De advogado brilhante a sucessor de Marconi

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Vice-governador José Eliton é jovem na política, mas conviveu desde o princípio com ela (Foto: Paulo José)

De perfil técnico e com menos de oito anos no grupo de Marconi, José Eliton surgiu como simples indicação política e se tornou o nome forte da base governista

Marcione Barreira

O relógio da câmera de um estabelecimento comercial marcava 17h46min36seg. Tiros são ouvidos e alvejam os principais integrantes do comboio que trafega na avenida Modesto de Carvalho. Gritos de terror ecoam pela via principal da cidade de Itumbiara. Três mortos, dois feridos. Esse foi o saldo de uma tarde nebulosa. Entre os atingidos, o vice-governador José Eliton (PSDB), impactado com um tiro no abdômen.
O episódio quase colocou fim à vida e à carreira política de José Eliton de Figueirêdo Junior. O dia 28 de setembro de 2016 só terminou, de fato, três dias depois, quando recebeu alta do Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), em Goiânia. O atentado que vitimou José Gomes de alguma forma também significou o reinício de uma trajetória política aflorada em 2010.
Advogado especializado em Direito Eleitoral com atuação destacada em órgãos como o Tribunal Superior Eleitoral e Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, José Eliton surgiu na política por meio daquele que poderá ser, num futuro próximo, talvez o seu maior adversário: Ronaldo Caiado (DEM). Quis o destino que a mesma linha que os uniu – a política – fosse a mesma que os tornasse antagonistas.
Nas discussões para a composição da chapa majoritária ao Governo estadual na eleição de 2010, o DEM, do então deputado federal Ronaldo Caiado, compunha a base aliada e indicou o advogado José Eliton para ser vice de Marconi Perillo (PSDB).
Três anos depois, já nas conversas para as eleições de 2014, Caiado que almejava uma vaga na chapa majoritária da base para concorrer ao Senado, viu o objetivo distante e começou a tecer críticas ao governo do qual Eliton fazia parte. O incômodo fez com que Eliton trocasse o DEM pelo PP, o que colocou fim na relação entre ele e Caiado.
Desde 2010, Marconi Perillo, que voltara do Senado para concorrer ao governo pela terceira vez, derrotou Iris Rezende (PMDB) e trouxe consigo José Eliton, que foi se tornando cada vez mais influente junto a Perillo. De lá até aqui, Eliton ocupou secretarias de destaque e cargos de confiança e, com articulações e acordos, se tornou o principal nome para suceder Marconi.
Natural de Rio Verde, sudoeste do Estado, José Eliton se mudou para a região Nordeste de Goiás bem cedo. Na cidade de Posse, viu o pai, José Eliton de Figueirêdo, ser prefeito do município nos anos 1980 e acompanhou o progenitor pela via política sem ter, no entanto, se candidato a nenhum cargo.
O jovem José Eliton preferiu estudar direito e atuar nos bastidores jurídicos da política depois de não concluir o curso de História. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, à época UCG, em 1996, Eliton se mudou para Posse para ser advogado da coligação liderada pelo seu pai, que era novamente candidato a prefeito da cidade.
Tido na infância como inteligente e promissor, ele fez valer aquilo que se esperava dele. Anos depois foi ganhando destaque na esfera jurídica até se tornar membro da comissão de doutores do Senado Federal. Na ocasião, fez parte do grupo de renomados juristas que ajudou a reescrever o Código Eleitoral Brasileiro.
Consta no currículo do vice-governador passagens de destaque por outros importantes estágios jurídicos de Goiás. Eliton foi tesoureiro do Instituto Goiano de Direito Eleitoral e integrou a comissão de Direito Político Eleitoral da OAB-GO. Ainda na OAB, fez parte da Comissão de Advogados Publicistas, espécie de grupo independente na OAB.

