“A escola precisa funcionar bem, mas é preciso comprometimento pedagógico”

0
4843

Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Goiás, com mestrado em Medicina Tropical pela Universidade Federal de Goiás, o secretário de Educação de Goiânia, Marcelo Ferreira da Costa, é um profissional da educação, possuindo credenciais excelentes para fazer uma ótima gestão. Atualmente ele é professor-assistente da PUC/GO, foi professor convidado da UFG, membro do Conselho Estadual de Alimentação Escolar. Especificamente na área de formação de professores, atua nos temas ensino-aprendizagem, avaliação da aprendizagem e institucional. Da universidade para a realidade, ele tem agora a missão de comandar um órgão complexo, com mais de 17 mil servidores e que atende cerca de 100 mil alunos, incluindo as crianças da pré-escola. Entre os desafios, ele precisa atender a crescente demanda por vagas nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), além de elevar a qualidade da educação básica na capital. De início, Marcelo Ferreira recebeu uma secretaria com muitas obras paralisadas e outras sequer iniciadas, o que certamente retardará a abertura de novos CMEIs. Pragmático, o secretário afirma que educação se faz com participação de todos, especialmente da família, além, é claro, da comunidade escolar. Além de melhorar a nota de Goiânia no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ele planeja a educação para daqui a 20 anos. E, para tanto, pretende implantar na rede municipal de ensino um sistema de avaliação que servirá para correções dos pontos fracos.


Manoel Messias Rodrigues e Fabiola Rodrigues

Tribuna do Planalto – Em que pé o sr. recebeu a Secretaria Municipal de Educação?
Marcelo Ferreira da Costa – Assim que assumimos, começamos um diagnóstico e levantamento dos processos de toda a secretaria para entendermos os pontos fortes e fracos que tínhamos. A secretaria tem um quadro de recursos humanos muito bom, preparado e o diagnóstico serve para a gente poder saber onde podemos contribuir na eficiência da secretaria.

Trata-se de um órgão grande, complexo…
A secretaria possui 361 unidades, mais de 17 mil servidores, atende mais de 100 mil alunos. Então começamos a mapear os recursos humanos para entender o funcionamento da rede. Em seguida, levantamos todos os tipos de convênios, contratos, processos que tramitam no âmbito da secretaria, para que pudéssemos entender quais contratos eram vantajosos e quais não eram para a secretaria, visto que há contratos que mais oneram do que trazem benefícios pedagógicos. A finalidade da Secretaria de Educação é atender pedagogicamente as crianças. Toda a parte administrativa dá suporte para fazermos esse atendimento pedagógico. Por isso precisamos otimizar, para que tenhamos recursos e eficiência para que o pedagógico possa florescer.

A escola tem perdido seu foco, o ensino?
O que faz a criança aprender é o comprometimento pedagógico, que precisa ter apoio administrativo. Não pode inverter: achar que se a escola funciona administrativamente bem, a criança aprende. Não. A escola precisa funcionar bem, mas é preciso comprometimento pedagógico para que as pessoas estejam dentro do processo de ensino-aprendizagem de forma realmente adequada.

Esse processo é permanente?
Sim, contínuo. Mas nesse primeiro momento tivemos de estabelecer algumas bases. Inclusive já conseguimos minimizar alguns custos.

Isso é orientação do prefeito?
Sim. O prefeito nos pediu que fizéssemos esses ajustes o mais breve possível. É claro que secretarias muito grandes têm mais dificuldades para diagnosticar, mas estamos auditando todos os processos e já conseguimos alguns avanços.

Dê exemplos.
O simples gesto de aproximação da secretaria com a escola, num projeto que coloca o gabinete do secretário dentro da escola, faz com que a confiança pedagógica aumente, porque numa rede não podemos ter escolas que pensem diferente. Precisamos de boas iniciativas, que precisam ser socializadas nas redes, compartilhadas como boas práticas. Apesar das dificuldades financeiras que o município enfrenta, estamos também vislumbrando possibilidades de bons projetos, inclusive com perspectivas de diminuição do déficit de vagas. É claro que uma máquina muito grande tem também uma inércia maior.

