Companheiros por 88 anos, Honória se despede de João ( Foto:Patrícia Neves)

Reportagem acompanhou os últimos dias de vida de João Leopoldino da Silva, 105 anos, na Unidade de Cuidados Paliativos do HGG

Yago Sales

“Aperta minha mão”. O pedido sussurrado é de Honória Maria da Silva, de 102 anos, para João Leopoldino da Silva, 105. Ele aperta com grande afã. De repente ela encosta-lhe o rosto. As duas mãos trêmulas se prendem uma à outra. Ela percebe que aquele João é diferente do audacioso jovem que via passar nas ruas empoeiradas do pequeno vilarejo de São Gotardo, no Alto da Paranaíba, no Triângulo Mineiro de Minas Gerais, nos idos de 1920.
No leito 31 da unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Geral de Goiânia Alberto Rassi (HGG), seu João não pode fazer mais nada senão apertar as mãos da mulher que adulou na juventude, a quem convenceu casar-se com ele e manter um matrimônio de 88 anos. Aleitado, ele tem um arfar que comove pela tentativa de viver um pouco mais. Respira com dificuldade, a tempo de responder se sua história pode ser contada no jornal. Se puder, pisque João. Ele pisca com força e assopra um “pode” forte.
Pouco tempo antes de ser internado naquela unidade do HGG, seu João manda um recado para o neto nos Estados Unidos, transmitido pelo Whatsapp, gravado sobre a cama, onde dificilmente saira na última semana. “Não estou bem não”, conta. O prenúncio vinha de um homem que não tem quem diga se lembrar de tê-lo visto decaído, ou de ter sido levado ao médico, mesmo aos 105 anos. Ele entendia de vida e sabia que a vida se perde quando não se pode mais nem mesmo ir à feira, à venda comprar Caracu, ou correr com os novos netos dos netos que aprendiam a andar pelo grande quintal de casa, no número 43, do setor Finsocial, em Goiânia. Logo ele que arrancou os próprios dentes com alicate, um a uma, ignorando o conselho dos filhos de que poderia sofrer de hemorragia.
João colhe das mãos de Honória um passado trilhado a dois e surpreende a equipe médica. As mãos atadas simboliza a resiliência do homem que transgrediu a vida até aqui: viveu demais, acostumou-se demais com a vida para dizer adeus sem apertar a mão da mulher que saiu com ele de Minas em um carro de boi para as bandas de Goiás, trazendo os filhos ainda pequenos.
“Ele está frágil desde que chegou aqui”, avisa a médica geriatra Eliza de Oliveira Borges. “Geneticamente ele é forte, mesmo pelo tabagismo que gerou um enfisema respiratório. Mesmo assim, o caso dele é de envelhecimento, não doença”, diagnostica a médica.
A nora Maria Antônia Veloso de Paula não esconde a frustração quando escuta a médica dar o diagnóstico. “A gente sempre tem esperança, mas ele já não suporta”, lamenta. “Por ter uma idade avançada, ele tem uma fragilidade muito grave. Uma perda de massa muscular, uma reserva baixíssima orgânica, renal e respiratória. Não suporta medidas invasivas”, explica Eliza.
“Neste caso, seu João se encaixa nos critérios para os cuidados exclusivos paliativos. Todas as medidas possíveis para aliviar o sofrimento, dar conforto, mas evitar medidas como a reanimação, ventilação mecânica, para que ele respire por conta do aparelho”, esclarece.
Na ala, seu João  passa os últimos momentos com a família, ao contrário de um tratamento mais invasivo, que o deixaria rodeado de aparelhos em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Maria Antônia casou-se com Pedro Leopoldino, o caçula de Honória. É Maria a quem seu João chama todos os dias. Por isso, coube a ela acompanhá-lo no hospital. Quando troca de turno com algum familiar, seu João só se lembra da nora. “Por morar perto e buscar realizar os sonhos deles, acabei me tornando muito importante”, ressalta, enquanto passa o algodão umedecido na boca de João, que tenta absorver, já que não bebe água há dias.

