“A Saneago é parecida com a Prefeitura, que também não cumpre o papel dela”

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Polêmico e sincero, Agenor Mariano esclarece seus posicionamentos sobre temas importantes para a cidade: revisão do plano diretor e municipalização da água

Se há uma característica que transparece em Agenor Mariano (PMDB) é a sinceridade, o que chega a ser louvável em político. Com ele não há meias palavras, é preto no branco. Assim, o secretário de Planejamento Urbano e Habitação de Goiânia é uma verdadeira metralhadora giratória. Estilo que se intensificou nos últimos anos, após ser eleito, em 2012, vice-prefeito de Goiânia. Formado em Administração de Empresas, antes da vice no Executivo, assumiu a secretaria de Administração e Recursos Humanos da prefeitura da capital entre 2005 e 2008, na gestão de Iris Rezende. Em 2008, elegeu-se vereador pelo PMDB. Em 2012 foi eleito vice-prefeito de Goiânia, cargo que ocupou de 2013 a 2016. Neste período, porém, protagonizou uma briga ferrenha com o então prefeito Paulo Garcia, do PT, a quem acusou de deixá-lo em situação de penúria, sem sequer uma secretária para redigir ofícios. O arranca-rabo culminou com o rompimento total, em dezembro de 2015, quando o vice-prefeito passou a atacar a gestão de Garcia. E como estamos falando de sinceridade, Agenor Mariano, que é corretor de imóveis e empresário da área, diz abertamente que não se pode excluir o setor imobiliário das discussões sobre a atualização do Plano Diretor da capital. Afinal – argumenta –, eles são empresários que vivem a cidade e precisam ser ouvidos.


Manoel Messias Rodrigues e Daniela Martins

Tribuna do Planalto – O prefeito Iris tem está conseguindo equacionar o problema da dívida herdada de Paulo Garcia, estimada em R$ 600 milhões, com um déficit mensal de R$ 30 milhões?
Agenor Mariano – Temos que entender que nossa arrecadação é diária, porém com contabilidade mensal. Em um mês não dá para tirar um déficit de  de R$ 600 milhões, que foi o identificado até agora. Então, durante muito tempo será sempre um processo de construção e reconstrução do equilíbrio financeiro da prefeitura. Se tivéssemos apenas um déficit de R$ 30 milhões, teríamos de achar onde está este déficit, contornar, equilibrar e pronto. Mas isso não é verdade, porque temos o déficit mas não temos um serviço prestado em sua plenitude. A cidade não está nada satisfeita com a limpeza urbana, a infraestrutura, saúde. No nosso caso, além de reduzir o déficit, tenho que criar um superávit de R$ 50, R$ 60 milhões mensais para melhorar a qualidade do serviço. Hoje a prefeitura não tem condições de fazer investimentos.

A Prefeitura está tentado controlar gastos para criar caixa? Por que mesmo depois que o Iris assumiu tivemos problemas de limpeza?
Tivemos problemas de limpeza, não, voltamos para o problema de limpeza. Chegamos e conseguimos recuperar, mas depois, evidentemente, por problemas de caminhões, de licitações de peças, acabou comprometendo e estamos tentando resolver. Ainda não saiu nenhum pouquinho da herança. Acho engraçado que o Paulo [Garcia] já estava há quase seis anos na prefeitura e a desculpa ainda era a gestão anterior. Nós só temos um mês e você está achando que não é a gestão anterior a culpada?

Paulo Garcia era um prefeito mal assessorado, não conseguiu ordenar as finanças? O que aconteceu?
Não quero entrar no assunto Paulo Garcia, porque é um passado triste da cidade. Deixemos os livros de história exemplificar como um modelo a não ser seguido.

O sr. esteve até quando na gestão?
Nunca fiz parte da administração Paulo Garcia, nenhum dia.

Não?
Não.

O PMDB sim.
O PMDB, sim; eu não. Como diz o prefeito, eu sou um reserva. Agora, se eu tivesse sido secretário, teria ordenado despesas, teria participado da gestão. Poderia dizer que fui da gestão, mas aí não foi dele e sim minha, no período em que assumi como prefeito. Mas foi por uma semana.

Em quanto tempo, o prefeito deve colocar em dia a situação de Goiânia?
Uma recuperação dessa é um processo de equação, existem variáveis. Tem a parte que nos cabe fazer internamente dentro do Paço, que é o processo de economia, de otimização dos processos, tentar equacionar a produtividade; mas há os fatores externos, como a própria recuperação da economia que incide numa melhora da arrecadação municipal. Então, é uma situação que é difícil dar prazo. Só vivendo cada dia, os problemas que vão surgindo e as soluções que vão sendo apresentadas, para podermos dizer e a população ter a percepção de mudança. Apesar de todas essas crises, a informação que tenho por parte das pessoas é que já mudou, lógico que muito aquém do que esperamos e queremos. Mas já há uma percepção de mudança do ponto de vista da efetividade, do comprometimento, do restabelecimento da ordem.

