A hora e a vez de Ronaldo Caiado

0
1436

Senador traz um arsenal de história na bagagem e quer disputar, pela segunda vez, o governo do estado

Marcione Barreira

Ao conquistar uma cadeira para o Senado, Ronaldo Caiado (DEM) deu continuidade à longa história política de sua família. De origem portuguesa, os Cayado ancoraram em solo brasileiro no século XVIII e no século seguinte ganharam notoriedade na política se tornando uma das famílias mais influentes do cenário nacional.
Hoje, Ronaldo Caiado ensaia candidatura ao governo do Estado e tem o desafio de manter firme a saga da família em Goiás. Grande parte de seus familiares já ocupou cadeiras em diversos órgãos da política no estado. Cargos como senador, deputado, governador e até presidente, embora por curto período, foram algumas das conquistas.
Nascido em Anápolis em 25 de setembro de 1949, Ronaldo Caiado teve sua formação entre os mais influentes políticos daquela época. Seu avô, Antônio Totó Ramos Caiado, foi deputado federal de 1909 a 1921, além de senador de 1921 a 1930. Neste período ele foi um dos mais temidos coronéis de Goiás. Totó liderou a oligarquia dos Caiados até ser findada por Getúlio Vargas na revolução de 1930, e em Goiás liderada por Pedro Ludovico Teixeira.
No entanto, mesmo em berço político, o início na política partidária começou em meados da década de 1980, quando se solidarizou com as causas do agronegócio. Antes disso, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se formou em 1974.
De lá até aqui, tem sido um dos parlamentares mais influentes no Congresso Nacional, a ponto de ser eleito vencedor na categoria “Melhor Senador” do prêmio Congresso em Foco, em 2015. Do Democratas, ele é considerado um dos poucos políticos no Congresso Nacional imunes às denúncias de corrupção que tem assombrado figuras públicas em Brasília.
Genuinamente de direita e com discurso que se notabilizou por críticas contundentes ao PT, Caiado vislumbra conquistar o governo de Goiás e é, entre os nomes colocados, o mais conhecido nacionalmente. Muito por constar em seu currículo uma candidatura à Presidência da República (1989) e atuação de destaque em defesa do agronegócio brasileiro, fatores que o fizeram ganhar projeção nacional.
Hoje aliado ao PMDB, Ronaldo Caiado foi por muitos anos adversário contundente da legenda. Mas em 2014, sem espaço na base governista e com o desejo de concorrer ao Senado, aliou-se a Iris Rezende, então candidato a governador, de quem herdou durante a campanha a capilaridade do PMDB que o fez conquistar votos preciosos para chegar ao Senado. Após cinco mandatos como uma das principais lideranças da bancada ruralista na Câmara dos Deputados, Caiado conquistou em 2014 a única vaga então disponível para senador, com 47,57% dos votos, contra 37,52% de seu principal adversário, Vilmar Rocha (PSD).

Ronaldo Caiado contou com a força do PMDB de Iris Rezende para chegar ao Senado
Ronaldo Caiado contou com a força do PMDB de Iris Rezende para chegar ao Senado

Aliança com Iris é ameaçada pela ascensão de Daniel Vilela

Se por um lado Ronaldo Caiado se afastou de um líder político, Marconi, compensou o desligamento com a parceria entre ele e Iris Rezende. Ensaiada em 2004, quando apoiou Iris para prefeitura de Goiânia em segundo turno, a união alcançou êxito formal em 2014, ao menos para Caiado.
Tentando até o último momento uma vaga na chapa majoritária da base aliada, Ronaldo Caiado fracassou na tentativa. Mesmo após diálogos entre Aécio Neves (PSDB-MG) e Marconi Perillo no esforço de convencer Perillo a sacar Vilmar Rocha e colocar Caiado em seu lugar.
Não obtendo glória em suas tentativas, Caiado se acoplou a Iris Rezende e ao PMDB, sigla que, de certa forma, havia sido deixado de lado pelo PT, que bancou o então prefeito de Anápolis Antônio Gomide (PT) em chapa pura para o governo do Estado.
Essas articulações a longo prazo trouxeram benefícios ao DEM e a Ronaldo Caiado. Na oposição, ele foi o único que venceu, derrotando seu antigo companheiro de legenda Vilmar Rocha. Sem o PMDB, Caiado dificilmente conseguiria se eleger, pelo fato de o DEM no interior do estado não ter grande representatividade após sucessivas defecções para a base aliada.
A união formal sacramentada em 2014 continua e Iris e Caiado trabalharam juntos na campanha que elegeu Iris prefeito de Goiânia no ano passado. Agora, parecia tudo mais simples para Caiado se não fosse o crescimento do deputado federal Daniel Vilela, que alimenta o desejo de se candidatar pelo PMDB, partido do qual é presidente estadual. Analistas avaliam que dificilmente o PMDB vai deixar de bancar Daniel Vilela para apoiar Caiado.

