quatro anos depois separou-se da primeira mulher.

Vila Pedroso
A casa em que mora é a sorte danada de João. Dos tantos hectares da fazenda deixada pelos antepassados, herdou aquela que fora dos pais, donde a mãe, dona Maria Angélica, corria o terreiro com bandeja para dar milhos à criação. Onde dona Angélica amputava o pescoço das galinhas e abandonava o couro dos leitões para depois virar toucinho. O nome da mãe ganhou um corpinho pequeninho. É que João registrou a caçula de Maria Angélica. João tem outros dois filhos, uma veterinária e outro administrador.
João é embutido no mato desde menino. Por isso sabe de muita coisa da roça, apropriada fonte para um repórter enxerido. Muita coisa lhe aconteceu desde quando saia pelo mundaréu escampado montado num cavalo, atrás de tudo, ao estado de conservação que se encontra o pedaço de terra herdado, mesmo depois de a fazenda reduzir-se em boa parte na Vila Pedroso, um populoso bairro de Goiânia. “Lotearam e venderam tudo”. O pai de João, seu Miguel Pedroso, mora em uma dessas casas. Restou-lhe um lote, onde, aos 87 anos, optou pelo descanso. “Mas não sai daqui, não. A gente o traz toda vez que juntamos a família toda”.
Chamei João prum passeio. Queria sair pelo lugar, catar no pulo a arara azul que, quando planeja seu voo, revela o alaranjado escondido sob as asas. “De vez em quando aparece por aqui uma ave do brejo, andarilha, que rasteja”, conta João, enquanto apura o canto “bonito pra danar” da pomba-de-bando. Na caminhada pelo brejo, João escuta o zumbido de abelhas e, com a mão fechada, bate duas vezes na colmeia, que balança. Apresso o passo, com as mãos no rosto. Amedrontado.
Cada canto do Brejo do JP, um assunto remenda a outro. Sempre ligado à plantação, ao voo raso de uma pombinha, da rasteira do gato preto e branco, sem nome, dos micos e saguis espertos. Tantos de João no brejo… nada se desperdiça. Cada cantinho da chácara, uma invenção do JP. Na oficina, donde brota do tronco as ideias, João encara a madeira rústica como mais uma oportunidade de criar.


Brejo JP
Brejo JP

As duas cabanas de João

João Pedroso amontoa experiência de décadas no meio do mato. E aprendeu a especificidade de cada árvore. Plantou, então, eucalipto. Uma espera de oito anos, sem sofrimento. Com barro, modelou paredes, tapando as brechas entre os troncos. A cada dia, emoldurou aquilo que estava na cabeça. “Não botei nada no papel. Imaginava e criava”, revela.
As duas cabanas que construiu até agora, não demoraram 60 dias para ficarem prontas. “Eu tinha vontade de criar, criei pra ver como era”. Com a ajuda de um marceneiro, “o melhor do Brasil”, avaliza João, sem se lembrar dele.
A primeira cabana, emersa no lago, amparada com troncos rígidos, cuja cebola de água se espalha na superfície, é a mais requisitada. Para chegar ao topo, é preciso subir uma escada. “Os quase dez metros de altura são um charme”, afiança João.
Enquanto se dirige à cabana com dois hóspedes, na trilha de britas, explica que o brejo está alimentado de árvores. Um tucano, numa raridade, pousa na peroba rosa plantada junto a aroeiras, mognos e angicos com um rareado de flores amareladas.
À entrada da cabana que fica no alto, um arco de pau, e uma porteira que range, recebem o visitante. “Não fiz desenho de nada, tudo da cabeça. Ia fazendo e aparecia a dúvida. Eu errava, corrigia”. Uma passarela leva até a parte inferior. “Dois metros de fundura, de água e barro”. Além do quarto, lá em cima, o local pode suportar 20 pessoas para um churrasco. A visão contempla as garapas, guarupu, bananeiras, jabuticabeiras, mangueiras, ipês, guapuruvu, paricá, palmeira imperial, açaí, guapéva, acerola, pitanga. “Tá tudo aí misturado”, afirma, reparando em volta.
Feitas a base de eucalipto replantado, o piso das cabanas é composto por cumaru, uma madeira mais resistente, comprada em marcenarias de Goiânia. O telhado, por sua vez, é reciclado de papelão.

Brejo JP
Brejo JP

cabana2

A porta da cabana, à beira do brejo, foi fabricada com madeira reutilizada do curral. “Nós improvisamos muito, para não desperdiçar nada”. Na parede, ferraduras, esporas e cabeçadas de cavalo – utensílio de couro que serve para segurar a embocadura e as rédeas do cavalo e ajudar o peão a controlá-lo. Na cabeceira da cama, João utilizou a casca de cedro. Cortou pedaço por pedaço e moldou um painel. “Nem a casca a gente perde. Cortamos os pedacinhos e juntamos”.
“A cabana toda é madeira e barro”, anoto num bloco de garranchos. Um banco que ampara a toalha, onde descanso a bolsa, e o aparador do lavabo, são de uma madeira envernizada. Nas paredes, como peças decorativas, ainda, uma folha seca, alguns quadros emoldurados pelo próprio João com registros em fotografias do brejo mesmo, feitos pela cunhada dele, a jornalista Nara Cunha De los Angeles. As fotos dela ilustram esta reportagem.
João Pedroso quer construir mais seis cabanas. Mas não abre a propriedade para qualquer um. Quer que o visitante respeite o ambiente, que curta a paz das caranhas, dos pintados, dos tambacus, das traíras nos lagos. Que observe o tucano, a arara azul, o joão-de-barro, a andorinha. “E aqueles que a gente não sabe o nome”, termina o JP do brejo. Para quem tem coragem, uma corda dependurada numa firme galha da mangueira, lhe espera para um pulo no lago.

Para conhecer mais:

Endereço: Rua Mp 12 Qd 11, Lt 06, s/n – Res. Mar Del Plata, Goiânia – GO, 74766-186
Contato: (062) 98148-8841

JP observa o brejo da varanda da cabana que ele mesmo construiu
JP observa o brejo da varanda da cabana que ele mesmo construiu

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