“Paulo Garcia é um passado triste da cidade. Deixemos os livros de história exemplificar como um modelo a não ser seguido”

O sr. já declarou que é a favor da municipalização da água. A Câmara autorizou a prefeitura a fazer um novo contrato com a Saneago, o prefeito já se pronunciou também. Como deve ser equacionada essa questão?
É uma decisão do prefeito, ele é soberano em decidir. Até o momento, por mais que a Saneago forneça água a mais de 98% da cidade, ela impede muito o desenvolvimento do município. Muitos empreendimentos que querem investir na cidade, contratar pessoas, às vezes são retardados porque a Saneago não tem água para oferecer. E aí fica aquela sensação de que todo mundo tem água. Não. É todo mundo que ela autorizou a ter água. Se eu vim agora e colocar vários bairros na cidade, e querer construir lá, ela vai me dizer que não tem água. De certa forma, ao longo dos anos a Saneago não fez o dever de casa. Ela está muito parecida com a prefeitura, que também não está cumprindo o papel dela, tem falhas gritantes na prestação de serviços ao cidadão. E a Saneago está no mesmo caminho, não consegue atender as demandas da cidade como o tratamento do esgoto. Saneago fala sempre da Estação do Goiânia II que não funciona e é um problema para os moradores que lá residem pela forma não adequada de fazer os processos. Ela só faz o tratamento primário, não faz os tratamentos secundário e terciário, lança esses dejetos no Meia Ponte. Tem em Goiânia mais de 20, 30 pontos georreferenciados de lançamento de esgoto in natura no solo. A Saneago é uma grande poluente, uma destruidora do meio ambiente da cidade. E assim eu posso enumerar n motivos pelo qual eu acho que a Saneago deve passar o chapéu. Se não dá conta, devolve. A gente tem uma mania de achar que água e esgoto é assistência social. Não! É comércio, negócio, lucro.

“A Seplanh não planeja, não pensa a cidade. Até a função de bater carimbo, não faz bem feito”

Qual o cronograma para discussão, no âmbito da Seplanh, para a atualização do Plano Diretor de Goiânia, que tem de ser feita este ano?
Temos até 31 de dezembro para enviar para a Câmara o projeto de atualização do plano. Nesse período vamos fazer audiências públicas, cumprir ritos. Durante estes dez anos, desde a sua aprovação, os problemas que foram surgindo, as reclamações que a cidade pontuou poderão ser colocados agora, debatidos. É uma questão de se analisar, de continuar os estudos, fazer as audiências, ver o que é importante para a cidade na visão da prefeitura. E, depois, ver o que aprova ou não na visão dos vereadores.

Goiânia tem um histórico de abuso do poder econômico. Na área urbana há grandes áreas vazias, objetos de especulação. O último Plano Diretor trouxe o Imposto Progressivo, que, parece, não foi aplicado pra valer. Desta vez teremos instrumentos efetivos, que façam a cidade de modernizar, ocupar esses espaços vazios e parar de crescer para regiões distantes, como é o caso do setor Orlando Morais?
Sobre o Imposto Progressivo, temos de conversar com a [Secretaria de] Finanças, pela mentalidade tributária, como seria isso. Sobre as questões de ocupações urbanas, isso que você falou daria muito certo se a gente não tivesse Goianira, Senador Canedo… Qual diferença faz o Orlando Morais e Nerópolis, que fica na divisa com Goiânia. Vamos proibir Nerópolis também de fazer um bairro na divisa? Ou vamos dizer que quem mora na divisa não vai poder trabalhar nem se locomover por Goiânia?

E os vazios urbanos, e o distanciamento?
Mas isso o plano diretor já prevê. Só pode aprovar loteamentos, desde 2007, a área que estiver contígua a um outro loteamento já aprovado, com 30% ocupado. Já existe a questão da contiguidade. Isso é uma aberração do passado. Já não se pode aprovar dessa forma.

Pelo que o sr. encontrou na secretaria, a Seplanh tem cumprido seu papel de pensar e planejar Goiânia?
Estou conhecendo a secretaria, tenho 50 dias na pasta. Pelo que vi até agora, não tem nada.

Se tornou um órgão meramente carimbador?
Um carimbinho capenga, demorado para sair. Tem a função de planejar, não planeja, não pensa a cidade. E até a função burocrática de cara-crachá, de bater carimbo, não faz bem feito, não sai. Então tem que ser toda repensada.

