Abril, o mês Mundial da Conscientização do Autismo

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Transtorno do Espectro Autista (TEA) atinge cerca de dois milhões de pessoas no Brasil

Yago Sales

O mês de abril começa azul. Desde 2008, torres, pontes, estátuas, iluminam-se de azul, a cor que simboliza o autismo. A data serve para dar visibilidade às necessidades de autistas e familiares. O dia certo para este evento é 2 de abril, quando ações se desenvolvem sobre o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, ainda permeado de preconceito. Em Goiânia, entre os dias 5 e 8 ocorreu, por exemplo, o 2º Encontro Goiano de Autismo, para discutir as formas de tratamento e como lidar com o diagnóstico.
No dia, times goianos adotaram camisetas com dizeres sobre o autismo como forma de conscientização. O jogadores do Goiás Esporte Clube gravaram um vídeo, que incluía diversas crianças que têm o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em uma  partida do dia 26 de março, Goiás e Vila Nova, que se enfrentariam em um clássico, entraram no estádio Serra Dourada vestidos com camisetas estampadas sobre o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Além das estrelas do futebol, árbitro e bandeirinhas também entraram nessa jogada do combate ao preconceito.
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento. Pode ser catactarizado por déficits na comunicação e interação social e também por comportamentos repetitivos e estereotipados.
Lidar com o diagnóstico não é fácil. É o que conta a fonoaudióloga Carolina Attux Jardim, de 40 anos, mãe de Lorenzo, 4 .  Durante os dois anos de casamento com Bruno Jardim Cabral, 34 anos, o casal ia levando a vida, sem muita preocupação com filhos. Mas no terceiro ano, eles decidiram ter uma criança. Mas o tempo ia passando e nada de a Carolina engravidar. Temendo que o tempo passasse, ela desafiou o marido a procurarem um especialista.
“Depois de descobrir um problema com o Bruno, fizemos a inseminação”, lembra Carolina.
Saber do resultado positivo na segunda tentativa foi uma alegria imensa. Até o quarto mês, ela teve enjoo. Nenhum problema permeou a gestação que durou 38 semanas e findou num parto normal. Quando nasceu, Lorenzo chorou e emocionou a mãe.
“Ele se sentava sozinho, engatinhou, como qualquer outra criança”, lembra a Carolina.
Sete meses após o nascimento de Lorenzo, um bebê quietinho, insuspeito, Carolina teve uma baita surpresa: estava grávida do segundo filho. “Comecei a perceber a diferença no desenvolvimento de Lorenzo por volta de um ano e três meses”, recorda. É que Lorenzo não dava muito trabalho aos pais. Sempre muito quieto, silencioso, ficava em qualquer lugar que o colocassem, principalmente quando, na televisão, passava o desenho da Galinha Pintadinha.
“Percebi a dificuldade na fala e percepção do mundo em volta”.
Lorenzo, com jeitinho meigo, pronunciava “papa” e “mama”, mas depois não disse mais nada. As palavras surgiam em sons indecifráveis. O menino não se preocupava com nenhum barulho a sua volta, nem mesmo aos chamados dos pais. Enquanto isso, o irmãozinho, Benjamin, vinha crescendo e aprendendo as coisas rapidamente.
“Eu suspeitava do autismo de Lorenzo, mas meu marido tinha dificuldades em enxergar. Ele até falava que eu estava confundido com o meio profissional. Mudei de tática e comecei a mostrar o que os filhos dos nossos amigos faziam”. Quando Lorenzo completara dois anos, os pais o levaram ao neuropediatra. “No dia da consulta, nosso bebê foi diagnósticado com o espectro do autismo. Chorei e soube que teria uma longa jornada pela frente”. Em silêncio e atencioso ao que o médico lhe fincava com força, o dignóstico azulado, Bruno resistiu. Mas a força durou pouco. No carro, Bruno se desesperou. Seu choro durou cerca de uma hora. Carolina tentava consolar o marido, logo ela que teria um “luto bem maior”.
Esse luto do diagnóstico não é raro quando familiares saem de consultórios com seus filhos. É o que reafirma a psicóloga Elaine Luzia de Jesus Teixeira, psicóloga da clínica de Intelectual, Centro de Reabilitação e Readaptação Dr Henrique Santillo  (Crer). Ela atende cerca de 12 pacientes e seus familiares. “Eles gostam bastante. Mas reconhecem que o tempo é curto. Cada família tem uma reação diferenciada em relação ao diagnóstico. Eles trazem suas queixas, muitas das quais relacionadas aos comportamentos dos filhos”, explica Eliane.
“Mesmo sofrendo, procurei as terapias para Lorenzo. Meu filho passa por uma terapia comportamental que aplica o ABA. Ainda temos duas acompanhantes terapêuticas, cada uma de duas horas por dia, terapeuta ocupacional e fonoaudióloga duas vezes por semana”, relata.
Há dois anos, Lorezeno era uma criança apática, isolada, sem qualquer interesse em interação com outras pessoas. Alheio, ele evitava ter contato visual.
“Hoje, depois dos tratamentos, ele socializa, tem percepção de tudo e está atento quando conversamos com ele. Nossa vida não é diferente da de outras famílias, frequentamos qualquer lugar”.
Atualmente, o maior desafio de Lorenzo é a fala. De acordo com Carolina, descobriu-se que ele tem apraxia, que é uma condição neurológica em que a pessoa é incapaz de realizar movimentos motores, no caso de Lorezeno isso o prejudica a falar.
“É um grave distúrbio motor na fala, afeta a habilidade da criança produzir corretamente as sílabas e as palavras. Crianças com apraxia têm dificuldades em movimentar seus lábios, boca, língua e mandíbula, para emitir os sons das palavras. Elas compreendem suficientemente bem, mas não conseguem planejar o movimento no tempo certo para que as palavras saiam corretamente”.
Com o diagnóstico do filho, Carolina decidiu se aprofundar sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). “Fiz vários cursos. Hoje atendo só crianças com TEA. O autismo não é uma sentença. Temos dias difícies, mas temos muito mais de alegrias e conquistas”, termina.
Dados coletados pelo CDC (Center of Diseases Control and Prevention, Centro de Controle e Prevenção de Doenças), entidade norte-americana, estimam que existam pelo menos 70 milhões de pessoas com autismo no mundo. Dois milhões somente no Brasil.

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