Analfabeto de metáforas

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Dias atrás eu dialogava com uma jovem que apresentava profunda dificuldade de compreensão sobre os fatos de sua vida. Não conseguia entender seu fracasso afetivo, o insucesso de sua carreira, por que tinha dívidas, o motivo de vários aspectos que a envolvem não darem certo. Obstinada, imponderada, cheia de teorias e racionalismo evidenciava uma dificuldade de aprendizagem, pois não entendia figuras metafóricas, analogia e tinha subjetividade reduzida, distante de sua própria afetividade. Um ser humano duro, revoltado, cheio de discursos prontos reproduzidos como um disco riscado. Nem parábolas ou mitos, apenas o concreto em poesia, sem abstração com a subsequente anulação da poesia da existência. Era a algema do materialismo e positivismo personificada. Mas qual seria a razão de tanto sofrimento e de tudo não dar certo?
Errar é humano, mas persistir no erro é fatal se nas entranhas do processo um indivíduo anula a chance de aprendizado pelo amor. Para que pensar? Para que refletir? Para que perder tempo em ter momentos de introspecção?
A referida mulher ignorava todos os sinais dados por amigos, por pessoas com quem convivia, pela vida. Um analfabetismo metafórico, cuja crise de subjetividade implica diretamente na anulação da criatividade, da liderança. Um autoboicote que engessa o ego e faz da ilusão um preceito de identidade, mas preceito patético. A inevitável crise de individuação, advinda do distanciamento da própria afetividade, em um oceano neurótico, na possessão pelo instinto de poder. Criticava tudo e, para ela, todos não prestam. Revolta e lá vai a vida presa, sem sair do lugar. Já viu isto, leitor?
Este cenário é parte comum hoje em dia em todos os fundamentalismos, em militantes, em pessoas que transformam o estereótipo em atributo de identidade, rompendo com seu ego. É a base de todo pensamento rígido do fanatismo, com ausência de percepção das coisas e do diálogo, atributos de uma psicose que nos circunda na pós-modernidade.
A referida criatura não pode amar, ter compaixão, caridade, tolerância. Distancia-se do amor próprio, dos que a cercam porque amor como atributo subjetivo, metafórico exige da pessoa a vivência de afetos. Mas isso não cabe bem no mundo das oportunidades e negócios. Amor para essas pessoas é absurdo (Camus, um estrangeiro teórico não vivencial). Porém, como negociar com esse capeta/amor ? (Goethe) E assim segue o drama da existência na pós-modernidade com o avanço de seres sem subjetividade, analfabetos em metáforas, com parcos recursos de subjetividade, espelhando sua vida em um vazio que não tem fim.
Nada de metáforas: religião, política, direitos, papéis sociais. Tudo sem essência. Vazio preso apenas a um esteio de estética. O belo oco.
Mais que um problema educacional, em minha percepção como analista e psicólogo clínico, falta a visão interior, o olhar para dentro, perceber-se e tomar consciência real do que somos, do que queremos. Falta amor por si mesmo e pelos que nos cercam – falta compaixão, cordialidade, gentileza que deve iniciar com a reflexão sobre a vida. É possível lapidar a pedra bruta, caso ela tenha humildade para querer aprender.

Jorge Antonio Monteiro de Lima é deficiente visual (cego), analista (C. G. Jung), psicólogo clínico, pesquisador em saúde mental, escritor, cronista e músico.

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