“A sociedade não suporta mais os governos gastarem desordenadamente”

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“Temos de agir rápido para que o Congresso Nacional convalide os incentivos fiscais”

Apoiador das Reformas Trabalhista e Previdenciária propostas pelo governo Michel Temer, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Pedro Alves de Oliveira acredita que o país começou “a sair do fundo do poço” com aumento na confiança dos empresários, queda significativa da inflação e os juros entrando em declínio neste início de 2017. Natural de Patrocínio, Minas Gerais, Pedro é empresário há mais de 40 anos e desde meados da década de 1980 possui atuação sindical e vínculo com a Fieg. Durante todo este tempo, diz, nunca viu o país numa situação tão complicada. Alicerçado em sua experiência, o líder classista faz duras críticas ao setor financeiro. “Está acontecendo um enxugamento na economia do Brasil, através dos bancos, que estão retirando o dinheiro do país, que deveria girar a economia, e colocando nas mãos de pouquíssimos banqueiros”, avalia. Nesta entrevista, Pedro salienta ainda a importância de se investir na geração de emprego e na qualificação profissional porque a economia vive do consumo. “Se não tem emprego, não tem renda; se não tem renda, não tem consumo”, pontua. Graduado em Administração, ele hoje está à frente também do Conselho Deliberativo do Sebrae Goiás.


Manoel Messias Rodrigues

Tribuna do Planalto – Que avaliação o sr. faz da economia brasileira, que começa a dar sinais de reaquecimento, como o aumento do número de empresas abertas em Goiás?
Pedro Alves de Oliveira – Em dezembro, após reunião de quase duas horas com o presidente Temer e outros empresários, fiz minha avaliação sobre como deve se comportar a economia brasileira este ano. Em primeiro lugar o presidente disse que precisava gerar emprego, mas não era o governo que iria fazer isso e sim os empresários, o setor privado, já que o governo não gera impostos, só gasta. Então ele disse que sabia do momento delicado e queria ajudar. E a medida que ele colocou foi: “temos uma legislação trabalhista ultrapassada, que precisa ser modernizada, para que tenhamos uma harmonia maior entre o capital e o trabalho. É uma medida muito polêmica, mas vamos fazer isso”. E realmente Temer mandou para o Congresso, está lá para ser definida. Outra medida, já aprovada, foi a limitação do gasto público à variação inflacionária do ano anterior, o que foi fundamental, porque a sociedade brasileira não suporta mais os governos gastarem desordenadamente e, quando acaba o caixa, criar mais impostos em cima da sociedade. Então por isso,  o presidente disse que mandaria essa medida para o Congresso para que botar um freio nisso. E efetivamente aprovou tal medida. Então, em dezembro eu vislumbrei que 2017 seria melhor.

E isso de fato está acontecendo?
Os fatos estão comprovando: houve um aumento na confiança dos empresários, uma queda significativa da inflação e os juros estão em declínio. Agora, do fundo do poço em que foi colocado o Brasil não se sai de uma hora para outra, requer tempo. Mas não estamos andando em marcha à ré mais, a marcha agora está engrenada em primeira e estamos gradualmente saindo. Temos confiança no país, que tem uma riqueza incomensurável, riquezas naturais, clima, capacidade de produzir. Então a gente pergunta: como é que pode um país como o Brasil, com tanta riqueza, estar numa  situação dessa? Acredito que o país está passando por uma metamorfose completa e acredito muito que o Brasil será melhor daqui pra frente e já em 2017 teremos os sinais positivos. Não serão grandes números, mas só de sair do negativo para o positivo já significa grande coisa. Um fator muito importante na economia é a geração de emprego, porque a economia vive do consumo. Se não tem emprego, não tem renda; se não tem renda, não tem consumo. É importante voltar a gerar emprego, para que esse emprego tenha uma repercussão social e, assim, a gente volte a consumir, porque aí a roda volta a girar pra frente. O emprego gera consumo, que aumenta a atividade industrial, gerando novos empregos. Outra coisa que estou confiando é que o superávit na balança comercial ocorreu muito devido à valorização do dólar, porque os produtos brasileiros se tornaram baratos. Então, em vez de trazer produtos industrializados pra cá, é hora de partir para a exportação, inclusive de produtos industrializados. Já exportamos muito produtos agrícolas, mas não podemos ficar apenas nos produtos primários, precisamos que as nossas indústrias comecem a exportar. Em Goiás, já temos pequenos e microempresários começando a avançar nas exportações, não apenas na América do Sul, mas no Oriente Médio.

