O carnaval e as minorias ofendidas

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Frederico Ribeiro
Especial para a Tribuna do Planalto

A correção política coloca o carnaval em risco? Acho que seria um exagero dizer que sim, mas sem dúvida a questão tem provocado discussões acaloradas entre os participantes de uma das festas mais populares do planeta. De um lado, há quem defenda a tradição. Do outro, estão movimentos feministas, religiosos e de pessoas de cor (sem me dar conta na hora, aqui já usei um termo Politicamente Correto). No centro, gente que só quer aproveitar a data. Acho que vale ponderar sobre o assunto, porque esta é a festa mais popular do país, parte de nossa história e culturalmente indissociável da identidade do brasileiro – quer você goste ou não de “pular” carnaval.
“Cabeleira do Zezé”; “Maria Sapatão”; “Índio quer apito”; “O teu cabelo não nega”; entre outras, são músicas que têm causado polêmica. No caso das duas primeiras, as referências às homossexualidades masculina e feminina, respectivamente, estão claras. As outras duas tratam dos índios e dos negros. Uma primeira pergunta é: estas marchinhas tratam estes esses temas de modo estereotipado, pejorativo, preconceituoso? A resposta é: sim. Sim, e muito.
Vou pegar um exemplo, um só – porque senão este texto não teria fim. Em “O teu cabelo não nega”, do consagrado músico Lamartine Babo, a letra diz: “O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata, eu quero o teu amor.” Ora, está mais que claro que o que a composição denota é que, apesar de a pessoa em questão ser mulata, ele (o eu lírico da canção) quer o amor dela. Mas não só: para piorar, ele só quer o amor dela porque cor de pele não é contagiante. Difícil ser mais racista que isso.
No entanto, a partir da confirmação do teor absurdo desse conteúdo, outra questão se impõe. Mesmo sendo machistas, homofóbicas etc, estas músicas devem permanecer no repertório das comemorações ou não?
É um assunto mais complexo do que parece à primeira vista. Anos atrás, quando proibiram nacionalmente o fumo em ambientes fechados, muita gente, inclusive este aqui que escreve, achou um exagero. Hoje vemos que esta medida foi acertada e não só do ponto de vista da saúde pública ou de higiene. Era a coisa certa a fazer porque com o passar do tempo os costumes mudam; nossos hábitos mudam e vez ou outra somos literalmente obrigados a nos adequar a estas novas normas de convívio sob pena de sermos marginalizados ou mesmo penalizados judicialmente. Na minha infância, quase ninguém usava cinto de segurança; hoje, raro é quem não usa. Esta nova regra veio por imposição. Ou seja, podemos dizer que algumas mudanças, gostemos ou não delas, são inevitáveis, são o que chamamos de “evolução”. O difícil, claro, é dizer quais são as que se impõe por puro modismo (que podemos chamar de caprichos) e quais são incontornáveis. Só o tempo dirá.
Mas voltando ao carnaval. Li que a música “Tropicália”, de Caetano Veloso, também virou alvo de críticas por usar a palavra “mulata”. Não seria um exagero? Afinal, Caetano não está estereotipando. E se estivesse? Até que ponto é aceitável, até que ponto é passível de punição? Um filme clássico de minha infância, “Indiana Jones”, estereotipa os árabes, e muito. Deveria ser proibido? Claro que não. (Se “Indiana” seria, nestes nossos corretos dias, produzido do mesmo modo, aí já é outra história.)
Se for mesmo para coibir, ou até censurar, então o que seria do funk, por exemplo? Provavelmente este gênero musical sequer existiria. Neste meio, se o barulho (melhor não chamar de música…) não tiver uma letra bem chula, bem machista, bem misógina mesmo, então não tem chance de fazer sucesso.
Penso que, desde que se trate de adultos, o melhor é deixar que as pessoas, com o tempo, rechacem o que acham apropriado rechaçarem, e mantenham na playlist o que quiserem ouvir. Afinal, diferente do cigarro e de automóveis, músicas não matam.

*Frederico Ribeiro é escritor,  jornalista e colaborador da Tribuna do Planalto. Cinéfilo e cineasta. E-mail: fredericoribeiro@yahoo.com

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