Um artesão da borracha

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Em sua “área de lazer”, Cristiano dá forma às peças que imagina e projeta na cabeça. Apaixonado por motos, ele recria com pneus as lendárias Harley-Davidson. Réplicas de animais da fauna brasileira e de veículos também fazem parte de seu portfólio (Fotos: Paulo José)

Em tempos de crise, viver de artesanato não é tarefa fácil. E Cristiano insiste. Segue transformando em arte pneus que seriam descartados. Eles voltam para os lares e comércios como objetos de decoração e diversão

Daniela Martins

Muitas ideias na cabeça e a faca de estimação na mão. Assim são os momentos de criação de Cristiano Borges, 37 anos, artesão. Nos fundos da casa em que mora com a esposa, a bordadeira Romilda Vieira, e os filhos Daniel, Gabriela, Pedro Gustavo e Dannyvellynn, no Bairro Independência, em Aparecida de Goiânia, ele construiu o que chama de “área de lazer”. Um espaço de dois cômodos, onde o chão batido e as paredes por rebocar acomodam uma infinidade de moldes de borracha, pneus inteiros e aos pedaços.
No centro do cômodo maior há uma mesa formada por cavaletes de ferro e um tampão de madeira. Ali Cristiano transforma pneus dos mais variados modelos, aros e tamanhos em arte. Entre seus diferenciais estão a pluralidade das peças que faz e a diversidade de pneus que utiliza. Do pneu de carrinho de mão de pedreiro ao pneu de patrola, tudo vira arte, imaginada, estruturada e construída por ele. O artesão é cauteloso também com a segurança e a qualidade do material que expõe, gera admiração e vende. “Penso nas medidas dos pneus que devo usar, na forma que tenho de fazer e como a peça deve ser para aguentar o peso”, acentua.
São mais de 80 modelos de criação própria, que Cristiano ainda não patenteou por falta de grana. A criação vai dos vasos para plantas, passando pelos bichos – tucano, arara, pavão, tartaruga, cisney, tatu – até chegar às charmosas reproduções das lendárias Harley-Davidson. “Sou um apaixonado por motos. Gosto de olhar o site… vou olhando, admirando, até colocar minhas ideias em prática”, revela-se. Tem ainda as réplicas de tratores, caminhões, fuscas além dos tradicionais jogos de mesa e cadeira para jardim.
Muitos trabalhos são peças únicas, que chamam a atenção pela complexidade, como o triciclo americano da Harley-Davidson, feito em tamanho natural, com peso aproximado de 200 quilos. A encomenda, que fará parte da mobília de uma distribuidora de bebidas, exigiu oito modelos de pneus para tomar forma. Quando precisa de um tipo mais incomum, Cristiano recorre à Reverso, uma empresa de reciclagem que recebe todos pneus inservíveis de Goiânia e Aparecida de Goiânia. A dificuldade é buscar o material necessário na cidade de Abadia de Goiás, distante uns 30 quilômetros do Bairro Independência.
São 11 anos no ofício de artesão, os últimos dois dedicados exclusivamente ao que antes era um hobby e se transformou em profissão. Começou no dia em que um ex-colega de trabalho chegou da viagem de férias com um jogo de cadeiras feitas de pneus. “Ele trouxe de Canarana, no Mato Grosso, e eu apaixonei pela peça. Pedi uma cadeira emprestada para tentar fazer uma igual”, recorda. Uma semana e duas tentativas depois, a primeira peça em pneu feita por Cristiano estava pronta. Na sequência, completou o jogo com mais cadeiras e uma mesa. Um vizinho quis comprar. Comprou por R$ 600 e está no jardim dele há 11 anos. “Nunca precisou reformar”, gaba-se pelo trabalho bem feito e ensina: “você tem de olhar os detalhes, os parafusos que vai usar, detalhes! Você tem que visar a qualidade”.
A facilidade para lidar com pneus é herança do ofício anterior. Cristiano trabalhava com a recapagem de pneus, atividade que largou tempos depois de se descobrir artesão. Feita a estreia com a cadeira, ele pensou em produzir coisas diferentes e as suas peças foram ganhando forma. “Surge a ideia na minha mente, olho uma foto na internet, e vou tentando criar”. Para completar a construção, usa canos de pvc, parafusos e esmalte sintético para a pintura final.
Mesmo considerando que agora as pessoas já olham com “outros olhos para o artesanato com pneus”, Cristiano reclama da falta de suporte, principalmente por parte do poder público. “Não há nenhum apoio, nem por parte da prefeitura que deveria incentivar, afinal eu estou reciclando”, lamenta o artesão. Os pneus que utiliza são comprados ou ganhados de conhecidos seus.
Em Goiânia, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mantém o programa Cata Pneus, que somente em janeiro último recolheu mais de 38 mil pneus pela cidade. Em 2016, esse número chegou a 117 mil unidades. Tudo entregue à Reverso Reciclagem, de Abadia. O programa, segundo a SMS, é necessário para dar a destinação correta aos pneus que são um criadouro potencial para o mosquito Aedes aegypti, causador da dengue e de outras doenças.
Cristiano é atento a esse ponto também. Todos os pneus utilizados em suas peças são perfurados. Podem ficar sem proteção, sob a chuva, que não acumulam água. “A Vigilância Sanitária sempre passa por aqui e nunca tive nenhum problema”. Por mês, ele transforma pelo menos 100 pneus que seriam inutilizados em arte.
Nas exposições que participa – a última foi na semana passada, a VI Exposição de Orquídeas de Aparecida de Goiânia –, Cristiano Borges sempre atende aos pedidos dos curiosos que querem fazer fotos ao lado de suas obras. “Minha profissão me dá prazer, gosto demais do que faço. Não tanto pelo dinheiro, mas pelo fato da pessoa olhar, admirar e me perguntar ‘como você fez isso?’”, conta.
As peças de Cristiano Borges são conhecidas país afora e até no exterior. “Tenho peças que já foram parar na Itália”, relata. No final do ano passado, o artesão expôs seu trabalho na Assembleia Legislativa de Goiás, também faz muitas apresentações pelas escolas de Goiânia e Aparecida. “Sempre me convidam e eu vou, os alunos gostam bastante”.
Se o mercado melhorar, ele pretende abrir uma porta, como diz. Com sua arte já chegou a ganhar R$ 3 mil mensais, “o que não era um salarião”, mas hoje, admite, a situação está bem difícil. “Estou tentando sobreviver! O momento não está para artesanato, as pessoas não querem coisas supérfluas”, avalia. Mesmo assim, toda semana aparece uma encomenda pra fazer das peças que variam de R$ 20 a R$ 1.100, dependendo da complexidade do pedido.
Outro projeto em maturação é o de dar aulas, ensinar o ofício de artesão em vídeo-aulas, explicar como escolher o pneu a ser usado, como trabalhar a peça, pontos que, enfatiza, ninguém ensina e que Cristiano teve de aprender sozinho. Sua última peça inusitada foi um tatu, encomenda de um tenente aposentado que visitou a exposição na Assembleia. “Nunca falo para ninguém que não dá pra fazer. Digo que posso tentar”. Ele quebrou a cabeça e fez o bicho com os pneus. Agora está com outro desafio: produzir o símbolo do Corinthians. Tarefa nada fácil para um torcedor do São Paulo Futebol Clube.
Para conhecer mais do trabalho do artesão goiano Cristiano Borges visite a página @reciclart.artesanatos no Facebook.

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