Associação defende modelo de Comunidade Terapêutica

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Representantes da Associação Goiana das Comunidades Terapêuticas: vice-presidente Sherydan Luiza de Oliveira, o presidente Nelson Gillet e o advogado Sonis Henrique Rezende

Após divulgação da reportagem que denunciou o caso de um  foragido da justiça que mantém casa de recuperação de usuários de drogas, representantes de Comunidades Terapêuticas defendem trabalho das instituições regularizadas e ligadas à rede de saúde pública

Yago Sales

Última tentativa: mudar de cidade. Mas Pedro – nome fictício – se enganou. Não sabia que quando decidiu sair do Rio Grande do Sul, em dezembro, daria de cara com o crack ali bem perto da Rodoviária de Goiânia, no setor Norte Ferroviário. Aos 37 anos, conheceu a droga há menos de três, depois de os dois filhos morrerem em um incêndio. “Não pude salvá-los. Agora incinero o que restou de mim”.
Antes mesmo de pensar em arranjar um abrigo em Goiânia, trocou tudo que carregava na mala pelo crack, que o espreitava em meio às barracas da Feira Hippie. Perambulando pela capital, dois dias depois de consumir os pertences, restou-lhe a fé. “E Deus disse que nunca me desampararia”. De fato, não, mas Pedro deveria procurar ajuda. Onde? Por meio de uma missionária que distribuía folhetos na Avenida Goiás, Pedro, àquela altura maltrapilha, pouco se parecia com o homem que era na recepção de um hotel cinco estrelas em Porto Alegre anos antes.
Olhos azuis, vocabulário farto e corpulento, ele se casou com uma linda jovem com quem teve os dois filhos que perdera em na tragédia noticiada na tevê local. Agora, ele metamorfoseou-se num depósito de cuspes.
Ele conta que estava deitado na Praça Cívica, quando dois rapazes bêbados cuspiram nele. “Saia daqui, seu nojento”. O que Pedro era outrora não importa numa condição desumana. Ele se mistura às moscas que pousam sobre os restos de macarronada que ganhou numa bandeja de isopor do restaurante da esquina. Foi então que “tomou vergonha na cara”. Ele procurou uma dessas casas de recuperação no primeiro mês que desembarcara na rodoviária. A internação não duraria três dias. “Eu não queria ficar toda hora orando, Deus sabia da minha necessidade”.
Pedro saiu da instituição e, ainda vestido com a roupa que ganhou dos obreiros de lá, tenta arrecadar 400 reais para pagar a passagem de volta pra casa e, pelo menos tentar, viver com a família que até o buscou nas redes sociais. Ele mantinha um perfil no Facebook, mas perdeu a senha. Agora, Pedro teme perder o caminho de casa, e se desvencilha dos “noiados” do Centro.
A história de Pedro é uma entre milhares que chegam aos ouvidos do médico cardiologista Nelson Remy Gillet, presidente da Associação Goiana das Comunidades Terapêuticas. Ele trava uma severa batalha com tudo e todos – parece clichê, mas não tem expressão melhor para definir a rotina desse homem que se doou à luta que muitos de nós julga serem daqueles que perderam a “senha” da vida.
A “senha” da vida, uma metáfora impensada não fosse uma ríspida entrevista no Centro de Goiânia, é a dignidade. É o abraço, o carinho, a nova oportunidade. Parafrasear Gillet não é difícil, mas vasculhar estudos e relatórios sobre dependentes químicos, órfãos de Estado, desesperançados, desiludidos, desaparecidos de si mesmos.
Perguntado sobre o motivo de ainda insistir no modelo de Comunidade Terapêutico, ele resume: “O que queremos é que o individuo volte a existir, que resgate sua cidadania plena, que retome os direitos e deveres. O conceito de adicto é prisioneiro. Na dependência, o cara precisa de alguém que o patrocine. O que queremos é que ele seja independente, livre, cumpra com suas necessidades”.
Se Pedro tivesse sido atendido por uma dessas comunidades teria ele se desprendido do vício? Uma afirmativa nesse sentido soa irresponsável já que normalmente, segundo parâmetros desse modelo, Pedro precisaria passar pelo menos nove meses internado.
Gillet defende as comunidades terapêuticas como espaço de ressocialização, em contraponto à Resgatando Vidas, instituição  mantida por Daniel Batista de Moraes, que se apresenta como pastor, mas foragido da Justiça por assassinato. O caso de Daniel, denunciado em reportagem exclusiva da Tribuna do Planalto, é uma exceção, mas não raramente noticia-se abusos nessas casas. Para tanto, é preciso de capacitação e fiscalização pelo Governo. Para isso, a Associação dirigida pelo médico Gillet, busca a regulamentação e o trabalho de conscientização para este tipo de ambiente como parâmetro para o combate à dependência.
Vice-presidente da Associação Goiana das Comunidades Terapêuticas, Sherydan Luiza de Oliveira, que também coordena o Eixo Comunidades Terapêuticas e Reinserção Social do Fórum Goiano de Políticas, ressalta o papel desse tipo de serviço. “Propomos que haja proteção e que a pessoa tenha condições de ter um novo estilo de vida, com mais qualidade. A ideia primordial é que o indivíduo conviva com a abstinência, o enfrentamento que se considera risco e proteção para a superação dos vícios”, afirma.
Geralmente, essas Comunidades Terapêuticas funcionam sob a égide da espiritualidade, seja ela de igrejas evangélicas, católicas ou espiritas. “Mas buscamos também as práticas inclusivas, que preparem a pessoa para a reinserção social, para o fortalecimento dos vínculos familiares”, destaca.
Segundo Sherydan, dentro dessas comunidades normalmente encontra-se uma rotina de atividades que visam o resgate da responsabilidade, o autoconhecimento, a vivência entre família e a prática de cidadania.

Unidades em Goiás mapeadas em estudo

Autor de um estudo que visa mapear as comunidades terapêuticas, o advogado Sonis Henrique Rezende Batista, assessor jurídico na Federação do Centro Oeste das Comunidades Terapêutica, pesquisou 43 destas unidades na Região Metropolitana de Goiânia. Estima-se que sejam mais de 200 só em Goiás. O estudo identificou os serviços oferecidos, a equipe de trabalho, o público, e a relação  com os serviços de saúde.
O advogado encontrou no cadastro junto ao Fórum Goiano de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas e ao Grupo Executivo de Enfretamento às Drogas (GEED), as informações sobre estas unidades. Para chegar aos resultados, ele aplicou questionários nas próprias instituições. As aplicações ocorreram de novembro de 2013 a fevereiro de 2015.
Munido com os resultados, o advogado registrou a pesquisa junto à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. O estudo com as 43 comunidades chegou à conclusão de que 36 delas (83,7%) são destinadas a homens, e sete (16,3%) às mulheres.
Dentre as 43 comunidades, 27,9% possuíam mantenedora e 72,1% não contavam com apoios. Outro dado interessante é que 53,5% das comunidades trabalham com o tratamento ligado à religião. Apenas 30,2% não tem vínculo religioso e 14% é misto, ou seja, religioso e comunitário.
O público atendido são de dependentes químicos de drogas lícitas e ilícitas, total de 97,7%.
O advogado estudou o modo como estas comunidades lidam com a saúde fora dos muros dessas instituições. Todas as CTs utilizam-se dos Sistema Únicos de Saúde (SUS) para atender os dependentes. Pelo menos 48,8% das CTs encaminham os residentes a um tratamento semanalmente.

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