Quando Ana Clara não apareceu

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Ana Clara

Tribuna acompanha os dias de angústia do desaparecimento da menina Ana Clara Pires Camargo, em Goiânia

 Yago Sales

 O cenário é um bairro deslembrado. Fora da rota. Distante. Invisível às políticas públicas. É ali que o gado da família da atriz global Glória Pires e do marido dela, o compositor Orlando de Moraes, certamente pastava. No cerrado, rendido à especulação imobiliária e transformado em confim, num canto longínquo de Goiânia, Ana Clara Pires Camargo,  6 anos, voltou de mudança com a família depois de uma temporada de cerca de cinco meses em Palmeiras de Goiás, a 84 km da capital. O guarda-roupa da menina, com detalhes rosa, ainda desmontado no pequeno quarto que dividiria com a irmã,  é um detalhe em meio à dor.

A família empreendedora de Ana Clara tentou tocar uma distribuidora de bebidas em Palmeiras de Goiás, mas não vislumbrou muito lucro na cidadezinha de quase 27 mil habitantes, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Fecharam a distribuidora: para a mãe e o padrasto, melhor seria voltar ao setor Orlando de Moraes, em Goiânia, onde a família tem uma casa própria e clientes: a mãe é cabeleireira e o padrasto, vidraceiro.

No bairro, Glauciane Pires Silva, 23 anos, teria de volta à nova rotina. Cabeleireira de mão cheia, não tinha dia que ela não tirasse um bom dinheiro com corte, escova e a pintura de unhas, tendo Ana Clara como auxiliar. “Pega aquela lixa para a mamãe”. Era no salão de beleza de Glauciane que Ana Clara se revelava uma apaixonada pela coleção de esmaltes da mãe. E enfileirava-os: um exército de cores que ilustraria e brilharia nas unhas de mulheres humildes do bairro.

“Posso pintar sua unha, tia?”, pedia Ana Clara, sentando-se em algo que lembrava um tamborete rente a uma das clientes que esperava sua vez. Às vezes, a cliente se espantava com Ana Clara por detrás. “Vou escovar seu cabelo, tia, fica assim. Isso”, dizia, já enfiando entre as mechas de cabelo uma escova.

 Ana Clara não só participava da rotina da mãe no salão, muitas histórias permeiam os primeiros capítulos da biografia incompleta da menina. Sua esperteza deu a ela status de curiosa, inteligente e prestativa. E até chatinha, como uns dizem, aos risos, com saudade. Não diferente das meninas de sua idade, respondia, sem papas na língua, a qualquer coisa que não concordasse. Ana Clara era marrentinha na estatura, mas sua inteligência se “assemelhava à mocinha grande já”, lembra um primo.

Ana Clara, que sabia lidar com qualquer situação, menos a de ter de ficar longe do pai, o subtenente Arlindo Sebastião Camargo. “Meu pai é bombeiro”, dizia, mas, a distância de três anos logo fazia Ana esquecer-se da dor que não sabia explicar. A lonjura do pai. E Cesarino Epaminondas, o padrasto coruja, fazia de tudo para cuidar dela como pai – como de fato o fez.

Não raramente, a menina fazia perguntas de gente grande. A mãe não sabia onde enfiar a cara. Ana Clara, a espevitada Ana Clara, quando não fazia perguntas à vizinhança, abria a mochila escolar, espalhava os materiais pelo chão da sala, recolhia o estojo com lápis e desenhava coraçãozinhos. De vez em quando, Ana rascunhava um amor puro, fraternal, eterno. Pendia o lápis de escrever e ditava para si palavras direcionadas à mãe: “Eu te amo”, escrevia.

 Ana Clara amava. E carregava este amor no olhar, nas unhas, nos cílios, nos lábios, nos braços que abraçavam o pescoço da mãe e, súbita, estalava um beijo retumbante em sua face. É que ela queria ser como a mãe. A menina e a mãe, uma mistura que dava certo. A mãe não deixava de maquilar-se e deixar os cabelos alinhados e Ana foi crescendo vendo aquilo. E aprendeu.

