A doença do espírito

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As doenças sempre foram consideradas um aspecto maldito, herança diabólica e maléfica, um castigo das divindades para com os homens, isto bem antes de nossa cultura Judaico-Cristã, de nossa bíblia ou de nosso Jesus. Estudos de antropologia mostram claramente a dicotomia entre bem e mal existente na psique primitiva, especialmente na cisão entre a saúde e a doença. Muitos povos não aculturados trazem a visão de que a doença é uma “vingança de espíritos”, “castigo”.
Porém, mesmo em culturas ditas primitivas este mesmo ciclo é integrado à formação do indivíduo e da identidade social, especialmente quando este processo de saúde-doença passa a ser observado ritualísticamente enquanto integração em um sentido de evolução. Muitas tribos do Xingu escolhiam seus Pajés por estes apresentarem deformidades, sensibilidade intensa a patologias diversas.
O caminho do sofrimento deixa de ser apenas um castigo divino e passa a ser visto como uma possibilidade de crescimento e de preparação para a formação de um curador. Aqui gostaria de fazer um parênteses.
Sempre observar meus professores e os profissionais de saúde que mais admirava, muitos celebridades efetivas. Todos seres complicados, sensíveis ao extremo, invariavelmente com histórias de vida pesada, cujo sofrimento no passado era notório. A melhor médica oncologista que conheci perdeu a irmã de câncer. O melhor psiquiatra tinha um irmão esquizofrênico, o melhor psicoterapeuta era vítima de espancamento e de pai alcoólatra, o melhor analista vivenciara a segunda guerra mundial na infância.
Todos estes casos têm em comum o fato de sua desestruturação pessoal ter se tornado o chamado de seu espírito para sua futura prática profissional. Nossos pajés modernos são criados pelo destino na mesma frigideira de sensibilidade, dor, sofrimento.
Hoje virou moda atribuir todas as patologias a um sentido espiritual. Especialmente as que por medo podem ser manipuladas visando trazer lucro às igrejas e a seus líderes. Tudo que é ruim, é diabólico. E na atualidade, nas igrejas cristãs primitivas adeptas ao discurso do dinheiro em uma teologia de prosperidade, ganha-se muitos fiéis desintegrando a psique de um sentido mais profundo, o de perceber a dor e o sofrimento enquanto um caminho de evolução para o espírito.
Hoje a sociedade tenta discutir a influência espiritual em doenças mentais. Uma depressão, por exemplo, estaria suscetível a um obsessor, a uma magia negra, a um despacho, a um ritual de inveja ou mesmo a uma obra de satanás. Seja por uma teologia de boteco, seja por um discurso parapsicológico ou um esoterismo de bolinha de gude. Captando pessoas cuja mentalidade e afetividade não estejam bem, estas tornam-se vítimas de um sadismo intenso por parte de desorientadores espirituais.
Chamo de desorientadores porque estes são seres sádicos, preconceituosos, que empurram mais para baixo quem sofre. Vi outro dia um líder religioso médium de um centro espírita dizer que uma paciente com transtorno bipolar tinha nada do mundo dos homens, mandou ela queimar seus remédios e abandonar sua terapia. A paciente, dias depois, entrou em uma nova crise intensa. Levou semanas para voltar a compensar e retomar a vida.
Espíritas exotéricos, católicos carismáticos, protestantes neopentecostais são os campeões deste tipo de atrocidade. Longe de amar a quem sofre, geralmente projetam seu preconceito na doença alheia, discriminam por ignorância e jogam um paciente no fundo do poço. Ele não se cura porque não tem fé!
O que se faz com certos pacientes em sofrimento é a mais pura atrocidade. Especialmente quando se coloca que ele sofre por falta de fé. Como analista e psicólogo, atendi padres, pastores, médiuns pessoas de todas religiões imagináveis muitos com vida religiosa ativa.
Mas neste mundo materialista em que templo é dinheiro nada mais rentável as igrejas que o medo que cativa e pastoreia cada um o prendendo não por amor, mas pelo temor. Lamentavelmente o que assistimos hoje é um retrocesso à mentalidade do pior da igreja medieval, faltando somente a fogueira e a inquisição.
Neste materialismo da espiritualidade nada mais natural que cindir a dinâmica da vida. Deixar de lado o que por vezes nos força a crescer no sofrimento.
Os profetas modernos mais espiritualizados, como São Francisco e São João da Cruz, têm esta consciência até agradecendo de forma humilde a dor e ao sofrimento pela consciência de que este os aproxima de Deus.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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