Com o Netflix e concorrentes, ir ao cinema virou um evento

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Avanços tecnológicos têm transformado nossos hábitos, entre eles, o de ir ao cinema

Frederico Ribeiro
Especial para a Tribuna do Planalto

Há pouco mais dois meses comemorou-se o décimo aniversário do lançamento mundial do smartphone. Para ser mais preciso: ele foi lançado em 9 de janeiro de 2007 pelo falecido Steve Jobs. Dez anos. Se pensarmos em termos de Brasil, quando este apetrecho virou onipresente? Há seis anos? Deve ser algo assim, ou menos. No entanto, a sensação é que sempre o tivemos em mão. O fato é que, neste curto espaço de tempo, estes “telefones inteligentes” se tornaram indispensáveis para a maioria de nós. Pense, agora, o seu dia a dia sem seu celular – estranho, para dizer o mínimo. E, no entanto, vivemos sem eles milhares de anos…
Mas não estou aqui para falar de smartphones e de como eles mudaram nossas vidas. Estou aqui para falar sobre outra mudança de costumes. Então, antes que me perguntem o porquê do primeiro parágrafo, a razão dele existir. Antes que me acusem de fugir do tema antes mesmo de entrar nele, explico: a questão, no fundo, é a mesma. O tema maior, por trás do específico, é um só: o avanço tecnológico mudando nossos hábitos, causando pequenas revoluções.
Já no início dos anos 2000, as locadoras de vídeo – depois de DVDs, de Blurays –começaram a falir. Primeiro, chegou a gigante Blockbuster e destruiu as pequenas; depois a tecnologia destruiu a própria Blockbuster. As poucas locadoras que existem hoje – e elas geralmente ficam como que escondidas nos subúrbios das cidades, ou então em cidades do interior – lembram relíquias de outra era.
A TV por assinatura, pirataria. Ou mesmo o indivíduo que baixava o filme pela internet. Pronto, foi o fim das “videotecas”.
Mas, independente dos fatores citados acima, o comércio de locação de filmes estava fadado à extinção. E a causa definitiva, a ‘bala de prata’, foram os serviços de streaming.
Agora você não tem apenas as dezenas de filmes e séries passando 24 horas por dia em diversos canais de tv a cabo. Agora, graças à internet, você tem acesso a uma imensa biblioteca audiovisual à sua disposição, desde seu sofá, ou sua cama. E você escolhe com seu controle remoto, qual você quer assistir, quando quiser assistir –sem dia para devolver. Os longas-metragens, os seriados ficam lá, à sua disposição.
A Netflix abriu as comportas de um mercado que cresce vertiginosamente. As grandes companhias de cabo também estão entrando no ramo e, se no Brasil ela, Netflix, reina soberana, nos EUA e em outros países do dito primeiro mundo, outras grandes empresas entraram com tudo no filão. A Amazon chegou por aqui, mas ainda com um catálogo limitado. Na América do Norte, no entanto, a mesma Amazon – há tempos uma das maiores corporações mundiais de diversos serviços online – já é uma gigante também do serviço de streaming e pelo menos três nomes neste momento concorrem com essas duas. A tendência é que apareçam mais.
O que não se esperava é que tudo isso também afetasse o mercado cinematográfico.
Ir ao cinema está se tornando um ritual diferente. Você vai para levar os filhos. Para levar a namorada. Vai como programa de fim de semana… Bom, isso não mudou. O que mudou é que, quem ia com o intuito primeiro de ver filmes, raramente vai agora para o cine com esse objetivo. As pessoas assistem praticamente a qualquer obra cinematográfica que quiserem no conforto de suas casas. Então, os que se deslocam ao cinema hoje em dia o fazem para assistir filmes-espetáculos.
Por isso a profusão de longas sobre super-heróis: Wolverine, Capitão América, Homem-Aranha… são inúmeros (e quando não têm mais de onde tirar, inventam histórias absurdas tipo “Batman vs Superman”). Por isso a enésima volta do King Kong (sim, está em cartaz). Desenhos animados com efeitos espetaculares. Mais um suntuoso “A Bela e a Fera”. E por aí vai. Meu ponto é: o sujeito vai querer ver na grande tela, com som digital, etc., obras que demandam este tipo de aparato para serem desfrutadas. Filmes-evento de centenas de milhões de dólares.
De outro modo, ele fica em casa mesmo – é a escolha óbvia.
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*Frederico Ribeiro é escritor, jornalista e colaborador da Tribuna do Planalto. Cinéfilo e cineasta. Email: fredericocordeiro@yahoo.com

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