“Encontramos a secretaria toda desmontada, deteriorada”

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Felisberto Tavares: “Temos hoje 313 agentes de trânsito, um terço do necessário para Goiânia”­

Secretário Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade de Goiânia, o vereador Felisberto Tavares é bacharel em Direito, com licenciatura em Geografia e especialização em Meio Ambiente, Trânsito, Transporte, Política e Estratégia. Já presidiu o Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais por dois mandatos e foi um dos fundadores da Central Sindical Força Sindical de Goiás, em 2007. Filiado ao PR, desde janeiro ele tem a espinhosa missão de administrar o trânsito da capital. E pelo jeito não está sendo nada fácil, já que, conforme deixa claro na entrevista, recebeu a secretaria sucateada, faltando combustível para veículos, máquina de pintura de faixa estragada, contratos suspensos por falta de pagamento. Porém, em três meses ele já contabiliza alguns avanços. “Era uma estrutura que, além de parada, estava desmontada. Então aí o trabalho é maior, já que tivemos que montá-la e fazê-la caminhar. Ela está caminhando ainda lentamente, faltando pouca coisa para que consigamos aumentar a velocidade. Já estamos finalizando o processo licitatório de sinalização, ou seja, vamos revitalizar a sinalização de praticamente toda Goiânia”, diz, otimista, apesar dos grandes desafios.


Daniela Martins e
Manoel Messias Rodrigues

Tribuna do Planalto – Em janeiro, quando o sr. assumiu a secretaria, revelou que a pasta estava com muitas dívidas, equipamentos sucateados e um quinto dos agentes cedidos a outros órgãos. Como está a situação agora, o que já foi possível fazer?
Felisberto Tavares – A situação ainda não está das melhores, haja vista que do ponto de vista estrutural ainda não recuperamos muita coisa, só conseguimos negociar os contratos que estavam vencendo para que não suspendessem a prestação de serviço. Isso que havia ocorrido com a empresa Dataprom, que é responsável pela sincronização dos semáforos de Goiânia, lembrando que Goiânia é a primeira capital que tem todos os seus cruzamentos sincronizados. Neste aspecto, o trânsito dá uma fluidez muito grande, só que o pagamento das parcelas vencidas de junho do ano passado até janeiro estavam em aberto, e aí houve a suspensão. Negociamos com a empresa e ela fez o religamento e normalizou o trabalho. Temos uma deficiência grande com relação à terceirizada que faz a fiscalização eletrônica.

A população por enquanto não terá esse serviço, que é uma forma de dar mais segurança e garantia para todos que usam o trânsito?
Inclusive é o que dá condição para que o recurso venha para a secretaria. A fiscalização eletrônica é ininterrupta, além de dar segurança, que é o principal objetivo, ainda tem a questão do recurso que estamos ficando sem ele.

Que irregularidades mais graves o sr. encontrou na SMT?
O mais grave, do ponto de vista da gestão, é o inadimplemento com os fornecedores importantes. A empresa que fazia a sinalização não recebeu, a empresa que fornecia água não recebeu, os Correios não receberam. Agora do ponto de vista da conduta voltada a atos de improbidade, vejo aquisições com notas atestadas de materiais, compraram, atestaram o recebimento e não deu entrada no almoxarifado e não tem o material. Então isso é um fato extremamente grave.

Tudo isso já foi levantado?
Por outros motivos, fiz uma radiografia de como eu peguei a secretaria, está tudo ali [mostra um livro grosso sobre sua mesa]. Encontramos os veículos todos baixados [estragados, no pátio], a máquina que faz sinalização, estragada, ou seja, a secretaria toda desmontada, deteriorada, faltando esses materiais que, em tese, fizeram aquisição.

E o secretário anterior não passou essa situação para o sr.?
Não. Ninguém. Eu assumi aqui sozinho. Todos tinham sido exonerados e todos foram embora.

Não houve transição?
Não houve. Encontramos nosso arquivo jogado, documentos, tudo deteriorado, um caos.

