Insônia

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Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo...
  Álvaro de Campos

4h20, travesseiro com espinhos, milhões de pensamentos trazem a ausência de Morpheus, a cama com formigas e outros seres desatinam da alma a paz. Roda, roda, suor, imaginei que ali estivesse comigo de mãos dadas, mas a ilusão sai do sonho e nos fita, um delírio, narrativas, pensamentos tantos de tantas, encadeados, sem nexo ou rumo, apenas uma velha avalanche de pensamentos, o “macaco louco” que não para. A insônia é o reino mágico das fantasias que se evocam no delírio do pensar sem ação. Possibilidades, medos, anseios. “Como será o amanhã? Responda quem puder” ou quem conseguir gritar. Minutos se tornam séculos e nem os pássaros, nem insetos, apenas os pensamentos em desordem tilintam a paz de espírito.
Já tive meus momentos de insônia. Escrevi livros, preparei aulas,lembrei do amor, revi o futuro, fitei o passado e me dediquei à fantasiada existência em uma imaginação ativa na busca de consciência. Insônia de bons momentos, de revisão de problemas, de alegrias e de tristezas, de euforia e melancolia. Mas quem nos garante o direito de dormir e sonharnos dias atuais? É plausível ao homem-máquina da pós-modernidade, em seus tantos afazeres, aquietar seu espírito e repousar? É-nos lícito sonhar?
No cenário em que vivenciamos concretamente a crise de persona, de milhares de eus de rompimento de identidade, que entope sensações sem pessoa correspondente, anunciando o estado psicótico emergente da pós-modernidade. Uma prisão de sentimentos, sensações sem elaboração, sem rumo, sem destino, elo perdido, ponto zero. Mas de que mesmo? Resultado prático: agonia, ansiedade, neurose, a vivência em terceira pessoa do eu desfocado de sua própria estrutura e sentido – crise de individuação…
“Uma abstração de autoconsciência sem de quê”, que corrói a alma, o Sossego, a paz de espírito no tilintar constante das ideias que replicam às voltas do relógio que não sai do lugar. Sim, os relógios não saem do lugar, mas demarcam o ritmo da vida, nos lembram da hora do levantar, da higiene pessoal, da cagada, da hora de alimentar, de ir ao estudo e emprego, de ser feliz, da piada, do tédio, do almoço, de namorar ou de curtir não ter ninguém, de ligar o rádio para nada escutar, ou mesmo dos segundos que paralisam a alma quando o sono foge sem deixar paradeiro.
Convivendo com vários pacientes com transtornos, como os que atendi nesses mais de 20 anos de experiência profissional, aprendi que os casos de insônia refletem a dificuldade de relaxar, de se entregar, cabeça acelerada, ideias desconexas e um mergulho involuntário em uma narrativa, na fantasia da existência, muito pensar e afetos confusos. Pacientes que levam para a cama todos os problemas, o trabalho, as contas, o espírito das coisas, que volta-se para vingar, e a cama pesada, cheia de tantos por quês, deixa o sono para trás. Basta deitar que o cansaço some e o que fica é uma atenção desfocada, que cria miragens nas paredes vazias, entre milhares de diálogos ensandecidos nos vários eus que habitam nossa psique. Um doido diálogo comum que pertence a nossa humanidade, na eterna revisão da consciência que nessas horas grita e exige respostas. Mas como aquietar a alma em ebulição? Como dizer ao pensamento que toma de assalto a vontade que isso tudo pode ser resolvido amanhã, na hora do expediente?
Há um quê de masoquismo nas crises de insônia. O hábito do relembrar para sofrer, por que raras ideias boas fluem quando o sonho nos evita. Um flashback dos piores momentos, das coisas erradas que estão por vir, ou ainda como será o início da terceira guerra mundial ou da pandemia vindoura? Não conseguir largar do pessimismo, das ideias que nos fazem sofrer é masoquismo. Onde está o amor próprio, o respeito, a consciência corporal para garantir o repouso? Quais as ideias e fantasias que você tem quando perde o sono? O que sua mente lhe quer dizer nesses momentos? São perguntas que faço a meus pacientes quando me relatam que não conseguiram dormir, e as respostas por vezes são fascinantes, sugerindo um elemento narrativo semelhante a um sonho, por isto chamo este processo de similar a uma imaginação ativa – uma técnica da psicologia analítica que usamos em consultório.
A qualidade de vida que tanto dizemos está associada diretamente a nossa paz de espírito, à possibilidade de crescimento interior. A tensão recorrente das crises de insônia anunciam claramente que as coisas não andam bem, que a ansiedade se avizinha e que doenças podemchegar mais fortes. É necessário redescobrir o que relaxa, o que dá calma, o que pode acalentar para reverter o quadro. Remédios auxiliam em casos mais agudos, inibindo os sintomas, mas geram o risco claro de tornar a pessoa ainda mais distante de seus conflitos, em uma fuga de sua própria essência, um risco grave que pode complicar mais no futuro. Insônia se resolve com o confronto dessas fantasias, com consciência, atividade física e uma boa psicoterapia.
Bons sonhos…
Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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