“É ordem do prefeito e vamos atacar, no curto tempo, a falta de vagas que tem persistido em outras gestões”

O que o sr. viu de mais grave na secretaria?
O mais grave que a gente pode destacar é que tínhamos pelo menos 11 obras paralisadas, mais 35 obras de Cmeis que nem saíram do papel. Isso para nós é importante, porque se tem uma expectativa da população (de vagas) e essas obras não iniciadas e não concluídas impactam muito negativamente nesse processo. Então a secretara precisa de azeite nas engrenagens para que a gente possa fazê-la funcionar. Ela tem apoio do governo federal, recursos disponíveis, mas é necessário que a secretaria saiba e queira usar esses recursos de forma adequada. O que estamos fazendo é justamente garantir que essas coisas aconteçam.

Como está o andamento do concurso?
Sim. O concurso não foi concluído na gestão passada e nós temos tomado todas as medidas administrativas desde o primeiro dia de gestão para que a chamada fosse feita, tramitar de forma adequada. Aliás, é o que tem acontecido.

Em que fase está o processo?
Como o concurso foi feito pela Secretaria de Administração, na gestão passada, enviamos um comunicado para que ela tome as providências legais para a chamada dos aprovados. Está tramitando dentro da normalidade.

Não há ainda um prazo para a posse?
Tudo isso tem etapas. A secretaria precisa verificar os nomes dos aprovados, checar a ordem, depois fazermos a chamada, as pessoas precisam fazer exames, se tornarem aptas, para então tomar posse.

A expectativa é de criar quantas novas vagas nos Cmeis de Goiânia?
Temos três grandes frentes: a primeira é trabalhar com a possibilidade de locação ou convênios, que têm trâmites em processo mais rápido; temos as obras que estamos buscando acelerar o andamento, inclusive com a criação de um Núcleo de Rede Física, com engenheira própria, dentro da nossa secretaria, para agilizar os processos, diminuir a burocracia pra gente dar continuidade às obras paradas e implantar aquelas que ainda não começaram; e uma terceira frente que seria trabalhar com uma alternativa proposta pelo MEC que é a utilização de metodologias inovadoras para construção mais rápida, para que possamos abrir novas vagas de modo mais rápido. É ordem do prefeito para que ataquemos, num curto prazo de tempo, esse problema inicial da falta de vagas, que já vem persistindo em outras gestões. Vamos atacar esse problema de forma adequada.

Serão adotadas as salas modulares?
As salas modulares fazem parte do rol das metodologias inovadoras que são propostas pelo FNDE. Estamos conhecendo essa experiência. O prefeito tem essa visão moderna de que a gente pode resolver os problemas de forma mais fácil e inteligente, buscando novas tecnologias, alternativas. Ele tem dito isso aos secretários e é o que temos procurado fazer.

“As salas modulares fazem parte do rol das metodologias inovadoras que são propostas pelo FNDE. Estamos conhecendo essa experiência”

É possível quantificar o tamanho do déficit de vagas nos Cmeis?
No início do ano haviam sido oferecidas 10 mil vagas para a rede. O processo de inscrição, seleção é complexo porque se escolhe três opções, não havendo vaga, passa-se para a segunda opção e assim sucessivamente. E o processo continua todo o ano, diferentemente da escola regular, que tem período para matrícula. E nós vamos conseguindo alternativas com locações, convênios. Agora meso estamos com pelo menos 500 vagas que conseguimos em salas que alugamos, que conseguimos liberar de escolas, mas o sistema é flutuante. O município busca atender todas as crianças, inclusive indo além daquilo determinado na lei, mas precisa ir de forma planejada, não se pode atender todo mundo de forma precária. É preciso trabalhar para a rede atender bem as pessoas. Inicialmente estamos atacando pontos específicos, mas nosso planejamento é para reduzir o déficit de modo significativo em breve. Conversamos com o prefeito e ele autorizou que façamos as pesquisas necessárias para que possamos, num período mas curto possível, fazer uma diminuição expressiva nessa falta de vagas. A gente não tem como adiantar ainda qual será especificamente a metodologia, mas temos planejamento para isso.