Aproximação e distanciamento de Marconi Perillo

O afastamento de Ronaldo Caiado da base do governo Marconi Perillo, sacramentado em 2014, teve início oito anos antes, quando o Democratas ainda não existia e o partido de Caiado era o PFL. Nas eleições de 2006, Marconi Perillo (PSDB) se candidataria ao Senado e bancaria o seu vice, Alcides Rodrigues, para governo do estado. Componente da base aliada, Caiado lançou a candidatura do senador Demóstenes Torres ao governo, que terminou a disputa em quinto lugar.
Naquela ocasião, o racha entre os dois líderes políticos fez com que o PFL sofresse grande baixa em seus quadros. Embora não tenha deixado o partido, alguns de seus fundadores seguiram com Marconi Perillo, isolando Caiado. Entre eles, o atual secretário de Cidades e Meio Ambiente (Secima) do governo do Estado, Vilmar Rocha, que posteriormente se filiou ao PSD.
Em 2010, Marconi Perillo retornou ao governo estadual e formou sua base de apoio com o DEM. Entretanto, Ronaldo Caiado – apesar de ter indicado José Eliton, à época filiado no DEM, para a vice de Marconi – não subiu ao palanque de Perillo, fazendo campanha praticamente sozinho. Como prova de sua força, Caiado foi reeleito para o quinto mandato à Câmara dos Deputados como terceiro mais votado, alcançando 167 mil votos.
Naquela eleição, Ronaldo Caiado conseguiu fortalecer o partido com a reeleição de Demóstenes Torres para o Senado com mais de dois milhões de votos. Conseguiu também ampliar o número de deputados federais da legenda, que contava apenas com ele e elegeu um deputado para a Assembleia Legislativa.
Foram eleitos em 2010 os deputados Heuler Cruvivel e Vilmar Rocha para a Câmara dos Deputados e Hélio de Sousa para a Assembleia Legislativa, ambos à época filiados ao Democratas. O partido teve um crescimento de mais de 50% em relação à eleição anterior, ocorrida em 2006.

Itami Campos: ”A questão nacional pode ajudar Caiado”
Itami Campos: ”A questão nacional pode ajudar Caiado”

Com capilaridade e força política, Caiado está no páreo, diz cientista

Com a imprecisão na oposição que hoje conta com dois nomes fortes, Daniel Vilela e Ronaldo Caiado, o jogo político para 2018 aponta para o nome mais conhecido entre os oposicionista: Ronaldo Caiado. Tradicional e que traz consigo um eleitor fiel, ele é tido como alguém que pode encarar de frente qualquer candidato, segundo analistas.
Forte até mesmo na terceira via, se for o caso. Segundo o professor, cientista político e historiador Itami Campos, o Democratas é forte e poderá disputar a eleição com quem quer que seja. Segundo ele, o fato de a situação estar sem unidade, diferentemente dos tempos em que Marconi era candidato, facilita para os oponentes.
Itami ressalta o fato de o nome de Ronaldo Caiado ser reconhecido nacionalmente, o que aglutina força a uma eventual candidatura.
“Acho que ele está no páreo. A base aliada está dividida. Ronaldo Caiado tem tido um desempenho reconhecido nacionalmente”, destaca o cientista político.
Ainda conforme Itami, há uma tendência nacional que ajuda no discurso de Caiado. As críticas à esquerda alimentam os argumentos de que candidatos firmes como Caiado podem ter benefícios.
“A questão nacional pode ajudar. Estamos presenciando o esvaziamento da esquerda e candidatos com discursos destoantes podem levar vantagem”, argumenta.
Observada como difícil, a possibilidade de o PMDB apoiar o DEM como cabeça de chapa não está descartada, segundo avalia Itami. Na opinião  dele, vai depender do desempenho do governo do presidente da República, Michel Temer.
“O papel do PMDB vai depender de como será a sucessão de Michel Temer. A gestão de Temer deve ter reflexo direto nos estados em termos políticos”, analisa Campos.


P4-4Fatos da carreira de Ronaldo Caiado­

1974 – Forma-se em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

1985 – Entra na política. Cria a União Democrática Ruralista (UDR) para defender os interesses dos proprietários rurais.

1989 – Filia-se ao Partido Social Democrático (PSD) e candidata-se à presidência da República

1990 – No PSD, se elege deputado federal pela primeira vez com a maior votação do estado, 98.256 votos.

1991 – Filia-se ao PDC, após deixar o PSD por ser considerado figura destoante dentro do partido.

1992 – Vota contra o impeachment de Fernando Collor, a quem apoiou em segundo turno em 1990.

1993 – Filia-se ao Partido da Frente Liberal (PFL). Ainda neste ano deixa o PFL e filia-se ao Partido Progressista Reformador (PPR).

1994 – Filia-se ao PFL e se candidata ao governo de Goiás. Fica em terceiro lugar em eleição vencida por Maguito Vilela (PMDB).
1998 – No PFL, é eleito deputado federal pela segunda vez com 100.446 votos, a segunda maior do estado.

2002 – Eleito para o terceiro mandato à Câmara Federal, com atuação destacada na defesa do agronegócio.

2006 – Eleito deputado federal para o quarto mandado com 152.895 votos sendo a segunda maior do estado.

2007 – Legenda na qual se filiou em 1994 e ganhou três eleições, o PFL passa a se chamar Democratas (DEM).

2010 – No DEM, foi eleito para o quinto mandato de deputado federal se tornando o terceiro mais votado naquela eleição.

2014 – Eleito para o Senado federal com 1.283.6655 votos derrotando Vilmar Rocha, antigo rival no PFL.

2015 – Eleito líder do Democratas no Senado e reeleito em 2017.

2017 – Declara a veículos da imprensa nacional o sonho de governar Goiás

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here