Qual o posicionamento do sr. sobre a Reforma da Previdência?
A reforma da Previdência é fundamental. Não tem como manter o sistema previdenciário como está porque está quebrando o país. Se continuar, amanhã os aposentados não terão como receber. E o governo está caminhando pra fazer a mudança. Isso está sendo um freio ao desenvolvimento do país. Vejo que lentamente, gradualmente estamos saindo desse atoleiro, que não é pequeno. Eu nunca vi o país na situação que está, mas a gente acredita no potencial do Brasil, acredita que teremos uma mudança na mentalidade política gestora do país, até por força das circunstâncias, das coisas que estão acontecendo. Então, havendo dirigentes com patriotismo, com probidade, com responsabilidade com a população, o Brasil poderá sair dessa situação rapidamente.

“O país está nas mãos dos bancos. Isso tem que ser enfrentado. O país não pode conviver com as taxas de juros que estão aí”

O ritmo da retomada da economia, pautado pelos cortes de juros através de redução da taxa Selic, está agradando a classe empresarial ou deveria ser mais acelerado?
Precisa ser intensificada. A inflação está sob controle, na casa dos 5%, a Selic acima de 10%, isso é fora do normal. É preciso jogar dinheiro na economia para que se faça os investimentos e gere emprego. A Selic empobrece o Brasil. Ocorre que o governo é o grande tomador de dinheiro emprestado dos bancos, pagando juros da taxa Selic. Em 2015, perdemos mais de 12 milhões de postos de trabalho com  fechamento de mais de 130 mil empresas no país. É uma situação alarmante para a sociedade e ao mesmo tempo os bancos tiveram mais R$ 63 bilhões de lucro. Está acontecendo um enxugamento na economia do país, através dos bancos, que estão retirando o dinheiro, que deveria girar a economia, e colocando nas mãos de pouquíssimos banqueiros. O país está nas mãos dos bancos. Isso tem que ser enfrentado. Isso sem falar nos juros que o cidadão paga, no cheque especial e cartão de crédito, cujos juros ultrapassaram a marca de 478% ao ano. É um verdadeiro massacre, uma usurpação da população, com a permissão da lei. Quem entra no cartão de crédito, no cheque especial, não sai mais, é como entrar numa areia movediça, quanto mais mexe, mas se afoga. O país não pode conviver com essas taxas de juros que estão aí. O ministro Henrique Meirelles, que tem uma competência muito grande, precisa compreender que é preciso reduzir essas taxas de juros. O Brasil não suporta continuar da forma que está.

“Os incentivos fiscais fizeram com que Goiás deixasse de ser meramente produtor de matéria-prima e se industrializasse”
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Qual a importância dos incentivos fiscais para a economia goiana?
Esta é a segunda vez que esse processo chega para julgamento no Supremo e não é julgado. Agora não podemos mais perder tempo. Tem uma regra que prejudica demais essa questão dos incentivos fiscais, que é a exigência de unanimidade no Confaz [Conselho Nacional de Política Fazendária, constituído pelos secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal]. Se não se conseguir a unanimidade no Confaz, não altera nada na política fiscal. É um absurdo, porque se 26 estados decidirem adotar uma política de desenvolvimento e um votar contra, ela não é aprovada. Por isso, temos no Senado um projeto para que o quorum do Confaz seja reduzido para cinco terços, ou 60% mais um, assim teremos uma decisão democrática, prevalecendo a vontade da maioria dos estados, da maioria da população.