Tudo isso é caro. O Governo federal ajuda por aluno matriculado?
Sim. Existe uma contrapartida para a construção do Cmei, mas a parte da manutenção, custeio é mais difícil que a construção. Estivemos com o ministro [da Educação] há duas semanas e pedimos a ele uma revisão dos valores que são repassados pelo Fundeb, porque todos os municípios do Brasil encontram dificuldades com o custeio da educação. O Fundeb foi desenhado para pagar toda a folha de servidores e ainda sobrar 40% para manutenção. Mas hoje em Goiânia todo o Fundeb é utilizado para pagar folha e o Tesouro Municipal tem que complementar quase a outra metade desses salários. Então isso é muito impactante para nosso trabalho. Por isso a necessidade desse ajuste que estamos fazendo, tanto administrativo como pedagógico, para que possamos dar mais eficiência administrativa e para que possamos oferecer aos professores as condições pedagógicas para que eles possam cumprir sua função, que é o processo de ensino-aprendizagem.

A determinação do prefeito para economizar está afetando a Secretaria de Educação, que precisa de muito dinheiro para manter escolas, alimentação, limpeza?
Na primeira reunião para com o prefeito, ele disse que tinha prioridade com a saúde e educação. De lá para cá, em todos os despachos, todas as conversas, eu tenho percebido essa vontade que a educação funcione de verdade. Estamos imbuídos disso. Todas as despesas continuadas da secretaria estão sendo atendidas; dívidas antigas, de outras gestões, estão com o prefeito, ele está resolvendo caso a caso, mas as despesas correntes estão sendo pagas de forma normal.

”É preciso pensar que cidadãos queremos formar, que futuro queremos, e a educação tem que ser um meio para esse objetivo”

“É preciso pensar a educação não apenas para hoje, mas para daqui a 20 anos”

Quais os maiores desafios encontrados na questão da valorização do profissional da educação?
São várias questões. No caso do piso nacional, a prefeitura vai cumprir a lei, vamos fazer isso com responsabilidade, com respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. Achamos que devemos ter, sim, um quadro permanente, bem capacitado, com uma carreira; o profissional tem que trabalhar para prestar um bom serviço para a comunidade, mas isso tem de ser feito de forma que essa rede seja sustentável. Não dá para contratar todo mundo que a gente acha que deve contratar e depois dizer: olha, sinto muito, não posso te pagar. É preciso pensar a educação não apenas para hoje, mas para daqui a 20 anos. Precisamos atender às demandas diárias, mas é preciso pensar que cidadãos queremos formar, que futuro queremos para essa cidade e a educação tem que ser um meio para chegarmos a esse objetivo. A educação não pode ser um lugar onde se deposita a criança, onde você se livra dela, a educação precisa ser um lugar que complementa o dia-a-dia da casa. A educação precisa fazer parte de um tripé muito importante que faz com que o bem-estar geral se estabeleça, que é a família e sua cultura – e a escola deve participar ativamente desse processo; é preciso a presença do poder público, da escola com professor, os alunos, que modifica para melhor a região; e é própria escola enquanto currículo, pois precisamos ter um currículo moderno, atrativo, e para isso a escola precisa se preparar, com capacitação contínua, metodologias inovadoras para que as pessoas, quando chegarem lá, percebam que a escola é esse lugar de perspectivas. Não se pode chegar numa escola e pensar que é uma coisa do passado. O professor, amparado pelo currículo, deve perguntar: o que o aluno quer aprender?; depois, como o aluno aprende? Grande parte da energia do sistema de ensino deve ser usada no estudo de como o aluno aprende. Se eu consigo entender como o aluno aprende, eu desenvolvo metodologias muito melhores.

