Enem não poderá ser usado como medida de qualidade

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O Ministério da Educação, a partir deste ano, usará novo formato para avaliar o desempenho das escolas através do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica

Objetivo do governo é impedir que escolas particulares utilizem indiscriminadamente as notas do exame para atrair novos estudantes

Fabiola Rodrigues

Os estudantes este ano vão experimentar algumas novidades no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a partir das decisões recentemente tomadas pelo Ministério da Educação (MEC), entre elas a realização das provas em dois finais de semanas e a não-divulgação das notas do exame por escola. Com essa última novidade, as escolas não poderão mais usar a nota do estudante para definir a qualidade do ensino da instituição, já que muitas usavam falsamente as informações para atrair maior número de estudante.
Para medir a qualidade das escolas, o MEC, a partir deste ano, usará o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Todas as escolas públicas e privadas que ofereçam ensino médio serão avaliadas. Até o ano passado, a avaliação da etapa era feita por amostragem, ou seja, apenas alguns alunos faziam o exame. Agora cada uma das escolas passará então a ter o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) calculado.
O diretor da Escola Estadual Pedro Gomes, localizada no Setor Capinas, em Goiânia, José Joaquim, diz que o fim da divulgação da nota do Enem por escola será benéfico para o processo de ensino-aprendizado do estudante, principalmente porque combate a concorrência desleal que vinha acontecendo entre escolas privadas. Mas ele acredita que na rede pública, onde não é possível haver este tipo de disputa, o resultado por escola estadual deveria permanecer.
“A divulgação precisa continuar, como vinha acontecendo nos últimos anos. É fundamental saber como foi o rendimento do estudante para, a partir de então, refazer o planejamento pedagógico e identificar onde deve haver melhoria na didática do ensino. E, se houvesse uma ‘disputa’ entre as escolas públicas, não deixaria de ser uma competição sadia”, observa.
José Joaquim lembra que várias escolas particulares não mais poderão usar, como propaganda, a nota do estudante que saía bem no exame.
“Quando o ensino da instituição é bom, isso vem do resultado do conjunto de fatores e esforços pedagógicos. Neste sentido com as novas medidas do MEC casos como estes [de utilização apenas das notas como indicador de qualidade] não poderão existir mais entre as escolas particulares”, diz o diretor.
A realização do exame pela primeira vez em dois finais de semanas é analisada por José Joaquim como um avanço educacional, já que fazer todas as provas em um final de semana cansa a mente, diminuindo o desempenho do candidato. No ano passado, o diretor enfrentou o Enem para compartilhar a experiência com os estudantes.
“Posso afirmar que a prova em dois dias seguidos se torna extremamente cansativa. São muitas questões, que, claro, exigem concentração e conhecimento e quanto menor tempo os estudantes tiverem a produção dele será mais baixa. Essa mudança fará com que cada candidato descanse mais e tenha melhores resultados”, comenta o diretor.


Medida impedirá manipulação

O diretor do Colégio Prevest, localizado no Setor Bela Vista, em Goiânia, Flávio Roberto, diz que o fim da divulgação do exame por escola é também resultado de esforços do Sindicato das Escolas Particulares de Goiânia (Sepe-Go), órgão do qual é presidente. Flávio relata que já ocorreram em Goiânia comparações sem sentido, configurando verdadeiro uso abusivo da nota do estudante para divulgar o nome da instituição.
“Conheço escolas que manipulavam os dados. Critico tais atos dessas instituições de ensino e isso vinha acontecendo em Goiás e por todo o país, infelizmente. Enquanto houve divulgação de notas por escola, houve manipulação”, conta o diretor.
O ranking começou a ser amplamente explorado sobretudo nas primeiras divulgações dos indicadores por escola. Os ranqueamentos não raros comparavam escolas em situações socioeconômicas diferentes e que tinham, por exemplo, diferentes índices de participação no Enem. Como não se trata de uma avaliação obrigatória, algumas escolas com poucos participantes acabavam sendo comparadas a escolas com mais participantes, o que influenciava nos resultados.
Para Flávio Roberto, a impossibilidade do ranking é positiva, segundo ele a decisão acabará com uma série de medidas que desvirtuam o resultado da avaliação do Enem.
“Após o resultado do último exame tachamos ele como o ‘Enem da discórdia’. Era tanta escola particular querendo aparecer com estudante que tinha boas notas. Conseguimos até publicar um material na mídia sobre este assunto”, diz o diretor.
Todo ambiente escolar deve valorizar o esforço do estudante pelas boas notas, desempenho e disciplina sem precisar explorar dados nem sempre fiéis. Flávio Roberto ressalta que cada escola tem determinado perfil de aluno à medida da dedicação oferecida pelos educadores.
“A qualidade dos professores, do corpo docente, da estrutura física ajuda a engrandecer o nome da escola. São estes fatores que contribuem para que a educação seja melhor na rede municipal, estadual e particular. Uma nota boa ou outra não define a qualidade da escola – isso vem com um conjunto de fatores”, conclui o diretor.


Saiba o que muda no exame

A partir deste ano, as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) serão aplicadas em dois domingos seguidos, dias 5 e 12 de novembro. A ordem das avaliações será alterada: no primeiro domingo, 5, serão aplicadas as provas de Linguagens, Ciências Humanas e Redação, com 5h30min de duração; no domingo seguinte, dia 12, serão aplicadas as provas de Matemática e Ciências da Natureza, com 4h30min de duração.
A mudança do Enem para dois domingos normaliza a prova para os sabatistas, que tradicionalmente tinham que esperar até as 19h do sábado para dar início à avaliação. Os cadernos de prova passarão a ser personalizados, com nome e número de inscrição escritos na capa, com os cartões de resposta encartados na prova, mas manterão o formato em quatro cadernos de cores diferentes. O exame não será mais usado para emitir Certificado de Conclusão do Ensino Médio. Para isso será criado um novo exame, chamado Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).
Estudantes treineiros, matriculados no ensino fundamental 2 e nas duas primeiras séries do ensino médio não poderão realizar as inscrições nos próximos exames. Os candidatos terão um limite de até 3 solicitações de isenção da taxa de inscrição. Na quarta tentativa, o estudante terá que pagar a taxa.
As inscrições para exame estarão abertas entre 8 e 19 de maio, e o edital será publicado em 10 de abril. Os candidatos que necessitem de atendimento especial e tempo adicional de prova deverão solicitá-lo no ato da inscrição, que aumentará de R$ 68 para R$ 74 a partir deste ano.

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