Simplicidade

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Banho de chuva no calor, picolé na praça, banco de jardim, boa música, andar descalço, sonho de valsa ou prestígio, um solo de guitarra de BBKing, uma soneca após o almoço, dormir abraçadinho com o bem, uma gargalhada de criança, contemplar o trabalho de um trilheiro de formigas executando sua mais nova empreita em meu jardim.
Café quentinho, respirar ar puro, fugir do trânsito, sentir o cheiro da terra molhada e a alegria dos papagaios gritando de manhã cedo. Ter calma apesar da agonia alheia e não se estressar. Assistir a uma boa comédia ou um divino desenho de Pernalonga ou Pica-pau.
Aprendi o que era a simplicidade com as crianças e com os matutos com quem convivi, gente muito simples, muitos que em nossa concepção urbana seriam vistos como tolos ou como idiotas. Ficaria aqui meses listando coisas simples que aprendi a curtir na vida com estas pessoas.
Outro dia ouvia um conhecido gabando-se de sua mais nova aquisição. Uma nova caminhonete importada, um foguete ultrapotente, exclusivo, uma verdadeira fortuna, tração nas quatro rodas, dois sistemas de navegação semelhante ao conforto de um hotel quatro estrelas. O rapaz a comprou para viajar mais confortável e poder pescar com sua família. Mas assim que a tirou da concessionária se arrependeu, ficou com dó de seu mais novo bem e resolveu guardá-la em sua garagem. Sequer saia com ela na cidade por medo de assalto ou que batessem em seu precioso bem. Assim tornou-se escravo de sua própria ganância e vaidade. Abandonou sua pescaria para não estragar seu carro novo. Sofisticou demais e perdeu sua alma e alegria de viver.
Nosso mundo é assim. Muita oferta, muita tecnologia, muitas possibilidades, muita mania, onipotência para pouca praticidade. Queria ver a alegria do carro novo perdurar por toda vida.
O problema psíquico que vivemos liga-se diretamente à necessidade de nossa sociedade de consumo. Queremos muito para ter e não para usar bem o que temos. A vaidade que se instala por que adquirimos um bem é patética. E o principal problema disto tudo é que a maior parte do que adquirimos não faz o menor sentido para nosso espírito. Não nutre nossa alma e assim a satisfação é momentânea. E assim se nutre o mercado de consumo, a publicidade. Insatisfação e carência.
Muitas pessoas que hoje têm uma vida sem sentido mergulham com intensidade nesta sofisticação, visando apenas agradar a sociedade. Perdem suas metas e objetivos de vida e com isto camuflam sua insatisfação e os problemas de sua psique atrás de aparências, de uma casca que não se sustenta. Assim conhecem a fundo a literalidade da palavra vazio. Isto, em médio prazo, torna-se uma melancolia intensa, uma vida sem graça, superficial que só faz sentido em uma sacola de shopping center . É necessário voltar às coisas simples, à simplicidade, se queremos equilíbrio mental e reencontrar o sentido pra nossa existência. A individuação vai exigir a simplicidade, introspecção, revisão de valores, o que faz sentido, mas para tanto é necessário olhar para dentro… se perceber, evitando influências exteriores. Boa simplicidade…

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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