De modo geral, o currículo da rede municipal está a contento ou precisa de uma revisão?
Toda rede precisa de atualização, não existe rede perfeita. Não há trabalho tão bem feito que não possa ser revisitado e melhorado. A grande virtude de alguém que trabalha com educação é saber que não sabe tudo e que tem que se atualizar, buscar a melhoria. Currículo e projeto político-pedagógico na escola nunca devem estar na gaveta, precisam ser revisitados o tempo todo. Ele é a cara da escola, diz como ela é. Da mesma forma, o currículo. Será que eu ensino o que o aluno precisa saber? Nós somos regulados curricularmente por quem, pelo estudante, pelo mercado, pela necessidade de formar cidadania? São opções que têm que ser feitas. O sistema de ensino precisa materializar essas vontades, essas expectativas em forma de currículo, que não pode ser uma grade, não pode ser uma prisão, mas tem que ser uma matriz fluida, onde você coloca bons pensamentos e materializa ele em forma de metodologia.

Goiânia hoje tem uma pontuação no Ideb acima da média nacional, mas ainda é baixa. Há expectativa de melhorar essa nota?
Sem dúvida. A nota do Ideb depende de vários elementos, do fluxo, se o aluno está na sala de aula, se não repete, não evade… Educação é acompanhamento. Escola boa não é aquela que reprova, é aquela que desenvolve mecanismos durante o processo para garantir o sucesso do aluno. Então a rede também precisa trabalhar nesse sentido, ser avaliada permanentemente, para que possamos fazer correções de percurso, para que lá no final tenhamos o aluno com mais sucesso. Esses elementos em si, junto com a devolutiva do diagnóstico da avaliação para o professor, garantem, com a Prova Brasil, que a gente tenha uma nota mais elevada. A nossa intenção é que a rede municipal de ensino seja referência nacional em ensino e vamos trabalhar para que todos os serviços sejam referência e o estudante aprenda.

Ainda demora a chegarmos ao ponto de não termos estudantes que ficam nove, 10 anos na escola e saem sem saber ler e interpretar um texto minimamente complexo?
Temos grandes esforços no Brasil para que ocorra a alfabetização na idade certa e a erradicação do analfabetismo funcional. Por que eu aprendo matemática, por que eu aprendo língua portuguesa e outra língua? A aplicabilidade é essencial para que o aluno queira aprender. O estímulo na educação infantil, para que a criança tenha a vontade de ler, de escrever, de trabalhar – e outras iniciativas, projetos como concursos de redação etc., que deem vasão à criatividade para que as pessoas possam utilizar o conhecimento de forma prática – é muito importante. Se eu leio apenas para obedecer uma ordem, isso é muito automático. A pessoa precisa ler e contextualizar essa leitura. Você precisa saber matemática, mas não só fazer conta, precisa entender proporcionalidade. A vida é toda geométrica. Eu preciso entender como o mundo se estabelece. Os gregos faziam assim. Aliás, a escola precisa disso, precisa garantir um negócio na criança chamado de curiosidade, dúvida. A escola não pode erradicar a dúvida, ela tem que estimular a dúvida. Criança precisa querer saber e a gente tem que ir alimentando esse querer, mas nunca diminuindo essa dúvida. Sempre dizendo: faça perguntas melhores, porque as melhores perguntas sempre são feitas pelas melhores pessoas.

“Muitas vezes a família não participa da escola porque ela tem muitos muros”