Um dia, porém, Glauciane não se importou mais em embelezar-se. Logo ela que acolhia em casa mulheres ansiosas por mudar o corte, a tintura dos cabelos. É que a sua meninazinha, com unhas pintadas, vestida com aquele vestido amarelinho não voltou mais pra casa.

 Sumiço

Por algum motivo, a família da atriz rica, ou enjoo de ver as boiadas pastarem as terras de se perder de vista ou vislumbrou enricar inda mais em retalhar os alqueires e delimitou tudo em lotes. Um bairro desajeitado, sem muita coisa.

Pois bem. Para Ana Clara estava tudo certo morar ali, onde transitava e era cumprimentada por todos. Nas redondezas, uma casa ali, outra acolá. Colada uma à outra, distante, dando vagueza para o capim crescer licencioso. É nesse interim de matagal que um ou outro morador corta caminho pra economizar pernadas. De tanto pisotear o mato, formou-se uma trilha, caminho de diaristas que saem às cinco da madrugada, jovens que vão ao ponto de ônibus e quem queira ir à mercearia que fica na avenida principal. A trilha se consolida entre uma casa e outra. De noite, uma escuridão; de dia, um sol escaldante.

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Trilha onde Ana Clara foi vista pela última vez. Foto: Yago Sales

 É onde Ana Clara caminhava distraída na sexta-feira, dia 17 de fevereiro, olhos animados, muito corajosos, vão e voltam a mando da mãe para comprar um refrigerante, levar R$10 reais à amiga. Pela última vez Ana Clara vai sentir o capim lhe roçando o corpinho magricela que lhe arrancava risadas contidas. Pela última vez Ana Clara andará aos pulos, quase flutuando, cantarolando uma musiquinha que aprendeu na escola com a professora. “É assim, ó, Ana:

Bor-bo-le-ti-nha tá na cozinha

Fazendo chocolate para a madrinha

Poti, poti

Perna de pau

Olho de vidro

E nariz de”. Silêncio total. Nenhum olho viu. Silêncio. Nenhuma câmera registrou. Silêncio.

Enquanto lavava o banheiro de casa, às 13:30 daquela tarde, Glauciane sofria com um aperto no peito. Mãe não se engana, dizem. Ela reparou que o bebê dormia. Glauciane correu ao portão, abriu-o com força. O sol forte iluminava a rua e ela não via nada senão mato alto. Ela não sabia, mas ficaria no escuro durante dias. “Ana Clara é acostumada a sair, a parar para conversar”. A mãe procurou a menina. Não a encontrou na vizinha, nas amiguinhas. “Ana Clara, cadê você?” A indagação perfurava a alma. Um vácuo se abria entre ela e a ordem: “vai lá levar estes R$10 e me traga uma tinta de cabelo”. O portão batendo. Ela indo, obediente. E o silêncio. Sem beijo. Sem abraço.

Ainda naquele dia sua casa vai se transformar no QG de busca pela menina desaparecida. Ela vai figurar aos dados. Mais uma menina de bairro pobre desaparecida no Brasil. Vai compor o dado alarmante de que no Brasil 40 mil crianças desaparecem por ano. A notícia se espalha. A vizinhança se comove e uma romaria se forma na rua, no bairro, nas matas. Em Goiânia. Cada mato é revirado, pisado, vasculhando com mãos. A reportagem vê um homem entrando numa fossa e saindo melado de merda.

Avisado, o padrasto da menina, Cesarino, já tem uma barba rala no rosto. Nos dias seguintes, a barba cresceria à vista de todos que o olhariam desconfiado. “Será que foi ele?”. Ninguém falava diretamente para o homem. Mas a conversa se espalhava. Cesarino abandonou os serviços de vidraceiro e se desdobrou para encontrar a menina e provar que, ao contrário de centenas de casos em que o perigo mora dentro de casa, ele é exceção. As mãos sujas de terra, os olhos cheios de uma dor e medo, o corpo triturado pela missão de encontrar Ana Clara, com vida. O padrasto tinha um cabelo desdenhado, sandália gasta. De repente, antes de anoitecer, os bairros moradores dos bairros Orlando de Moraes e Antônio Carlos Pires se amontoam em frente à casa da família. Querem ajudar. E muita gente chora.