O patriarca volta a ser criança

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Cinco dos 12 filhos em frente do HGG, à despedida do pai. Foto: Patrícia Neves

João viu uma árvore genealógica saindo do ventre de dona Honória logo após se casarem em 1936 e nascer o primogênito Geraldo. Os anos passaram e ela deu à luz a doze filhos. Anos mais tarde, vieram os netos, que deram bisnetos, que deram trinetos (chamados normalmente de tataranetos), que deram tetranetos. Um sem número de gente que escutou do patriarca, em gestos lentos com as mãos fortes do homem que gostava de enfunar o peito e demonstrar sua vitalidade, histórias que não cabem em uma reportagem.
Quando um filho nascia, seu João tocava a sanfona, instrumento que aprendeu ouvindo no rádio cantores como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Mario Zan e Clovis Pontes. A sanfona foi a primeira perda que a idade lhe impôs. É que para criar o som, o sanfoneiro precisa controlar o instrumento com o braço esquerdo, e ser ligeiro. Abrir e fechar, abrir e fechar. Assim como os pulmões de seu João que com o tempo perderam a força para respirar, a sanfona não tinha mais sopro pra música. E João teve de vender sua companheira.
A família lembra-se do patriarca como um homem calmo, independente. Em 1996, aos 86 anos, João foi obrigado a deixar de ir ele próprio sacar a aposentadoria. Naquele ano, chegou em casa e quando enfiou a mão no bolso, percebeu que tinha sido roubado. Desde então, foi aconselhado por um dos filhos a não ir ao banco mais. Era a chance que tinha de caminhar lento pelas ruas do Centro, olhando as transformações de uma cidade que conheceu quando muito pouco tinha de asfaltos, ruas, carros e gente.
Dali adiante passou a caçar ocupações em casa e, como uma criança, traquinava. Sob a balela de que o rádio estava estragado, desmontava e montava o aparelho. Quando percebia que não funcionava mesmo, desmontava de novo. Esquecia o rádio aos pedaços no canto e lá ia “consertar” a televisão.
Um dia, pegou um martelo e abriu o trinco da porta. Pacientemente, os filhos a trocaram. Esse era um João que queria cuidar, do jeito dele, das coisas de casa. Sua felicidade, contudo, estava no ofício de amolador. “Pensa num homem feliz quando um vizinho o chama no portão e pede para consertar uma lanterna ou amolar um facão”, lembra outro filho, Waldemar Leopoldino, de 75 anos.
Mas o tempo foi debilitando João, homem rústico, da roça, mineiro que nunca fugia da lida. Da madeira bruta do mato, ele construiu carros de bois. Para ver o resultado do trabalho, ia à rua ver passar a boiada. No chão pisado pela vaquejada e boiadeiros, puxava do bolso da calça um pedaço de fumo, despedaçava-o na palma da pequena mão, enrolava na palha de milho e acendia com a binga. O rito diário de tragos, uma usança que perpassou mais de oito décadas, se findou em dezembro de 2016.
“Quando viu que não dava mais conta de enrolar o fumo, papai não quis mais fumar”, conta o filho caçula, Pedro Leopoldino da Silva, 55 anos. Não antes sem se despedir, melancólico, do cigarro. Dias depois, uma neta deu-lhe uma bicotinha de cerveja. Era a última vez que sentiria aquele gosto. “Mas meu pai gosta mesmo é de Caracu”, garante outro filho, Edson Leopoldino, 70.  A Caracu transformava o silencioso João numa tagarela, contador de histórias e nostálgico relembrando o século que passou rápido demais.