Não são raros casos em que escolas de periferia que, teoricamente têm condições ruins comparadas a escolas bem localizadas, conseguem elevadas notas dos alunos nas avaliações. Credita-se muito isso à função do diretor, do gestor educacional. O sr. acha que precisa ter essas lideranças para a escola conseguir boas avaliações?
Sem dúvida, o gestor lidera a equipe da comunidade escolar, principalmente a interna da escola, ele faz a diferença. Por isso vamos criar o curso de formação para os candidatos a gestor, para que a pessoa que é apenas professor se capacite e possa exercer a função de diretor. É função externa ao fazer do professor, temos que nos preparar para isso. É importante ter essa cultura de que cada gestor esteja preparado para isso e não aprender no dia a dia com os erros. Vamos trabalhar com esses cursos de formação do candidato não só depois que o gestor é gestor, na formação continuada, mas para que os candidatos estejam preparados e façam uma escolha por ser gestor sabendo o que estão fazendo. É importante lembrar que, apesar de a escola ter a cara do gestor, a escola é principalmente a cara da comunidade escolar. Normalmente, quando você vê uma escola muito boa, o gestor é muito bom, os professores são comprometidos, os pais participam das reuniões dos pais não só para buscar notas mas para ver como a escola está. Eles ajudam em trabalhos voluntários, assumem a escola como patrimônio da comunidade, aí mesmo que a escola seja um lugar simples, ela é o resultado da vontade de todo mundo. Todos que estão ali querem que as crianças tenham sucesso. Quando só o diretor quer, a carga é muito pesada.

Com relação ao funcionamento da escola aos finais de semana, há uma proposta neste sentido. Já tem previsão para começar?
Estamos estruturando esse processo, porque tem essa questão da maturidade. Muitas pessoas acham que a escola tem que estar aberta aos finais de semana, mas quer que tudo esteja tão perfeito que a escola nunca vai funcionar. É muito mais barato que a comunidade queira que a escola funcione. Temos conversado com a Associação de Idosos, com estes organismos que podem facilitar a permanência da escola. Não se obriga um professor a estar lá, a fazer a comunidade ir lá. Precisamos trabalhar com gestor, professores, alunos e pais, para que a escola possa convidar as pessoas a participarem da vida dela.

Mas será feito um trabalho cultural?
Inicialmente tentaremos fazer com que a escola faça convênios com essas associações, ongs ou qualquer tipo de ferramenta, aparato social que o bairro tenha, para que cursos de xadrez, tricô sejam ministrados no ambiente da escola. Vamos oferecer o ambiente da escola e mostrar para a comunidade que a escola é dela, vamos facilitar esse processo de empoderamento da comunidade dentro da escola, até o ponto em que a escola seja realmente da comunidade.

A família ainda é muito ausente da escola, podemos ver isso nas reuniões de pais, por dificuldades de locomoção, horário de trabalho. A família está devendo nesse processo educacional, que é complexo e não é responsabilidade tão-somente da escola?
Somos um país jovem, que tem dívidas históricas. Se estivéssemos na Alemanha, onde as pessoas têm biblioteca em casa e falam três línguas, talvez essa pergunta pudesse ser respondida de uma forma, mas nosso país tem culturas diferentes, com situações econômicas diversas. Optamos talvez muito tarde pela universalização da educação. Quando a escola não era pra todos, era de padrão internacional. Agora, com o processo de universalização, você tem o prazer de ter todo mundo na escola, mas também tem o ônus de ter de despender muito mais energia, recurso e estrutura para que a educação seja conveniente. Então, o Brasil ainda vive esse momento de universalização. Aqui temos feito todo o esforço para manter a criança na escola, para que ela não trabalhe, que esteja à disposição da escola, e isso é um desafio, porque muitas famílias precisam da mão de obra da criança para sobreviver. Isso é também um esforço que temos de fazer, inclusive criando condições de ampliação de tempo escolar. Vamos esse ano, em 89 escolas, servir o almoço e aplicar o Programa Mais Educação, para que a criança possa ampliar o seu tempo na escola. Se não podemos ainda ter efetivamente uma escola de tempo integral, pelo menos vamos ter uma jornada ampliada ao nível do tempo integral. A criança vai ficar de manhã e cumprir o contraturno na escola com atividades esportivas e culturais. Esse programa de ampliação de tempo escolar e o esforço para aumentar as escolas de tempo integral vem nesse sentido de manter a criança na escola, evitar que a criança trabalhe e influenciando a família a participar cada vez mais. Esse é um processo que depende da escola também. Muitas vezes a família não participa da escola porque ela tem muitos muros. Teríamos de ter um ambiente neste país onde as escolas nunca tivessem muros.

