Chico, o homem-cão

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Morador do lote há mais de seis anos, Chico, como é conhecido, vê sua “casa” desmanchada pela prefeitura a cada 30 dias

Chico é um personagem conhecido em Aparecida de Goiânia. Mora ao ar livre, num lote “vago”, em meio a um amontoado de lixo que recolhe pelas ruas, e sob olhares de reprovação e até de gratidão dos vizinhos. Mas quem é esse tal Chico?

Yago Sales

“Vão tirá-lo daí?”, “Até que enfim…”, “Não aguento mais este entulho”. Frases assim sussurram da boca dos vizinhos de Francisco Ferreira de Melo, o Chico, da Rua Araxá, pertinho do lote nove, na Vila Brasília, em Aparecida de Goiânia. Ele mora no local há mais de seis anos e, a cada 30 dias, a prefeitura passa lá com um caminhão, três, quatro homens alheios ao apego dele com as coisas, impassíveis, e jogam tudo na caçamba, sem tempo nem para despedida. Sobra um Chico triste, sem cama, sem televisão, sem o rádio, sem geladeira, sem fogão e até máquina de lavar. É que tudo vem das lixeiras, inclusive centenas de quilos de garrafas, sacolas, latinhas, fios, bonecas, roupas, poltronas, garrafas de café e tantas outras coisas. “Eles levam tudo, por isso preciso esconder na vizinhança alguns objetos que vou encontrando durante o mês”. Uma delas, uma câmera fotográfica novíssima, uma máquina de escrever e bicicletas faltando uma peça aqui, outra acolá.
Logo quando Chico decidiu morar por ali, algum vizinho estranhou-o. É que ele gosta de trabalhar na madrugada. Quando acordou, o vizinho levou um susto: um monturo se formou no lote. Ele chamou a polícia que exigiu que Chico saísse. Chico se negou a sair. Pego pelas costas por um policial, alcançou ligeiro uma ripa e acertou com força no joelho do PM que caiu de joelhos. Como resposta, disparou duas vezes na perna esquerda do homem que decidiu morar ao ar livre. Mesmo deitado, “com dores nas juntas”, levou mais dois tiros na perna direita. “Não fosse nossa senhora eu estava desgraçado de aleijado”, acredita, esticando a bermuda, apontando às cicatrizes. “Fiquei meses com aquele cheiro de sangue e pólvora nas pernas”, lembra.
A idade dele? Nem mais nem menos que cinquenta anos. Ele chuta. Não sabe ler e também não permite que o repórter espie sua certidão de nascimento novinha, escondida em uma pasta de pano preta que ele carrega como se ela mesma fizesse parte do corpo dele: intocável. O homem tem uma altura estimada de 1 metro e 80 cm e deve pesar mais que 85 quilos. Nem parece que vive em situação de rua. Do mesmo jeito que apostam que um dia vão tirar Chico de sua “casa” e levá-lo para qualquer lugar, desde que longe, muito longe, para desinfetar o bairro, outros tantos vizinhos o aceitam na região, mesmo que o estigmatizando como um cão de guarda. Três vizinhos reafirmam: ele tem sua bagunça, fede muito, mas pelo menos vigia as casas.
“Não encontrei bicho para entrar nas casas por aqui”. Para defender uma das residências da vizinhança, por exemplo, Chico rangeu os dentes numa noite de sexta-feira, bateu de frente com um homem armado. Um ladrão. A vizinha que viu tudo gritou: “Corre Chico!”. Os dois tiros que explodiram da pistola a poucos centímetros nenhum acertou o homem. “Que diabo tem esse velho?”, gritou o atirador, subindo na moto e zarpando, amedrontado. Anos mais tarde, o mesmo que tentara contra a vida de Chico morreria com 17 tiros em frente a uma farmácia da região.
Chico só não late, mas carrega em si um jeito canino. Afetuoso, gosta de ser bem tratado e, quando o olham de esguia ou reclamam de sua “casa” revirada, misturada à nojeira que todos escondem detrás de paredes e sob tetos, ele range os dentes, falta morder. “Eu prendo o espírito de qualquer um que mexer comigo”, assume num tom místico. “Tenho no sangue o dom de prender, com chave, o espírito de pessoas ruins”.
Descabelado, rosto sapecado dum sol que ele faz questão de chamar de deus, manco, o piauiense de Campos Maias, Chico é quase uma invencionice. Contador de histórias, não tem hora do dia que fica sozinho, sem visita. “É traficante, noiado, bebum, puta, crente, macumbeiro, mulheres, homens, crianças e o diabo também”. As visitas não se sentam no sofá que ele recolheu de madrugada e arrastou em um carrinho de supermercado até seu quintal. Quem se sentaria ali, na “casa” de Chico, sem teto, sem parede? Chico nem ousa oferecer água que ele guarda em um barril de madeira apodrecida por fora, mas, por dentro, como ele garante, é cristalina, vinda lá de cima. “E alguém bebe?”, diz, gargalhando.
