Foragido ameaça, em áudios, fontes e repórter da Tribuna

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Pastor Daniel foi preso em Hidrolândia. Foto: arquivo

“Vai ter de conseguir dez medidas protetivas”, disse, em uma sequência de áudios ameaçadores, Daniel Batista de Moraes, denunciado em reportagem. Entidades de proteção aos jornalistas repudiam ameaças e pedem resposta do poder público

Diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, Cláudio Curado: pressão pela prisão de Daniel
Diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, Cláudio Curado: pressão pela prisão de Daniel

Manoel Messias Rodrigues

Condenado por homicídio, Daniel Batista de Moraes, 37, está foragido. A reportagem da Tribuna do Planalto revelou esquema de arrecadação em ônibus e agressões comandados por ele, sob o argumento de manter um projeto social voltado para dependentes químicos. O trabalho de investigação trouxe à tona aquilo de que os usuários dos transportes coletivos nem imaginavam por trás do discurso dos dependentes químicos: exploração de um foragido da justiça, conhecido como pastor, condenado por assassinato.
Daniel foi condenado em 2012 a nove anos de prisão por um homicídio, cometido na noite do Natal de 2007, e a dois anos de reclusão por uma tentativa de homicídio ocorrida em 2006. Não cumpriu pena por nenhum dos crimes. Em vez disso, abriu com a esposa uma clínica para recuperação de dependentes químicos, a Resgatando Vidas. Pessoas ouvidas pela reportagem que passaram pelo local descreveram a clínica como “um inferno”, em que os internos são submetidos a uma rotina de torturas e semiescravidão, obrigados a vender balas em ônibus para sustentar os proprietários.
Daniel enviou áudios ameaçadores ao ex-diretor da casa de recuperação Resgatando Vidas, Reinaldo Rodrigues de Camargo, o Gringo. Os áudios foram enviados no dia 31 de janeiro. Ameaças, mesmo que genéricas, preocupam por que visam inibir a atuação dos repórteres Yago Sales e Daniela Martins. Por isso, entidades de representação jornalísticas foram acionadas pelo jornal.
Daniel foi condenado pelo assassinato de Damião Batista de Carvalho. O crime ocorreu em 2007, mas ele só foi sentenciado a nove anos de prisão em 2012, pelo 1° Tribunal de Júri de Goiânia. Desde então, está foragido e encontrou na dependência química das pessoas a oportunidade de lucrar com a venda de balas no transporte coletivo. Ele fundou a Instituição Resgatando Vidas, que está no nome de sua mulher, Geice Moreira de Moraes.
Para manter a instituição, contudo, Daniel passou a levar para uma casa no Garavelo, dependentes químicos. Ali, segundo relatos, Daniel agrediu seus internos.
Depois de publicada a reportagem, Daniel enviou áudios ao ex-diretor da Resgatando Vidas, Reinaldo Rodrigues de Camargo. “Os áudios não me assustam, mesmo assim preferi me prevenir; procurei a delegacia”, disse Gringo.
Nos áudios obtidos pela reportagem, Daniel quer que Reinaldo se justifique quanto ao vazamento de informações e fotografias publicadas na reportagem da Tribuna.
Em uma das mensagens, o foragido diz que “o tempo de conversa acabou. O tempo de moleque acabou. Você deveria ter pensado nas coisas que você fez, divulgar as fotos. Pode arrumar 10 medidas protetivas, você vai precisar”.
Daniel, que tem ainda em sua ficha policial sentença de dois anos de reclusão, em regime semiaberto, por tentar matar Jonas Ataíde da Silva Neto, não se preocupa com novos processos. “Esse vai ser só mais um”, ironiza.
Em outro áudio, num tom mais agressivo, Daniel Batista relata: “Eu não estou na igreja mais não, Gringo. Agora nós pode conversar do jeito que você quiser, pode crer? Eu não vou atrás de você, não, irmão, tem pessoas que vai, entendeu? Você envolveu muita gente, deveria ter pensado. Agora vocês não vão saber nem de qual lado vai vim, né, parceiro? Você é um cara burro, não pensou”.
“Você e esse repórter burro e esse pastor mais burro ainda [se referindo ao Maximiliano que acolheu Marcos Pina após ser agredido por Daniel]. Vocês envolveram muita gente, pessoas que não vão pensar como a mim. Eu posso falar para você das minhas ações, agora a ação de terceiros… Não vou usar nome, não, que você é inteligente. Ore a Deus, irmão. Ultimamente estou longe de Deus, minhas atitudes agora são de um homem natural, tá entendendo”, alerta.
Daniel demonstra insatisfação pela apuração da reportagem ter revelado a sua ficha criminal. “Vocês deveriam ter pensado antes de ter mexido no meu passado. Agora vocês trouxeram o meu passado para o seu quintal”, diz.
Numa tentativa de amenizar os áudios, ele afirma: “Entreguei para Deus esta história”.
Em visita à redação da Tribuna do Planalto na tarde da última sexta-feira (3), o diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, Cláudio Curado, afirmou que vai pressionar o poder público pela prisão de Daniel.
A presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, reiterou, por telefone, que vai atuar junto ao sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, junto à Secretaria de Segurança Pública, Ministério Público e até o Ministério da Justiça.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgou nota em que afirma que “acompanha com apreensão a situação do repórter”.
Assinada pela diretoria da Abraji, a nota adianta ainda: “A Secretaria de Segurança Pública de Goiás tem o dever de garantir a segurança de Yago Sales. É inadmissível que um jornalista tema pela própria vida simplesmente por exercer sua profissão”.

