Do encantamento

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Era criança quando ouvi pela primeira vez uma mulher cantando a “Dama da noite”, de Mozart. Não sabia bem o que era aquilo, mas sentia que era mágico. A construção da melodia, o jogo das notas, o ar lúdico, era belo e instigante, e ali me vi preso à música. Não sabia quem era, o que cantava, se tinha boas ou más intenções.  Nada disto importava.  Era uma criança refém pra sempre da melodia de Mozart.
Dias atrás conversava com um colega sobre a problemática do encantamento. A drástica mudança que vivemos nas duas últimas décadas  com a perda do fascínio. Tudo é tão pronto, plastificado, cópia, mesmice que a magia do encantamento se esvaiu. Do cinema ao teatro, da música às artes plásticas, dos negócios à política, da amizade ao enamoramento. Onde foi que meteram o fascínio, a sedução, o charme, a beleza, a educação?
Boa parte da solidão que muitas pessoas reclamam tem início na perda da capacidade de encantar, de se mostrar interessante, de oferecer ao mundo algo além. Hoje no cenário dos discursos prontos em que mulheres dizem que homens têm medo de mulheres independentes, e que homens reclamam da superficialidade e materialismo feminino, neste cenário de falta de percepção coletiva para relacionamentos, poucas pessoas se atentam que se tornaram desinteressantes qual um produto vencido em prateleira de loja. Sem novidade e sem conteúdo. Graça mesmo em quê?
Lembro que há 20 anos a chamada miss universo tinha como crivo de seleção a simpatia.  Era vital a mulher que queria destaque o mínimo de refinamento, educação, cordialidade. Hoje assistindo a televisão vejo pessoas de mídia, atores, modelos, jornalistas, pessoas embrutecidas, duras, sem delicadeza. Talvez com bela estampa,  mas  sem brilho, sem fogo, sem graça.  Não é a toa que tem de fazer um alto investimento em divulgação e marketing pra poder ter evidência.
Dias atrás assistia a um programa musical  com novos artistas. E da mesma forma a problemática estava lá. Falta total de carisma dos cantores e da futura promessa dos novos talentos.  Fez feio tal qual a abertura da copa do mundo de 2014.
Hoje em lojas sinto isto. Raros vendedores vendem, ou tentam me encantar pra adquirir um produto. Vendedores que ganham comissão, e lojas que contratam vendedores pra ter algum faturamento.  Quantas vezes não tenho de implorar pra ter o mínimo de atenção.
Várias vezes questiono as pessoas que vivem uma crise afetiva, em minha prática profissional como analista e psicólogo clínico: “o que você tem de bom pra oferecer às pessoas? O que você tem exigido equivale ao que você oferece?”.
Muitos casamentos e crises afetivas têm início nisto. Na balança descompensada. Balança que não tem como crivo o encantamento que deve ser  intermitente. Relacionamento sadio impõe a conquista constante, e não existe conquista sem encantamento.
Lamentavelmente, nos dias de hoje, as pessoas acham que encantam pela marca de celular, pelo brinco, pela prótese de silicone, pela marca do carro. Normalmente são estas mesmas pessoas que mais têm crise afetiva, relacionamentos sem duração, instabilidade emocional. São ainda as que mais se queixam de solidão ou que ninguém as leva a sério. Por que será?

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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