Depressão

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Quem é essa digníssima que ronda a todos, sempre à espreita para mostrar seu potencial? O corvo, de Edgar Alan Poe, tem em seu olhar o mesmo fascínio? Uma patologia noticiada na antiguidade, na era medieval, na era industrial, no mundo moderno e pós-moderno, hoje uma epidemia mundial fora de controle. Ingrata e incompreendida, bate a nossa porta e senta-se à mesa sem pedir licença. Doença com característica mítica, lendária, deusa voraz, termo comum que transcende aos tratados diagnósticos, às regras de avaliação psicológica e aos testes, aos fármacos, evidenciando-se como um “invisível”, um “imponderável da vida cotidiana”, um elemento cultural que forja rotinas, hábitos e movimenta bilhões, que não está nas prateleiras de supermercados mas que está pondo em observação o valor da alma humana, nos questionando sobre qual o sentido da existência, como se consolida a qualidade de vida, o que realmente vale a pena.
Uma das questões do tratamento da depressão em minhas pesquisas e prática profissional está na observação da cultura, posicionando a patologia como um agente social cultural, uma entidade autônoma feita de sintomas que descaracteriza totalmente a vivência pessoal individualizada, a singularidade da vivência típica e individual. Vejo as estatísticas, as manchetes, relatos de colegas profissionais que falam da depressão como uma identidade, quase como que uma pessoa. Um ser mágico autônomo, um derivativo de Satanás, um agente da má sorte. C. G. Jung já nos apontava na década de 1910 que havíamos transformado as doenças em divindades. Não é por acaso que remédios, farmácias e hospitais adotem nomes de santos ou de divindades, retrato da nossa civilização adoecida, presa, egoísta e materialista. Uma resposta objetiva a um problema complexo, mas que não o resolve, ao contrário: a progressão geométrica da doença evidencia um caos no sistema de saúde que, pelo visto, até hoje não conseguiu compreender a extensão do problema da depressão e propõe tratamentos falhos e superficiais, uma tentativa de resolver a temática com terapêuticas que não têm efeito. Por que será que a depressão aumenta vertiginosamente em todo o planeta?
A depressão é fruto direto do nosso mercado de consumo, dos hábitos instintivos que cultuamos, do nosso consumismo e do desligamento psicológico do ser humano de sua afetividade genuína, do seu corpo, da sua essência, da espiritualidade, fruto do ser humano vazio distante da individuação. Vivemos uma era de zumbis, de pessoas amorfas tomadas por sua persona que é rígida, com elementos de uma sombra que nega a estrutura da própria identidade. Somos estrangeiros vivenciando a existência em terceira pessoa, distantes demais dos elementos constitutivos da própria identidade Há muita pose, muita aparência, muito compartilhamento e raro sentido.
É possível tratar uma pessoa com depressão com remédios, com psicoterapia, com atividade física e ter cura e êxito no tratamento que dura de seis meses a um ano. Em minha prática profissional como analista e psicólogo clínico, lidando diariamente com casos de depressão, aprendi com os milhares de casos que pude observar que a depressão é uma doença da consciência que está em crise exigindo do próprio indivíduo uma revisão de valores.
Os pacientes que atendo são, na maior parte, pessoas sensíveis, críticos da sociedade, com dificuldade de socialização ou que sucumbem a excessos de trabalho, nas exigências da existência, tentando manter um padrão de vida sem sucesso. Outros entram em crise por perderem a ligação com sua individuação, com o sentido de sua vida. Outros entram em depressão por crise afetiva, fim de relacionamento e, por fim, os casos comuns também ocorrem por doenças incapacitantes.
A maioria dos pacientes que atendi na vida sabia e tinha consciência do processo que os conduziu à depressão, porém, como toda patologia de teor neurótico, não conseguia mudar seu comportamento. Tinha a razão, mas não a mudança de atitude, conduzindo a depressão como a Nigredo, a Noite Escura das Almas. Psicoterapia conduzida em paralelo ao tratamento medicamentoso, com atividade física, levada a revisão dos valores pessoais é extremamente frutífera, requalificando elementos da própria personalidade do paciente, reelaborando os valores pessoais perdidos.
A depressão é uma doença da alma e não da carne, e a resposta a ela está na alma. Existe a cura se o tratamento for bem conduzido. É importante que toda a sociedade atente para este evento que nos questiona, especialmente pelo fato de lidarmos com uma epidemia mundial que tende a proliferar ainda mais.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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