P1-4O voo de seu João

Terça-feira, dia 30 de agosto de 2016. Honória passa o café antes das seis da manhã. Lá fora, o céu estampa um azul enegrecido. Dentro dela, uma ansiedade a faz pensar: “Como é entrar na nuvem?”. Ela ajeita a roupa que João vestirá daqui a pouco. Ele mesmo escolhe o boné mais limpinho. Quem vê a cena acha graça da felicidade dos dois. Antes de sair, porém, ela vasculha a bolsa. Quer saber se não esqueceu nada. “Olha que ela arrumou a bolsa quinze dias antes”, revela a nora, Maria Antônia Veloso de Paula, quem planejara a viagem e desarticulou qualquer empecilho à realização do sonho do casal de visitar a filha que adoecera no Mato Grosso. É que muitos filhos temiam que os pais, sobretudo seu João, não suportasse o voo e adoecesse. “Ele ganhou mais vida ainda”, garante Maria.
Às 10 horas daquela manhã fulgente, Dona Honória e seu João, cada um de um lado, amparados por Maria, ultrapassam a porta automática e entram no saguão do Aeroporto Santa Genoveva. Vestida com uma blusa rosa com flores estampada em renda branca, Honória está agarrada com a bolsa vermelha, onde carrega os remédios para manter o compasso do coração, uma caderneta com o número de telefone dos filhos, os documentos e as chaves de casa. Não podia faltar o cigarro de seu João.
João observa silencioso o vai e vem de gente que arrasta malas de rodinhas e fala ao telefone; ele olha para as informações no painel indicando embarques e desembarques e, enquanto se senta na cadeira de rodas que a nora conseguiu com a Companhia Aérea, o casal sai do anonimato, ganha status celebridade. É que uma dupla escutou Maria revelando à moça da Azul a idade do casal: “Ele tem 105, ela tem 102 e 86 anos de casados”.
“Nunca vi uma pessoa com essa idade”, surpreende-se uma mulher, que aponta o celular ora para seu João que faz pose com as pernas cruzadas e corpo elegante, ora para dona Honória, fotografando. Os dois sorriem. Logo outros passageiros na fila aparecem para registrar o incomum: dois centenários, juntos. Então, ecoa no saguão o aviso para se apresentarem ao embarque.
“Senhores passageiros, coloquem os cintos, o avião já vai decolar”. João e Honória se entreolham. Com o anúncio da aeromoça e a demonstração de segurança dos tripulantes nos corredores do avião, seu João tenta afivelar o cinto. “Bora lá seu João, você consegue”, encoraja Maria. E ele consegue.
Quando as turbinas do avião emitem aquele sibilar agudo, seu João enrijece a testa, fecha um pouco os olhos e encosta a cabeça na poltrona. Dona Honória alcança a mão quente que seu João escondia dentro do moletom verde e aperta primeiro levemente, depois mais forte. Ele segura uma toalha verde-bebê com a outra mão, que deve soar em um natural nervosismo. Os corpos de Maria, Honória e João estão inclinados para trás nas poltronas 2A, 2B e 1C, respectivamente.
Em 88 anos de casados, os dois estão no voo 2699, rumo ao aeroporto Marechal Rondon, em Cuiabá, e posam para o celular de Maria na primeira viagem de avião.
Quando voltam para a casa, seu João, encalistrado, conta para os netos curiosos: “Parece ‘oinbu’ por demais”. Ou carro de boi, não é mesmo, seu João Leopoldino da Silva?


Tempo para amar e se despedir

Honória não sai de perto de seu João.
Honória não sai de perto de seu João. Foto: Patrícia Neves