Qual o tamanho do déficit de agentes para fiscalização do trânsito em Goiânia?
Hoje temos 313 agentes, sendo que o ideal seria um para cada mil carros. Como temos hoje uma frota de pouco mais de 1 milhão, então seriam necessárioa mil agentes. Temos um terço do que seria ideal.

Há previsão de concurso?
A depender da gente, vamos fazer esse pedido ao chefe do Executivo. Porém, todos sabem das dificuldades. Até por força da Lei de Responsabilidade Fiscal, que determina um limite de gasto com a folha, e, considerando que a economia brasileira está em declínio e o nível de arrecadação da prefeitura diminuiu, é certo que estamos bem próximos do limite prudencial.

Demonstramos (o impacto no trânsito), mas fazem a obra sem parecer favorável nosso. Isso é fato”

Como está a discussão sobre alterações de horários de entrada e saída nas escolas, para melhorar o trânsito nas proximidades dos estabelecimentos?
Não só de escolas, tem de ser de vários segmentos. As escolas querem mais alunos e os pais querem chegar todos no mesmo horário para deixar os filhos no mesmo lugar. Então, é um desafio para a física. Tem-se que pensar como fazer para que este segmento e aqueles que dependem deste segmento possam conviver harmoniosamente. Há os que moram, os que trabalham, os que estão passando ali temporariamente, atem ainda os que passam por ali quotidianamente. Então, a gente vai fazendo as intervenções. Muda o sentido de via, permitindo o estacionamento em ambos os lados. Se precisar, tiramos o estacionamento de um lado. Se precisar, tiramos o estacionamento de ambos os lados. Mas chega um ponto que não há mais o que fazer. A única medida é construir um viaduto, um túnel, uma passarela, e aí a gente esbarra na falta de recursos e também de competência. Às vezes, a gente indica que se faça isso, mas quem vai fazer é a Secretaria de Infraestrutura.

Mas essa discussão sobre mudanças de horários têm avançado?
Não tem outro jeito, você não tem outro mecanismo, não tem mágica. Está insuportável, não dá mais. Os pais estão chegando atrasados, os alunos estão chegando atrasados. Então, uma discussão que foi iniciada é que alterne os horários de entrada. Que seja de meia em meia hora, e assim sucessivamente.

Aparentemente parece interessante… mas
Da nossa parte parece uma coisa muito simples, mas eles  agem como sendo de uma complexidade muito grande. Lá adiante, na logística deles, eles dão lá suas razões, o segmento da escola. E da mesma forma tem que estender isso ao comércio, à indústria, a todos os setores que demandam impacto no trânsito.

Ao longo dos anos, houve a liberação de construções sem estudos ou ignorando o impacto no trânsito local? Isso dificulta a solução dos gargalos no trânsito?
Para se obter o alvará de construção, quando é um empreendimento que exige um estudo de impacto de trânsito, a gente não é favorável se esse estudo demonstra que vai dar muito problema. Demonstramos “olha, aqui não cabe mais escolas, empreendimentos”, mas não quer dizer que eles respeitam. De repente eles fazem a obra sem o parecer favorável nosso. Isso é fato.

“De maio em diante, Iris dará uma grande surpresa positiva para Goiânia”

Após três meses de gestão de Iris Rezende, a impressão que se tem é que a administração dele, da qual o ar. é parte, ainda não decolou. Já tem vereador falando em renúncia. Como o sr. vê essas críticas?
Olha, é preocupante. Mas eu não posso concordar com essa crítica, porque eu, que já era parlamentar, não imaginava o caos que estava aqui na SMT… Quando eu cheguei aqui eu pensava uma coisa e ao chegar vi que era outra totalmente diferente. Se a SMT, que é uma pasta relativamente pequena, mas muito importante, está nessa situação, fico pensando: e a prefeitura? Como peguei todos os contratos de prestadores, fornecedores, vencidos, todos com inadimplência, hoje eu ainda não consegui decolar, porque o próprio mecanismo não deixa, eu preciso fazer funcionar o pilar da fiscalização eletrônica, para o pilar da educação funcionar e o pilar da engenharia funcionar. Preciso de um meio que faça entrar recursos. Temos que lutar muito pra chegar ao zero, pra depois do zero a gente começar a avançar, mas isso não é fácil, pois temos um cenário mundial deteriorado, o cenário nacional deterioradíssimo. Isso tudo reflete na secretaria, na prefeitura. Então há uma série de fatores externos que talvez estejam fazendo com que a administração não tenha aquele salto que a população merecia.