Centenas de famílias se dividem em grupos e vasculham tudo. A polícia, o Corpo de Bombeiros, o helicóptero do Grupo de Radiopatrulha Aérea (Graer) sobrevoa a área em uma busca minuciosa. Ali no meio de todos, Luis Carlos Gonçalves, de 35 anos, já sondado pela polícia como suspeito de ter sumido com a menina, ajuda na procura desesperada por Ana Clara. Ele não engana o instinto de uma mulher indiscreta no meio da multidão. “Ele não me engana”. Mas Luis desaparece. Toda ação foi acompanhada por uma equipe de televisão. Mas anoiteceu, a rua vai esvaziando. Inevitavelmente, a família entrou em pânico. Ana Clara não foi encontrada, ainda. A mãe de Ana correu para a rua. Um breu só, meu Deus. E Ana Clara não voltou pra casa.

Ninguém dormiria nos próximos dias. No domingo, dia 19, evangélicos chegam à pequena casa de Ana Clara. Oram. Uma missionária abre a Bíblia. Duas, três igrejas representadas por mulheres oram e se abraçam. Sem respostas, a família protestou, deu diversas entrevistas. Aquele dia: o aniversário de sete anos da menina que, em troca de uma festinha, pediu um celular. Ali estava o celular, de mão em mão.

Naquela casa sombreada pela saudade, pelo horror e, mesmo assim, pela esperança, instalou-se a perseverança que se revelava no olhar de cada um. Algo insistia: Ana voltaria para comemorar seu aniversário. Ai de quem negasse isso. De vez em quando, porém, um silêncio abafava a todos naquela casinha muito simples. Um choro isolado surgiu do quarto. Era a avó de Ana Clara, Asmíria Pires Rodrigues. Deitada na cama, ela enfiou o rosto no travesseiro. Alguém tentou esconder o desespero na cozinha. E, de repente, explodia um choro na sala, no quintal, na calçada. Um choro que rasgava, que destroçava, que sufocava. O repórter da Tribuna tentou se distanciar da dor. Mas cedeu e chorou.

O repórter se sentia mal. Era um patético? Estava ali observando, anotando. Queria entender a dor. Mas sentiu-a por dentro, cavoucando, desbotando o caráter de isenção que se exige de um jornalista. Todos em estilhaços, falavam muito pouco. Mais meneavam cabeças, andavam turvos, choravam um choro já sem lágrimas. O repórter se mistura à aflição.

Os dias iam passando. A polícia pressionada pelo espetáculo midiático que se formou envolta do caso. Repórteres queriam filmam e captar cada sentimento. E foi nessa fome pelo registro que uma emissora flagrou o telefonema mais brutal de que se tem notícia naquela família: o corpo de Ana foi encontrado. Ela tinha virado um anjinho. Foi colorir o céu com sua meninice. Encontraram-na quarta-feira, dia 22 de fevereiro. Seis dias de um episódio de terror, sem ensaio, sem roteiro.

Ela fora abandonada numa ruela estranha às margens da GO-462, longe da mãe, da irmãzinha, da bolsa de maquiagens, da boneca, da proteção do padrasto, da admiração de todos.

Dias depois de uma partícula da angústia da família diminuir, o deputado Estadual Marlúcio Pereira (PSB) propôs uma homenagem à menina: rebatizar a GO-462 de Ana Clara Pires. O projeto foi encaminhado para a Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ) e deverá ser votado pelos parlamentares.

 “É pouco”, disse o tio da menina, Baldir Pires. “É preciso criar novas leis de proteção às crianças. Evitar que outras criancinhas sofram como a nossa Ana Clara”, finalizou.

O suspeito de matar Ana Clara e jogar seu corpo em um matagal morreu horas depois de ter abandonado o carro próximo ao corpo de sua vítima. Segundo a Polícia Militar, Luiz Carlos Costa Gonçalves reagiu à prisão com tiros. A foto que o mostra ensanguentado pôde ser visualizada nas redes sociais debaixo de aplauso popular. Uma grande histeria de hipocrisia. Com ele, morreria uma verdade que nenhuma interpretação científica, nenhum laudo poderá revelar definitivamente.

Mesmo assim, não perdeu-se, da memória, o caráter angelical de Ana Clara. Nada pode ofuscar sua importância. Nada…

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