Polícia
O titular da 2ª Delegacia Regional de Aparecida de Goiânia, André Fernandes, garantiu que tem equipes empenhadas na captura de Daniel.
A resposta da Polícia Civil veio dois dias depois de a reportagem publicar agressão sofrida por Marcos Pina, ex-interno da casa de recuperação de Daniel.
“Fui comunicado pela Delegacia Geral da Polícia Civil que a Tribuna do Planalto tinha feito esta reportagem e fui direcionado ao caso. Estabeleceu-se que uma equipe irá às ruas atrás de Daniel para cumprir o mandado de prisão em aberto, principalmente por causa da situação do repórter”, relatou o delegado André Fernandes.

“Vou denunciar legalmente o repórter Yago Sales. Se você não tem nada a ver com isso me prove, entra com uma ação contra o repórter. Vai lá depor contra ele. Me prova, parceiro, enquanto há tempo”

“Vocês deveriam ter pensado antes de ter mexido no meu passado. Agora vocês trouxeram o meu passado para o seu quintal”

“Ore a Deus, irmão. Ultimamente estou longe de Deus, minhas atitudes agora são de um homem natural, tá entendendo”

Reportagem repercute em mídia nacional

“Uma baita investigação”, definiu Mauri Konig, em um dos milhares de compartilhamentos da reportagem da Tribuna do Planalto “Foragido da Justiça, pastor explora usuários de drogas em recuperação”. Um dos mais premiados jornalistas brasileiros, Konig é um dos que dedicaram um tempo para ler e repercutir reportagem da que revoltou os leitores com os relatos de exploração de trabalho e agressão na Resgatando Vidas, entidade que deveria cuidar de jovens dependentes químicos.
Foram mais de 15 mil visualizações somente no site do jornal, além de centenas de compartilhamentos e comentários pelo Facebook e a reprodução, na íntegra, em portais de notícias nacionais.
Ligado à revista Carta Capital, o portal Ponte Jornalismo, que divulga matérias com temáticas de direitos humanos, reproduziu a reportagem na íntegra. Na página oficial da Ponte Jornalismo no Facebook, o post alcançou mais de 70 compartilhamentos
O Mídia Ninja, canal jornalístico de narrativas independentes, também divulgou a reportagem da Tribuna em sua página oficial no Facebook. O post alcançou mais de 1 mil interações e 454 compartilhamentos.
A reportagem é resultado de quatro meses de investigação. Daniel Batista de Moraes é o personagem principal. Condenado a nove anos de prisão por assassinato, ele mantém casa de recuperação para viciados em drogas em Goiás. Assinada pelos jornalistas Yago Sales e Daniela Martins, a reportagem denuncia exploração de mão de obra, rotina de semiescravidão e violação de direitos humanos.

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