Chico aprendeu cedo que na rua você não pode fazer o gosto do diabo, mesmo que lhe recebendo de vez em quando. “Não fumo, nem bebo para não atrapalhar meu aprendizado. Só se recebe os dons quando não se tem vício. É a santidade”, ensina, ajeitando os papelões que venderá dali a quinze quadras.
Até o ferro-velho de Carlos Roberto Dias, 53 anos, no mesmo bairro, mas numa distância a pé de doer os joelhos, Chico precisa recolher o material que cai no meio do caminho cinco vezes. Alguns papéis ficam para trás, mas ele não desiste mesmo com a chuva lhe molhando em respingos. “Se molhar muito, não compensa. O valor da pesagem cai quase pela metade”.
O carrinho abarrotado de papelão e plástico e dois sacos de latinhas é guiado por mãos duras. “Sujas de terra, mas sem sangue”. Chico bem que tentou matar duas, três vezes. “Mas gente do bem não mata, não, sabia?”.
Ele ia pelo caminho da criminalidade quando se deparou com a consciência de que o fim do criminoso ou é a morte ou é a cadeia. Acabou preso quando tentou roubar um carro com as mãos entre a blusa simulando arma. Não convenceu. A mulher que já o detestava lhe deixou de vez. “Me restou a rua”. E acabou indo morar num lote ao lado das quitinetes dos filhos. “De vergonha, sei lá, eles foram embora, mas sempre me visitam”.
Chico é requisitado para remendar pneus, espantar marimbondos, desentupir pias. Chico é tudo ali, menos gente para se abraçar. “Me abraçar? Até estranho, viu?”. Sempre ao lado da cadelinha Susi, que está com ele há uns dois anos, Chico gosta mesmo é de colecionar aquilo que abandonam por luxo: “gosto de tudo o que largam por aí. Mas a prefeitura acha que sou um problema e levam tudo, quase que mensalmente”.
No caminho do ferro-velho, ele entra em dois lotes baldios. Vasculha um monte de lixo. Finge não enxergar duas latinhas, uma das peças mais caras no ferro-velho. “Só pego se eu sentir que devo pegar”. Mas pega um parafuso torto, desentorta com uma pedra, e depois bate com a ponta em uma madeira pelo menos cinquenta vezes. “Me sinto bem fazendo isso. Um alívio”. Chico guarda o parafuso no bolso. Anda poucos passos, enfia a mão em um dos bolsos e tira uma porção de porcas, escolhe uma. Olha no centro dela e a enrosca dezenas de vezes em um parafuso. Faz isso incontáveis vezes. Chico é mistério.
À medida que narra sua rotina no lote e na rua, reclama da truculência da prefeitura, ri dos bêbados que o procuram para se livrarem do vício das drogas por meio de orações, Chico para outras vezes. Além de repetir o ato com as porcas e parafusos, ele faz laços com linhas amarradas no encosto do carrinho. Ele suspira. “Tudo que faço está escrito”, justifica, encerrando o assunto.
Quando chega ao destino, promete a Carlos, do ferro-velho, que pretende voltar ainda naquele dia com mais material reciclável. Enquanto Carlos bate na calculadora, Chico volta aos parafusos. “Olha, o senhor pode tirar aqueles R$ 2, seu Carlos, que estou te devendo”. Chico recebe R$ 8,75. Antes de se despedir, repara um carrinho de bebê debaixo do que sobrou de duas geladeiras. “Quero levar aquele carrinho para uma irmã da igreja que me pediu uma peça”. Chico paga R$ 4 e sai satisfeito. Subindo a rua, encontra-se com uma “loja” inteira de roupas. A lixeira tem meias, blusas, cuecas, almofadas e até um modem de internet danificado. Antes de voltar para sua “casa”, Chico terá deixado seu carrinho cheio. No lote, despeja tudo, sob a olhadela de um vizinho carrancudo que lhe pragueja pelas costas. Quando Chico vira, o morador sorri e, ainda, lhe oferece um prato de comida. “Pensa que me engana…”, Chico sussurra.
Em 30 minutos, ele comeria outros três pratos. Muito melhor que self service: arroz, feijão, frango assado, salada, bife, carne moída, frango frito e um copo de suco de goiaba. A última, indagada sobre o motivo de alimentá-lo, responde sem vacilar: “Bom que ele olha nossa porta, né?, tá tudo muito perigoso, né?”.
O lote onde Chico mora, de 442 metros quadrados está à venda. Vale R$ 230 mil. Na imobiliária, garantem: “Vamos pagar uns meses de aluguel para ele”. Chico não terá a boca livre. “Não três pratos ao dia, né?”.

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