Goiânia e seus botecos: uma história compartilhada

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Os bares goianienses são democráticos, pontos de encontro e de convivência

Frederico Ribeiro
Especial para a Tribuna do Planalto
Seria um exagero, e provavelmente um erro, dizer que nós goianienses moramos na capital do boteco. Mas, sem dúvidas, Goiânia desde sempre (é uma cidade jovem) foi, e ainda é, uma cidade de inúmeros botecos e, com justiça, reconhecida por isso.
Há quem culpe a distância do mar, há quem culpe o calor. Voltamos nas causas depois. Fato é que para muitos e muitos de nós, determinados bares – no plural, porque geralmente mais de um – ficaram gravados em nossa memória afetiva.
Antes de seguir adiante, penso ser necessário, nestes tempos politicamente corretos, deixar claro que o álcool em excesso é prejudicial à saúde e dirigir sob influência de substâncias alcoólicas é crime. Além da multa ser também extremamente prejudicial ao seu bolso…
Aproveitando que fiz o alerta etílico, vale dizer que nem só de bebidas vive um bar. Alguém teve a feliz ideia de criar o concurso “Comida di Buteco”, que começa agora em 14 de abril e vai até 14 de maio. É um concurso que abrange praticamente o país inteiro – todas as regiões geográficas, norte, sul, nordeste, centro-oeste e sudeste estão representadas – e tem a pretensão (sim, não deixa de ser um objetivo pretensioso) de eleger o melhor boteco do Brasil. No site deles (comidadibuteco.com.br) você fica sabendo mais. São centenas de bares, de dezenas de cidades, e milhões de votantes. Como eu disse: uma ideia interessante, e que movimenta este setor de atividade econômica –que certamente está, como toda a economia em geral, afetado pela crise.
Nós, aqui em Goiânia, somos desprovidos de mar. Sim, o eufemismo meio ridículo é proposital: estamos a milhares de quilômetros do oceano. E tem mais. Estamos aproximadamente no paralelo 16 do hemisfério sul. Isso significa que estamos nos trópicos, próximos à Linha do Equador, ou seja, que o sol é muito quente aqui, que faz muito calor por estas bandas.
Pode se dizer, então, que aqueles dois motivos que citei lá atrás como possíveis culpados (por quê a palavra culpa?) da afinidade goianiense aos botecos são, na verdade, um só. Pode se dizer também que essas razões –calor, distância do mar – são justas e verdadeiras incentivadoras do ‘botequismo’, mas eu acrescentaria outras tão – ou mais – importantes quanto.
Primeiro, uma coisa que citei lá atrás. A memória afetiva. Quando crianças, vários pais levam seus filhos para comerem os já proverbiais espetinhos de boteco – os meus me levavam. Depois, quando jovem, eu frequentava, por conta própria, bares que talvez nem existam mais, mas dos quais nunca esquecerei. Eram pontos de encontro – quase que nem se precisava combinar (era mais difícil a comunicação na era pré-celular). Determinadas tardes/noites, tais amigos estariam lá e você sabia disso, então ia…
Outra causa das pessoas serem tão assíduas a botecos é que, neste país, espaços públicos de convivência não são muitos; diria que nunca foram uma prioridade de nossos governantes. Temos parques, mas são poucos; infelizmente aqui não temos praia… Penso que existe uma necessidade inata ao ser humano de ser, um mínimo, gregário. De se socializar para se sentir parte de algo maior e não apenas um número, uma estatística. De se sentir parte de uma sociedade, se sentir um cidadão, alguém que pertence. Algo mais que apenas mamíferos bípedes vivendo, todos nós, em amontoados mal ajambrados de concreto sem qualquer identificação com o vizinho e com contas a pagar. Pode parecer que não, que queremos é distância de todos. Às vezes – muitas vezes, aliás – eu mesmo tenho esse sentimento, sobretudo quando no trânsito. Mas acredito que lá no fundo exista algo que nos faz querer conviver com os outros.
Resta, na esteira do último argumento, pontuar que os botecos são democráticos, ecumênicos. Claro que existem bares caros e bares baratos, luxuosos e simples (e também os sujos mesmo), mas você não precisa andar muito para encontrar um deles onde se sinta à vontade, independente de sua classe social.

•••
Bom, terminaria o texto ali, no entanto ainda tenho a dizer o seguinte: sou crítico a algumas coisas desta minha cidade natal, Goiânia. Mas dois títulos brasileiros nos pertencem. 1. Somos a cidade dos sui generis pit dogs. 2. Fazemos – disparado – as melhores pamonhas deste país.

Frederico Ribeiro é escritor, jornalista e colaborador do jornal Tribuna do Planalto. Cinéfilo e cineasta. Email: fredericocordeiro@yahoo.com

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