O sr. acha que o prefeito deve dar uma resposta a essas críticas, vir a público e mostrar que a máquina está funcionando?
O prefeito Iris, pela experiência de gestão que ele tem, eu acho que ele não vai perder tempo dando respostas a coisas de menor relevância. Eu acredito que ele até mês de junho, ou de maio em diante, dará uma grande surpresa positiva para Goiânia. Sempre que converso com ele, percebo essa estratégia de que, primeiro, você te que diagnosticar o problema, depois fazer um prognóstico das soluções. Mas pra resolver é necessária uma concentração de recursos. Eu estou aprendendo com ele e acredito que, nessa linha, vai dar certo.

O sr. tem encontrado com ele semanalmente?
Semanalmente, não, mas sempre que há necessidade ele tem nos atendido, ele tem sempre nos orientado nessas questões de grande impacto na cidade, como a regulamentação do Uber, dos contratos, dos pagamentos, até porque todos os pagamentos, até por força de decreto, têm que passar por ele. Ele está sempre nos recebendo, nos orientando.

Mudanças feitas no trânsito durante a gestão passada, como implantação de ciclovias, da Zona 40 no Centro de Goiânia e de faixas exclusivas para ônibus, serão revistas?
Algumas não. Porque as implementações das ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas, eixos exclusivos fazem parte de um plano de mobilidade feito pela prefeitura em convênio com o Ministério das Cidades. Inclusive, grande parte do recurso vem do governo federal. Então, isso não tem como. Agora, a implantação da Zona 40, algumas travessias com faixas de pedestres transversais, essas são suscetíveis de alteração, tendo em vista que não foi ouvida a sociedade. Há um número muito grande de reclamações por parte das pessoas que lidam ali no Centro por ter uma zona 40 que está causando um certo transtorno e ela não foi feita com base em estudo técnico. Isso é fato, e deve ser revisto, depois de passarmos por uma exaustiva discussão com as pessoas envolvidas.

Há muita reclamação de comerciantes sobre como foi implantada a faixa exclusiva para ônibus em alguns pontos da cidade. Isso também será rediscutido?
Sim, como esse não é um projeto exclusivo da SMT, mas um projeto mais amplo, inclusive envolve a Secretaria de Planejamento e recursos de outros ministérios para implantar esses corredores exclusivos, talvez foram planejados e dimensionados sem ouvir aqueles comerciantes. Se ouvisse, e chegasse a um consenso, ainda que eles ficassem prejudicados, não estariam contrários ao projeto como foi definido.

“Ele (Paulo Magalhães) é reincidente, a ficha criminal dele é longa”

O episódio envolvendo discussão e agressão física do vereador Paulo Magalhães contra o sr., o que virou?
Isso está a cargo da Justiça. Há casos menos graves, que, mesmo sem agressão, acabam na Justiça. No meu caso houve [agressão]. A audiência está marcada para o dia 5 de maio, às 9h. Fiz todos os procedimentos e agora vai pra decisão da Justiça, um Juizado Especial Criminal. Toda pessoa que comete um crime precisa ser responsabilizado, porque esse vereador foi reincidente; eu fui o terceiro [agredido] por ele. Inclusive o Conselho de Ética da Câmara foi omisso, quando da injúria qualificada dele contra a vereadora Dra. Cristina, que representou contra ele no Conselho. O Conselho de Ética da Câmara de Goiânia é irresponsável, merecedor de uma ação de prevaricação. O vereador foi de vias de fatos contra o vereador Denício Trindade e agressão física a mim. Ou seja, a conduta dele foi cada vez mais gravosa. Então, se não houver uma punição, a próxima será lesão corporal grave e, depois, homicídio. E ele é reincidente, a ficha criminal dele é longa, ele é truculento. Ele já levou tiro, do ex-deputado Misael Oliveira. Então a Justiça tem de ser rigorosa nessa decisão.

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