E quanto aos incentivos fiscais propriamente ditos?
O Brasil é um país de dimensão continental e precisamos promover o desenvolvimento de todas as regiões. Não pode São Paulo, até de forma egoísta, impedir que os outros estados se desenvolvam. O nosso Centro-Oeste, mesmo com a riqueza fantástica que temos, se não tivermos incentivos para atrair as empresas para cá, elas não virão, porque ficar lá é mais fácil. Os incentivos fizeram com que Goiás deixasse de ser um estado meramente produtor de matéria-prima, de commodities, e se tornasse parcialmente industrializado. Outros estados também fizeram uso dos incentivos fiscais, principalmente do Nordeste, como Ceará e Bahia. Inclusive Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina também oferecem incentivos fiscais para atrair empresas e gerar empregos. Goiás foi muito eficiente na sua política de incentivos fiscais, porque atraímos muitos empregos. São Paulo tem é que entender que é capital da América Latina, não apenas do Brasil. É o Estado mais rico e não devia criar caso contra os estados menos desenvolvidos. Isso é egoísmo. Acho que o governador Geraldo Alckmin pôs a mão na consciência nesse entendimento com o governador de Goiás e falou: “Vamos tentar resolver isso e fazer um acordo”. O estado de São Paulo puxa a economia toda do Brasil lá pra dentro e já está bem industrializado; agora é a vez dos estados emergentes, menos privilegiados, terem seu desenvolvimento. Então precisamos agora juntar forças para irmos no Congresso para que os incentivos fiscais sejam convalidados. Isso é muito importante, porque, se caísse isso, iriam quebrar não apenas as empresas, mas os estados que oferecem incentivos iriam quebrar também.

Que  impressão o sr. trouxe dos países do Oriente Médio visitados pela Missão Oficial do Governo de Goiás?
Essas missões, ações lideradas pelo governo estadual, são de fundamental importância, porque levamos Goiás para povos que não sabem nem onde fica nosso estado. Quando você mostra as riquezas, potencialidades e tamanho de Goiás, que é maior que muitos países que visitamos, eles ficam admirados. Estivemos em países que não têm água, eles importam água pra beber e dessalinizam para irrigar. E quando eles veem nossas riquezas naturais, nossos rios, nossa produção de alimentos, ficam muito admirados. Essas missões são muito positivas. Entre muitas oportunidades que surgiram, o governador fechou protocolo de intenções com uma grande indústria de armas que poderá abastecer nossas forças armadas e exportação. Eles estão muito entusiasmados e essa empresa trará geração de emprego e renda, com previsão inicial de criação de 600 postos de trabalho. Demonstraram também interesse muito grande na nossa produção de açúcar, carne, aves. Tivemos ainda um contato profícuo com a empresa Emirates, que tem interesse em investir no Aeroporto de Carga Aérea em Anápolis, que é um polo logístico importante. Esses e outros negócios devem render muito à economia de Goiás.

A economia de Goiás está reaquecendo?
Goiás demorou mais a sentir os impactos da recessão. Obviamente precisamos do fortalecimento da economia do país, mas temos um fator positivo, que é o agronegócio, que deu um oxigênio na economia. Não é exportação de materiais industrializados, mas o dinheiro que chega dessa venda irriga a nossa economia. Mas temos segmentos importantes na área industrial, como a indústria alimentícia, farmacêutica, cosméticos, que estão gerando empregos, buscando mercados externos. No Sebrae, estamos fazendo um esforço grande para colocar pequenas e microempresas para exportar e acreditamos que gradativamente ganharemos novos mercados gerando mais emprego. Isso é muito importante, pois sem geração de emprego, não tem economia que decole. Temos uma interação sempre constante com os trabalhadores, porque nós entendemos que tanto o empresário quanto o trabalhador têm a mesma importância. Precisamos de trabalhadores qualificados para progredirmos.

O governo de Goiás tem divulgado que tem conseguido passar relativamente bem pela recessão. Agora tem dinheiro oriundo da venda da Celg…
O estado de Goiás não é uma ilha e a situação aqui não é tranquila. Muitas empresas que trabalharam para o estado não estão recebendo, o estado fez a opção, correta, de manter o pagamento dos servidores em dia. Tomou medidas duras, os empresários estão contribuindo. A vendada Celg trará dinheiro para investimento em infraestrutura, que é muito importante. A falta de capacidade da Celg de atender as demandas estava travando o desenvolvimento de Goiás. Então  acho que vamos avançar muito com a oferta de energia elétrica.

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