Sem espaço no DEM, filia-se ao PP, mas firma-se no PSDB

Mas, voltemos à política partidária. Dentro da base aliada, José Eliton nunca foi unanimidade, nem mesmo agora que está no PSDB e foi alçado por Marconi Perillo à condição de candidato natural da base governista. Em 2014, faltou pouco para que o vice-governador ficasse fora da chapa que reelegeu Perillo.
Nos momentos finais para a definição da chapa, a deputada federal Magda Mofatto (PR) e Jovair Arantes (PTB) brigavam pela indicação. No entanto, Eliton conseguiu se manter na composição por gozar do apoio de Marconi Perillo, com o qual passou pelos desgastes ocorridos dois anos antes na operação Monte Carlo.
No DEM, José Eliton permaneceu até o primeiro semestre de 2013. Com a combalida entre os dois devido às críticas deferidas por Caiado ao governo, Eliton viu ficar insustentável sua permanência no Democratas. Em junho filiou-se ao PP e deu início a uma agenda que visava o fortalecimento de suas bases no interior para se cacifar às eleições em 2014.
Mas até chegar ao PP, ocorreram muitos diálogos entre o presidente nacional da legenda, Ciro Nogueira, Marconi Perillo, Sandes Junior e até Roberto Balestra, presidente do PP à época. Próximo de Ciro Nogueira, Marconi queria um lugar de destaque para Eliton e precisava ser a presidência da agremiação.
As discussões agradavam a Sandes, que estaria descontente com Balestra por causa de uma suposta concentração de poder. Sandes viu em José Eliton uma possibilidade de diminuir a força do parlamentar. Por isso, Sandes se tornou o principal defensor da ideia do vice-governador assumir o diretório estadual, enquanto prefeitos e outras lideranças da sigla preferiam que Balestra continuasse no comando.
Cinco meses após se filiar ao PP, o vice-governador se tornaria presidente da legenda, fazendo valer as articulações que o fizeram chegar ao partido. Na presidência do PP, Eliton percorreu o Estado tentando filiar prefeitos em seu mais novo partido, especialmente após o fim da campanha vitoriosa de 2014.
Em meio à intensa agenda em busca do fortalecimento do PP, outra articulação dava início a uma mudança dentro da base aliada. Naquela altura, rumores de que poderia acontecer com José Eliton o mesmo que aconteceu com Alcides Rodrigues – que foi eleito sob a batuta de Marconi sendo de outro partido e depois rompeu o líder base – fizeram com que fosse repensada a estadia de Eliton no PP.
Com esse temor e com o pré-requisito velado de que para ser candidato a governo precisaria ser do PSDB, foram iniciadas as composições com vistas às eleições de 2018. Em 29 de setembro de 2015 José Eliton deixava o PP e se filiava ao PSDB, o que trouxe para seu campo de apoio significativos aliados e as vozes tucanas na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.
O PP, no entanto, não ficou desprestigiado. No fim de tudo, quem perdeu foi o DEM. O senador Wilder Moraes, que era do Democratas, migrou para o PP, que perdia um vice-governador, mas ganhava um senador. Por sua vez, o PSDB passou a dominar tudo, com governador e vice-governador e sem problemas na escolha do nome para suceder Perillo em 2018.

P4-4 José Eliton filiação ao PP em 6 de junho de 2013 - Ao lado de Marconi Perillo, (esquer) Roberto Balestra (esquer), Ciro Nogueiora (direi) e Sandes Junior (direi)
Filiação ao PP em 2013: José Eliton (ao centro) ao lado de Marconi e líderes do lagenda

Experiência administrativa na Celg e duas secretarias

Desde que foi eleito em 2010, José Eliton acumulou a função de vice-governador e outros cargos importantes no governo. O primeiro deles foi assumir a presidência da Celg Par, em 2011. Lá permaneceu por 11 meses, numa gestão que foi elogiada por aliados ao promover o equilíbrio interno da empresa.
Em 2015, assumiu a supersecretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado com a missão de estruturá-la numa articulação que deu mais espaço ao PP no governo estadual. Por lá, permaneceu até o início de 2016. Naquela ocasião, o governo promoveu mudanças em algumas pastas e Eliton foi remanejado para assumir a Secretaria de Segurança.
Na Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária, o vice-governador permaneceu por um ano. Apesar do balanço realizado pela secretaria ter mostrado a diminuição da violência durante o comando de José Eliton, a gestão foi bastante criticada pela opinião pública.
Agora, entretanto, Eliton foi designado pelo governador para se dedicar exclusivamente a tarefa de vice. Até aqui, ele tem feito reuniões com diversos prefeitos e pavimentado seu nome pelo interior numa clara demonstração de alavancar a força de sua propositura aos quatro cantos do estado.
Como vice, Eliton também foi designado pelo governador para administrar os recursos provenientes da venda da Celg D. A empresa foi arrematada no final do ano passado para a Enel Brasil, grupo italiano, pelo valor de R$ 2,1 bilhões. O vice-governador vai gerenciar cerca de R$ 800 milhões cabíveis a Goiás, que, segundo ele mesmo, devem ser direcionados para obras de infraestrutura nos 246 municípios. Com essa missão, Eliton vai ter a possibilidade de tornar-se ainda mais conhecido fazendo valer a estratégia de Perillo.

Cientista político vê terreno livre para grupo de Marconi Perillo

Em se tratando de governo estadual, de 1998 até 2014 o grupo do governador Marconi Perillo ganhou todas as eleições que disputou. Prestes a entrar em sua sexta disputa, a base aliada continua vigorosa e com chances de continuar reinando no Palácio das Esmeradas.
Para o professor da UFG e cientista político Luiz Signates, os fatos anteriores mostram que o caminho está mais simples do que já esteve. Em 2012, o governador sofreu fortes abalos em sua imagem, mas mesmo assim se recuperou e saiu vitorioso nas urnas em 2014. Agora, no entanto, não há nada se comparado àquilo.
“Hoje o grupo de Marconi não está submetido a nada disso”, observa Signates.
Em 2010 e 2014 o grupo encontrou pela frente Iris Rezende, um adversário tradicional com capilaridade eleitoral e apoio em todo o estado. Atualmente a oposição tende a se fragmentar, o que, segundo Signates, deve beneficiar José Eliton.
“A tendência é que Ronaldo Caiado e Daniel Vilela vão em direções opostas. Isso facilita para a situação”, analisa o cientista.
Hoje não há dentro da base um nome que aglutine mais que Marconi Perillo. Essa é uma das razões pelas quais a candidatura de José Eliton ainda é questionada. Como Perillo não poderá se candidatar ao governo, resta a Eliton tentar se cacifar.
Apesar das dificuldades, Signates entende que fatalmente José Eliton será candidato e disputará o segundo turno, caso haja.
“Certamente o vice-governador vai polarizar a disputa. Tem a máquina estadual, apoio de Marconi e força no interior. Dificilmente ficará de fora”, analisa.

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