Na semana do Natal, quando a família se preparava para a reunião no dia 25 na casa de Honória, João assustou a todos ao respirar sôfrego. Honória, que vinha repetindo a João um trecho  bíblico de Mateus “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”, chamou o pastor da igreja Congregação Cristão No Brasil, que frequenta há mais de dez anos.
Quando dona Honória convidava seu João para o batismo, ele retrucava com situado sotaque mineiro: “Num é minha hora inda não”. Às 23:14 de 24 de dezembro de 2016, improvisaram uma bacia grande na área de casa e, enquanto o pastor dizia “seja batizado em nome de Jesus”, homens mergulhavam o corpo de João deitado numa espécie de maca na água. “Tampa o nariz, seu João; tem que ser o corpo todo”, avisava o pastor, enquanto mulheres adornadas com véu sobre a cabeça cantavam hinos.
Dois dias depois, levado ao hospital, já muito acabrunhado, ainda na triagem, foi aceito na ala de cuidados paliativos do HGG. A coordenadora do serviço de Cuidados Paliativos, a geriatra Ana Maria Porto Carvas, não escondeu da família o estado de “terminalidade” de seu João. “Pela fragilidade e grande chance de o paciente vir a óbito, deixamos bem claro que a morte faz parte da vida, do círculo vital. A gente fala com muito respeito e carinho, mas precisamos ser sinceros, sem negar a morte”, elucida.
“Deixamos claro que não devemos ter medo da morte, mas de como ela vai acontecer, se o paciente vai sofrer. Isso é o que norteia nosso tratamento. Na abordagem, a equipe multiprofissional trata disso com a família e até com o paciente se estiver lúcido”, explica a coordenadora.
Implantado em novembro de 2016, a ala especial promove, junto a uma equipe médica sensível à humanização a pacientes sem tratativas de cura. Com dez leitos, a equipe médica conta com equipamentos de tratamento intensivo, cadeiras para acompanhantes e uma sala onde a equipe reúne com familiares.
“Ali discutimos a necessidade de falar da morte. Antes disso, falamos com a família sobre como respeitar as escolhas e os desejos do ente querido, como cuidar, como amar. Ainda promovemos o pedido de perdão. Tudo para que o luto seja o menos sofrido aos familiares”, ressalta a paliativista Ana Maria Porto.
O HGG é pioneiro neste tipo de tratamento paliativo no setor público de Goiás. Isso foi possível quando o hospital se tornou membro da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). “É um serviço inovador e fundamental para pacientes crônicos portadores de doenças sem possibilidades de cura. O serviço é oferecido principalmente na região Sul e Sudeste, e muitas vezes somente aos pacientes em fases final de vida ou com câncer e muitas vezes em serviços privados”, explica Ana Maria.
Segundo a ANCP, os Cuidados Paliativos, definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como um tipo de tratamento que visa melhorar a qualidade de vida de paciente e seus familiares. Maria Antônia, nora de João, reconhece o diferencial. “Quem quis se despedir de seu João não teve dificuldades. E a equipe nos atendeu com muito cuidado e verdade”, destaca.
Até janeiro de 2017, a equipe do atendimento paliativo do HGG atendeu 230 pacientes. Ente eles, portadores de doenças raras como Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doenças reumatológicas, renais crônicos, cardiopatas, pneumopatas, demências.  Do total de 96 pacientes 41, 7% receberam alta; Dos 126, pelo menos 55% morreram.
Sábado, dia 7 de janeiro. Maria Antônia adentra o quarto e se aproxima de seu João no leito 31. Ela fala algo ao pé do ouvido dele. Seu João parece perguntar algo. Logo Maria percebe que o sogro tem dificuldade para respirar. “Seu João, seu João”. Ele entreabre os olhos. Está quieto. Ela vai até uma enfermeira no quarto ao lado, que cuida de outro paciente. Mas não fala nada. Maria volta pro quarto, se enrola em um cobertor, se deita em uma poltrona. Um ar gélido passeia pelo quarto. Ela sente um frio aflitivo, se levanta e encobre os pés de seu João e volta a se deitar e dorme.
“Ele não respira mais”, Maria escuta longe a dupla de enfermeiras conversando e, num sobressalto, aturdida, olha para seu João às 11h30min. Ele tem uma feição fleumática. Logo um médico chega e reafirma: “João descansou, morreu de velhice”. Maria estremece. Perde sua referência. Perdeu seu amigo, um sogro que virou pai. Ela liga para Pedro, o marido, aos prantos. Ele segura o choro, sabe que precisa ser forte. Afinal, precisará confortar Honória. Dona Honória…
14 horas do dia 8 de janeiro, Cemitério Parque. Parece ressoar uma sanfona enferrujada, mas é assobio. E o ritmo remete à música de Luiz Gonzaga, A Morte do Vaqueiro: Numa tarde bem tristonha/ Gado muge sem parar/ Lamentando seu vaqueiro/Que não vem mais aboiar”. Os familiares, cabisbaixos, trocam palavras voltadas ao passado. “É, o tio vai deixar um vazio enorme”, lembra um sobrinho.
Seu João foi enterrado dois meses depois de sepultar seu primogênito, Geraldo Leopoldino, de 86 anos, em Itauçu, a 59 km de Goiânia. A última palavra que disse ao filho foi repetida por um dos filhos no cemitério: “Vá, ce descanso, vá”. A terra encobriu uma fonte inesgotável de histórias.

2 COMENTÁRIOS

  1. Meu Deus que materia linda . meu bisavó descansou em paz .. No momento so nos resta recordacoes e saudades dele.
    Obrigado por essa materia linda sobre a vida deles ..

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