A saga de Guilherme, o bebê abandonado

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Em 2017, quatro recém-nascidos foram abandonados na Região Metropolitana de Goiânia, entre eles está Guilherme

Yago Sales

Guilherme, com 3,8 quilos, bem agasalhado, no colo da assistente social Maria Luiza Brandão Lobo, presidente da seção 132 do Conselho Tutelar de Aparecida de Goiânia, não lembrava nada do bebê enrolado em um lençol ensanguentado, misturado a placenta, abandonado dentro de uma caixa de papelão, em um lote baldio, no meio do mato e a garrafas de bebidas alcoólicas. Ambiência para uso de drogas e até sexo, segundo vizinhos. Ele foi encontrado às 8 horas do domingo, 26, pelo pedreiro Edmilson Xavier, 40.
Na porta da maternidade Marlene Teixeira, na quarta-feira, 29, às 13 horas, o motorista do Conselho Tutelar aguardava em um carro branco, plotado com “Conselho Tutelar”, por Maria Luiza. Mesmo acostumada ao acolhimento, a conselheira não conseguia controlar a apreensão. Ela conduziria Guilherme ao abrigo após alta hospital. Era mais uma etapa da vida incerta do menino abandonado na rua Dora Adelaíde, no Veiga Jardim, em Aparecida.
Tudo começou quando o pedreiro Edmilson Xavier, 40, digitava, com dedos trêmulos, no whatsapp: “encontrei um bebê”. A mulher, Eleni Marques, 35, desacreditou. “Para de gracinha”. Para provar que não inventava, mandou a foto do menino para a Elini, que ficou atônita.
Antes, porém, Edmilson estava animado para dar continuidade aos reparos no sobrado de um tio. Ele e o irmão, Manoel Xavier, 43, receberiam R$ 150 a diária. Mal tinha descido da moto e tirado o capacete, ele ouviu um gemido. Deu dois passos e viu a caixa de papelão. Um pano encobria o corpo encolhido de Guilherme que, ao ter o pano retirado do rosto, chorou um choro de alívio. “Eu tremia de emoção. Não chorei por que meu irmão estava perto. Engoli seco”. O pedreiro, que mora em um barracão de três cômodos no Bairro Floresta, em Goiânia, pai de dois filhos, uma menina de 10 e um menino de 3, correu a uma farmárcia nas proximidades. “Pedi pra moça: ‘por Deus, ligue pro 190’”.
Edmilson conta que uma viatura chegou 10 minutos depois. “Os policiais colocaram o bebê no banco da viatura. Os olhos meio abertos”. Os vizinhos foram se aglomerando em volta, algumas mulheres choravam de emoção. Perguntado se gostaria de adotar Guilherme, o pedreiro não hesita: “Não tenho condições financeiras. Tenho lutado para cuidar dos meus dois filhos, mas gostaria de visitar o Guilherme. Disseram que não posso ir. Ele está no abrigo, né?”.
Levado à Maternidade Marlene Teixeira, Guilherme passou por todos os procedimentos. A equipe médica acionou o Conselho Tutelar, a porta de entrada ao Judiciário. Lá, recebeu ainda o carinho da equipe médica e até de Edmilson, que o olhava de longe, coração repleto de emoção de ter contribuído para a sobrevivência do menino.
Nas proximidades do abrigo, Maria Luiza orientava o motorista a dar voltas em algumas quadras, antes de adentrar o local em que Guilherme, o caçula, se juntaria a outras 95 crianças. O cuidado não é à toa. A precaução, além de estar previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, é garantia da integridade física do menino e das outras crianças. Não raramente, em função de sua atividade protetiva à criança, conselheiros são expostos ao perigo. Ela conta que até tiro aterrorizou a seção 119. “Uma colega perdeu chumaço de cabelo”, lembra.

P7_assistenteAssistente social Maria Luiza Brandão: emoção ao acolher o pequeno Guilherme, após a alta hospitalar

O pouco que se tem de um menino com mãe sem paradeiro se resume ao calhamaço de documentos que Maria Luiza flexiona ao peito com cuidado. Nas pastas, relatórios, prontuários e até o Mandado de Inscrição de Registro, assinado pela juíza Stefane Fiúza Cançado Machado, para que Guilherme fosse registrado. A vida de Guilherme está nas mãos de Stefane Fiúza. É ela que vai acompanhá-lo nos próximos meses, até a adoção, caso a mãe ou familiares não procurem o Judiciário para requerer a guarda de Guilherme. “É uma possibilidade, mas ele pode ir para adoção”, esclarece à Tribuna do Planalto.
A juíza assume que ficou surpresa ao ter ciência do caso do bebê. “Estou aqui no Juízado há seis anos e não tinha uma situação dessas em Aparecida. Por isso buscamos conscientizar. Caso a mãe não queira a criança, basta nos procurar que vamos dar uma oportunidade dela, se usuária de drogas, se tratar. Até conseguimos interná-la. Dou oportunidades àquelas que realmente queiram cuidar dos filhos”.
Stefane Fiúza conta que algumas mães aproveitaram esta oportunidade e conseguiram cuidar dos filhos, mas outras, depois de perder a guarda, geraram outros. “Adoção é irrevogável. Precisamos bater na tecla de que essas mães precisam nos procurar. Assumimos o compromisso de manter o sigilo da identidade da mãe, inclusive para os familiares”, destaca.
Sob tutela do Judiciário, Guilherme se torna estatística de abandono. Atualmente, dados oficiais estimam que mais de 46 mil crianças e adolescentes estão acolhidas, distribuidas nas quase 4 mil unidades de acolhimento que se credenciaram junto ao Judiciário no Brasil. As informações são do Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Segundo registros da Polícia Civil, nos últimos quatro meses, quatro recém-nascidos foram abandonados em Goiânia e Região Metropolitana, ou seja, pelo menos um caso por mês.
No imaginário das crianças e adolescentes acolhidas paira a expectativa de um lar, mas nem todas estão aptas à adoção, destaca a pedagoga Renata de Assis Machado, que compõe equipe técnica do Juizado da Infância e da Juventude de Aparecida. Segundo ela, Guilherme se juntará a outras 95 crianças e adolescentes abrigadas pelo município, sob inspeção do Judiciário. “Muitas dessas crianças ainda não podem ser adotadas porque ainda não ocorreu a destituição familiar, ou seja, quando os pais perdem a guarda dos filhos”.
Quem quiser adotar, precisa ir ao Juizado da Infância e Juventude, preencher um cadastro. “Depois, faremos uma entrevista e o proponente passa por um curso”, esclarece a juíza.
É o caso do casal Marcília Dias Pires, 40, e Fernando Antônio Pires, 41. Eles constam no cadastro para adoção e optaram pela adoção tardia. Ou seja, crianças acima de 3 anos. “Preferimos este perfil pela nossa idade, mesmo assim estamos esperando há três meses”, lembra Marcília ao telefone, após assistir a um programa sobre adoção no canal GNT.
Segundo Fernando, o curso que fizeram com a equipe técnica do Juízado foi muito esclarecer. “Buscamos não ficar ansiosos. Estamos em uma gestação que certamente vai ultrapassar os nove meses”, disse.

Crime
A vida de uma criança abandonada passa por um rito criterioso: a única concessão de vida a Guilherme, uma vez que a mãe abdicou-se da obrigação de protegê-lo, cometendo um crime, como salienta a titular da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA) de Aparecida de Goiânia, Caroline Borges. “Estamos empenhados em identificar a mãe e possíveis outros autores desse abandono. Ela responderá pelo crime e, se condenada, pode pegar entre seis meses a três anos de prisão”, explica.

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