Esta é uma das metas do sr., dar uma nova face à secretaria?
Olha, uma das coisas mais bonitas que o ser humano tem é a fé. Então o indivíduo munido de fé pode chegar longe. Se não houver fé e esperança, talvez você peça demissão no outro dia. É preciso acreditar que algo vai acontecer. Se nos fosse dada a oportunidade de enxergar o futuro e identificar que daqui quatro anos, que é o tempo do mandato, que nada vai acontecer, nada vai mudar, aí é melhor que você vá embora hoje. Vai ficar fazendo o que lá?

Sua secretaria está também com a parte de Habitação, que, claro, é importante. O sr. defende a questão do subsídio habitacional para a população de maior vulnerabilidade financeira. Existe algum levantamento em Goiânia, e de onde viria esse subsídio, seria uma parceria com o Governo Federal, do Estado?
Todo mundo tem suas obrigações. Nosso cadastro apresenta em torno de 27 mil pessoas que, teoricamente, se dizem enquadradas nesse perfil. Quando você vai analisar para fazer entrega e sorteio de casas, esse cadastro é flutuante. Ele é atualizado de dois em dois anos, e vamos monitorando. Habitação é papel do poder público, e nosso prefeito Iris é campeão nisso, sem tietismo. Gosto de estudar a história de Goiás, de Goiânia, e percebo que quando você faz comparativos estatísticos com as cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes, Goiânia é talvez a única delas que não tem favela. O que aconteceu de diferente nessa cidade? A diferença é feita por um só homem, Iris Rezende Machado, que pela sua longevidade de poder, em 1965 ele já era prefeito de Goiânia, e essa é quarta vez que passa pela prefeitura, e duas vezes na condição de governador, pode ser alguém que contribuiu para que Goiânia não tivesse favela. Em 5 anos e três meses da última gestão de Iris, ele conseguiu entregar 9 mil casas. Todos governos fizeram programas de habitação, mas Iris ficou acima da média.

O sr. considera possível a construção de uma arena multiuso com capacidade para 45 mil pessoas (gramado e arquibancada) onde hoje está localizado o estádio do Goiás, cercado de edifícios residenciais?
Primeiro é importante ressaltar meu espírito vilanovense. Mas secretário não tem time. Não sou eu que digo que é possível, a legislação está aí. Se se enquadra nela, faça. Se não se enquadra, não faça. Sou apenas o juiz do processo executório. Se o projeto que eles apresentarem estiver dentro dos parâmetros, será aprovado.

“Não vejo problemas [na Câmara].A cidade inteira está insatisfeita”

Iris tem sofrido muitas críticas na Câmara, onde se esperava, pela ampla base de apoio, mais tranquilidade. Essa impaciência do Legislativo surpreende o Executivo? O prefeito já começa a ter problemas com o Legislativo?
Não, honestamente não estou enxergando problemas. Insatisfação? A cidade inteira está insatisfeita. A cidade está insatisfeita com a coleta de lixo, com os buracos. A questão da Câmara é uma questão conciliatória. A Câmara é um poder independente, tem lá as suas prerrogativas, o seu orçamento, não depende de dinheiro do Executivo para tocar suas atividades. A Câmara tem definido em Lei Orgânica do Município qual o seu papel. O Executivo tem definido o papel dele. Cada um tem o seu papel e não vamos nos meter, que eles cumpram bem como nós vamos tentar cumprir o nosso bem aqui. Não vejo essa insatisfação, até porque até o presente momento é apenas parlamento, que é a atividade parlar do vereador. Falar que não concorda com isso ou aquilo outro é bem diferente de dizer “eu saí da base”. Vou considerar essa insatisfação quando alguém chegar e dizer “eu saí da base”.

Sobre eleições 2018, PMDB já se reuniu internamente para discutir essa temática. Hoje se fala em Daniel Vilela, Maguito Vilela e Ronaldo Caiado, que é do grupo oposicionista. Neste cenário, há possibilidade de o PMDB apoiar o Caiado?
Uma certeza que temos é que em 2018 teremos eleições para governador. Agora, quais os atores estarão lá, isso eu não sei te dizer. O que acontece é que nós, de Goiânia, e quando digo nós, posso falar o prefeito Iris, a Dona Iris, eu e outros que são filiados ao PMDB, nós não fazemos parte da Executiva estadual do partido. Somos do partido e o povo, recentemente, delegou ao Iris a situação de ser prefeito de Goiânia e Iris, por consequência, delegou a nós a função de ser secretários. Como mais da metade da nossa entrevista se concentrou no caos administrativo e gerencial no qual a prefeitura se encontra, seria até uma falta de respeito com o eleitor vir a se sentar à mesa para discutir as eleições de 2018. Só nos sentamos à mesa para discutir economia, prestação de serviço, eficiência da maquina pública e entrega de benefícios a um cliente muito exigente, que é o munícipe de Goiânia e que está muito insatisfeito com o que está recebendo. Lá na frente talvez encontremos um tempinho para pensar em eleições de 2018.

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