Apatia

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“Não planto capim-guiné prá boi abanár rabo Eu tô virado no Diabo, eu tô retado com vocês Tá vendo tudo e fica aí parado Com cara de viado que viu
caxinguelê”… Raul Seixas

Olhar estatelado, fixo, congelado. Paralisia. Muito se pensa, pouco se faz. No rugir da noite fria o resmungo, incômodo, insatisfação e cama. A vida terceirizada de responsabilidade projeta a culpa da existência sempre em um terceiro: Deus, Jesus, Satanás, presidente, governador, prefeito, no estrangeiro, FMI, cônjuge, colega de trabalho, naquilo que estiver mais perto, no que for mais cômodo. E a paralisia continua.
Um dos cenários mais impactantes da pós-modernidade está na apatia geral e irrestrita, no ápice do silêncio, no não dito. A entrelinha, o silêncio comunicativo, o entremeio, o subliminar, o inconsciente. A certeza trocada pelo talvez, a identidade por um estereótipo, a ideologia por um gordo cheque felpudo. Tudo escancarado, à mostra, cuja resposta direta e objetiva oscila em “não sei”, “não é comigo”, “sempre foi desse jeito”, “ah, é?!”. Um terremoto psíquico que não sacoleja, deixa o incômodo, a revolta, mas a prática amordaçada, retira do ar qualquer esperança de mudança – mudar dá trabalho. Resistência é a marca do corpo no sofá, é o cenário da atualidade. Apatia, efeito colateral do mercado de consumo do capitalismo especulativo.
Exemplificando: vivemos um cenário político extremo, no qual o político não mais representa o interesse da sociedade, mas apenas o próprio. Distanciado de sua intenção original, diante do egoísmo, emerge o figurativo do delírio como política de estado. Psicose política que descrevo há mais de uma década, o estado que delira, que cria regras e normas absurdas. No Brasil os políticos não representam o povo, a manutenção de direitos históricos arduamente conquistados, representam apenas os grandes grupos corporativos em uma visão extrativista.
Hoje, políticos destroem direitos trabalhistas, o direito à aposentadoria, e legislam para manter seu direito à corrupção intocado, criando regras para perpetuarem-se no poder. E ninguém faz nada. Todo mundo vendo, contemplando, resmungando, sentadinho no sofá da sala.
Os políticos, que não têm família, filhos, tios e primos, que não vão envelhecer e precisar do Estado, cujas mães sempre trabalharam generosas, caridosas, de pais eleitos em sorteio ou sujeito oculto. Políticos hoje convencem seus colegas de que, apartados da sociedade, podem fazer horrores. Para isso, compram voto e utilizam muito bem a comunicação. Natural que políticos vivam em um mundo à parte, na terra do nunca, alienados, em surto psicótico, longe do povo, da real necessidade da população.
O mais absurdo, no entanto, não é o delírio de governantes e parlamentares: é a apatia da sociedade, que terceiriza a existência, a responsabilidade do que está ocorrendo, acreditando piamente que o absurdo público não vai lhe atingir. Piora quando essa sociedade que nada faz resolve, ironicamente, esperar que tudo esteja feito, votado, sancionado, para depois continuar sentadinha reclamando, alienada e psicótica, à semelhança dos eleitos pelo voto popular.
Cada um tem o governo que merece. Em quem mesmo você votou nas últimas eleições?
Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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