“Precisamos de pessoas que acreditem na educação”

Há um indicador da qualidade dos professores?
As Redes e a prefeitura têm um processo de avaliação dos servidores. Mas é pouco. O processo de avaliação permanente que vamos fazer na rede vai trazer respostas de como a prática docente vem acontecendo. A partir do momento que devolvermos para a escola o resultado da avaliação, também teremos na Secretaria a capacidade de perceber quais áreas e pontos devem ser reforçados.

O prefeito sempre destaca a importância da escola nessa fase da infância, demonstra ter grande carinho por isso. Nas reuniões com o sr., o que ele pede com relação às escolas?
Ele é muito sensível a esta questão, e tem um apreço enorme a essa ampliação do tempo escolar, seja através do Mais Educação seja na construção de novas escolas de tempo integral. O Plano Nacional de Educação prevê o aumento das escolas de tempo integral na mesma direção que o prefeito nos pede, então vamos cumprir uma determinação que é legítima do prefeito e ao mesmo tempo cumpriremos a lei.
 
Sobre a educação de jovens e adultos, aumentaram as vagas, que melhorias serão implantadas?
A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade muito especial, porque trabalha com um cidadão que não é criança nem pode ser tratado como criança, e é um adulto que não quer simplesmente ser tratado como adulto. É um cara especial que quer ser tratado como aluno adulto, preciso de professores com perfis muito específicos, que consigam fazer uso de novas metodologias mais adequadas à idade. Temos uma gerência que trabalha com o Eaja e essa modalidade é preciosa porque precisamos erradicar não só o analfabetismo, mas também o analfabetismo funcional. Temos pessoas que foram alfabetizadas em programas municipais ou nacionais e que deixaram de saber ler. O adulto esquece, perde a alfabetização. Por isso, damos a importância ao fato de colocar o adulto na escola, alfabetizá-lo, mas também de fazê-lo dar continuidade ao processo nas outras escolas. É claro que temos de entender que a Eaja é um processo sazonal e, diferente das outras modalidades, essa é uma que a gente torce para acabar. Se a Eaja acabar é porque fizemos um bom trabalho, quando ela não acaba é porque não conseguimos fazer com que aquele adulto ficasse bem instalado na escola e que tivesse uma mudança nesse processo de idade e série.

Fala-se muito que o Brasil precisa investir mais em educação. O sr. acha que um dos problemas da Educação no Brasil é a falta de recursos ou é mesmo má aplicação?
É fácil dizer que a educação vai mudar o país. Mas é preciso que as pessoas acreditem. Precisamos de pessoas que acreditem na educação e eu vou fazer uma defesa bem específica ao prefeito. Estou vindo da universidade, e a maior parte dos gestores que vem da universidade ao chegar ao serviço público encontra uma falta de vontade política muito grande por parte do gestor. Ele convida o técnico, mas diz que não tem jeito de fazer nada disso do que você acredita. Então, nós estamos experimentando em Goiânia, claro dentro das possibilidades financeiras, a liberdade de poder pensar pedagogicamente uma educação para 20 anos e não só para resolver problemas do dia a dia. Este é o grande mérito desta gestão, que vai deixar uma marca para a cidade com produtos que não serão de governo, mas serão iniciativas de estado, perdurarão na rede porque fazem um bem para as pessoas, bem social, bem pedagógico. Nossa ideia é essa de não fazer educação para poucos ou educação para agora, mas fazer com que as pessoas possam usufruir em longo prazo.

O sr. já conhece nosso Caderno Escola, que tem uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Qual a opinião do sr. sobre parcerias assim?
Essas parcerias público-privadas são muito importantes porque potencializam o que podemos fazer enquanto educação. A formação da família não é feita só pelo produto que sai da escola, mas pela mídia que é produzida e que chega até a casa do cidadão. Se a gente consegue educar as pessoas por outros meios, que não só a escola, estamos promovendo o que lá na frente vamos colher como um ambiente propício para essa ética, essa coisa que nós estamos discutindo.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here