Foragido denunciado pela Tribuna é preso

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Condenado a nove anos de prisão por assassinato, o então foragido da Justiça Daniel Moraes, que mantinha uma casa de recuperação para drogados em Aparecida, foi denunciado em janeiro pela Tribuna e preso pela polícia um mês depois ( Foto:Paulo José )

Mandado de prisão é cumprido um mês depois de a reportagem revelar que Daniel Batista de Moraes, além de foragido depois de matar Damião Batista em 2007, agredia internos de uma casa de recuperação mantida por ele em Aparecida

Yago Sales

Daniel Batista de Moraes, 31 anos, que gosta de ser chamado de pastor, continuava uma vida normal, mesmo depois da repercussão da reportagem que lhe denunciou pelo mandado de prisão em seu nome em aberto e pelos relatos de agressão e ameaças publicados pela Tribuna do Planalto na edição dos dias 29 de janeiro a 4 de fevereiro. Não raramente, Moraes era visto nas redondezas do Garavelo e até em lojas de Campinas. Moraes orquestrava manter os negócios com as casas de recuperação, mas morando em Hidrolândia. Mas os planos dele foram frustrados pela Polícia Civil que lhe prendeu na noite de fevereiro de 2017.
Ele havia sido condenado pelo assassinato de Damião Batista de Carvalho a nove anos de prisão, como adiantou investigação de quatro meses da Tribuna do Planalto. O crime ocorreu na noite de Natal de 2007. Moraes matou Damião a pedradas e pauladas após discussão durante confraternização, no Residencial Eli Forte, em Goiânia.
Moraes foi preso por agentes em uma operação orquestrada pelo delegado Wellington de Carvalho, depois de intensificar ameaças ao ex-diretor da casa Reinaldo Camargo e ao repórter da Tribuna. Reinaldo foi procurado pela reportagem no decorrer dos quatro meses de investigação e convencido a confirmar pelo menos uma dezena de denúncias feitas por outros ex-diretores, ex-internos e até vizinhos às casas que Moraes mantinha.
Na ficha policial de Moraes consta ainda outra sentença: dois anos de reclusão, desta vez em regime aberto. Daniel e outro réu, Walderson Gomes da Silva, foram julgados pela tentativa de assassinato de Jonas Ataídes da Silva Neto, na noite de 20 outubro de 2006, na rua Curadores, Jardim Mirabel, em Aparecida de Goiânia. A vítima conseguiu fugir, após ter a perna esfaqueada e, por consequência, amputada.

Repórter flagra agressão

Daniel Batista de Moraes chamou atenção quando agrediu Marcos Pina no terminal Isidória, em uma disputa por ponto de vendas de balas nos coletivos. O repórter flagrou a agressão na manhã do dia 7 de novembro de 2016. Munido como uma teaser, Moraes vasculhava os ônibus, se identificando como policial, em busca de Marcos Pina. Quando Pina chegou ao terminal Isidoria, foi arrastado para fora do ônibus como uma chave de pescoço dada pelo empregado de Moraes, Erenilton Erlan Souza. Dali adiante, Moraes e o seu comandado deu vários socos no rosto de Pina.
Foi a partir deste fato no terminal que a Tribuna, numa investigação cheia de obstáculos, conseguiu produzir uma grande reportagem. Uma das mais difíceis constatações, a reportagem descobriu que, na instituição Resgatando Vidas, Moraes explorava mão de obra e, ainda, agredia os internos. Atualmente, a mulher dele, Geice Moreira de Moraes, continua mantendo a instituição que ainda não foi interditada, mesmo sem alvarás de funcionamento. Ele já tinha estendido – como apurou a reportagem –, seu lucrativo negócio a Minas Gerais. A Polícia Civil de Aparecida de Goiânia investiga as denúncias de maus-tratos.
Moraes estava na carceragem da Delegacia de Investigação Criminal (DEIC) e foi levado para a Penitencia Odenir Guimarães (POG).

Repercussão e ameaças

A reportagem “Foragido da Justiça, pastor explora usuários de drogas em recuperação”, teve enorme impacto, repercutindo em veículos nacionais. O site Ponte, o mais importante na cobertura jornalística para os Direitos Humanos, publicou o texto integral da Tribuna.
Mesmo com toda a divulgação, Moraes enviou áudios ameaçadores a uma das fontes da reportagem. Nos áudios, dizia, entre outras coisas, que quem passou informações ao jornal e o próprio repórter, teriam de arrumar “dez medidas protetivas”.
Depois das ameaças, o diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, Cláudio Curado, visitou a redação e prometeu ajudar a pressionar a Secretaria de Segurança Pública (SSP-GO) para que prendesse Moraes.
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por meio de sua presidente, Maria José Braga, emitiu nota cobrando empenho da Polícia. “Vamos, junto com o Sindicato de Jornalistas de Goiás, pedir providências ao Secretário de Segurança Pública”, disse à época.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou em nota que “É inadmissível que um jornalista tema pela própria vida simplesmente por exercer sua profissão”.
Mesmo assim, Daniel Batista continuou tentando intimidar o repórter com ligações anônimas. No dia 21 de fevereiro, a Abraji voltou a se manifestar. Um ofício, assinado pelo presidente da Associação, Thiago Herdy, direcionado à Secretaria de Segurança Pública de Goiás, solicitava “especial atenção à garantia da integridade física e psicológica de Yago Sales, atendendo às recomendações das Nações Unidas em seu Plano de Ação para Segurança de Jornalistas e a Questão da Impunidade”.
O mandado de prisão foi cumprido pouco mais de 24 horas depois do ofício.

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