Goiás prepara mudanças gradativas

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Definições concretas sobre as mudanças do ensino médio acontecerão após a regulamentação da Base Nacional Comum Curricular, que trará as matérias obrigatórias

Fabiola Rodrigues

Polêmica desde que foi anunciada pelo ministro da Educação, Mendonça Filho, a reforma do ensino médio foi aprovada e sancionada em fevereiro pelo presidente Michel Temer. A flexibilização da grade curricular é a grande novidade da reforma. A nova legislação prevê que o currículo seja 60% preenchido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e que os 40% restantes sejam destinados aos chamados itinerários formativos, em que o estudante poderá escolher entre cinco áreas de estudo: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. O projeto prevê ainda que os alunos escolham a área na qual vão se aprofundar já no início do ensino médio. As escolas não são obrigadas a oferecer aos alunos todas as cinco áreas, mas devem oferecer ao menos um dos itinerários formativos. Durante a tramitação na Câmara, o projeto retomou a obrigatoriedade das disciplinas de educação física, arte, sociologia e filosofia na Base Nacional Comum Curricular, até então fora do texto original.
Em Goiás, a implementação das mudanças está acontecendo de maneira gradativa, a partir de reuniões no Conselho Estadual de Educação (CEE), que em breve divulgará aos educadores o regras que devem ser observadas pelas escolas.
As definições concretas sobre as mudanças do ensino médio acontecerão após a regulamentação da BNCC, pois ela vai definir quais matérias são obrigatórias nos três anos do ensino. Por isso, o superintendente Executivo do CEE, Marcos Elias, esclarece que as decisões concretas sobre as modificações do ensino não foram tomadas por completo, já que algumas regras não estão ainda estabelecidas. Mas ele afirma que o CEE tem trabalhado para que as escolas gradativamente se preparem para oferecer o novo ensino médio.
“Temos que criar as condições pedagógicas e estruturais na escola. É exatamente isso que estamos fazendo através de várias reuniões semanais. O estado precisa ter condições de no início do ano letivo de 2018 oferecer ensino com os dois formatos que caracterizam a reforma do ensino médio, que são a flexibilidade na escolha das matérias para a futura formação acadêmica ou profissionalizante através de curso técnico”, destaca Marcos Elias.
Até outubro o Conselho Nacional de Educação (CNE) definirá a BNCC. Até lá, as escolas podem trabalhar com carga horária anual de 800 horas/aula. Porém a partir de 2018 o ensino médio deverá ter no mínimo 1000 horas/aula por ano. Pela lei, em 2022 todas as escolas devem oferecer essa carga horária mínima de 1000 horas/aula em cada ano do ensino médio. O Plano Nacional de Educação (PLN) exige que até 2024 50% das escolas de ensino médio no Brasil ofereçam carga horária de no mínimo 1.400 horas/aula.
Marcos Elias frisa que a rede estadual está se preparando para por essas novas regras em prática.
“No estado atualmente temos mais de 40 escolas estaduais funcionando em tempo integral. As mudanças da reforma quando se tornarem obrigatórias não nos pegará de surpresa, estamos mudando paulatinamente e isso é fundamental para que o estudante não seja prejudicado”, explica.
Estabelecidas as regras do CNE até o segundo semestre letivo, a partir do ano que vem as escolas já vão adotar os eixos informativos, ou seja, o estudante ao ingressar no ensino médio terá uma carga horária unificada e a outra será focada em áreas do conhecimento que ele poderá escolher para sua futura carreia estudantil ou técnica profissionalizante. A carga horária da BNCC não ultrapassará 60% da somatória das matérias obrigatórias, que são português, matemática e inglês. As outras disciplinas serão optativas e completarão o currículo do aluno.
O CEE busca agora definir questões básicas, principalmente orientar as escolas do Estado sobre a reforma, que será aplicada gradativamente. Até mesmo porque não há possibilidade de total mudança sem a formalização da BNCC, já que ela é crucial para as demais modificações na reforma.
“Criamos uma equipe de conselheiros e estamos estudando para apresentar em breve uma proposta de normas e resoluções para todo o Conselho com o objetivo de que todas as escolas tenham acesso às regras referentes às mudanças, pois quando forem oficializadas pela BNCC todos os diretores, coordenadores e professores saberão como trabalhar com aluno”, diz o superintendente executivo.
Com a flexibilidade do currículo o estudante terá autonomia para escolher matérias que o ajudem em seu processo de formação. Um dos objetivos da reforma é tentar resgatar no estudante o desejo pelos estudos, já que a evasão escolar nessa fase aumenta a cada ano no País.
Para Marcos Elias, a tentativa dessa mudança é um grande sinal de que a educação de um modo geral pode melhorar, mas ele confessa que tem medo de que todas as mudanças não saiam do projeto.
“Acredito que as transformações no ensino serão positivas para o estudante. Essa possibilidade de flexibilização do currículo na escola é muito positiva e faz parte da formação do aluno, porque na educação básica atualmente não existe essa opção de escolha de matérias. Desejo que essas mudanças se tornem de fato realidade”, observa o superintendente executivo.


Flexibilização tenta dar motivação ao estudante

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A ideia de oferecer ensino médio com curso técnico foi instituída no Colégio Estadual Lyceu, no Centro de Goiânia, uma das escolas que estão se preparando para oferecer o novo ensino médio. A escola começou a oferecer no início deste ano o Médio Tec, que é o ensino de nível médio junto com curso técnico. Nesse caso, o estudante passa o dia todo na escola e ao concluir os três anos terá o certificado de administrador, já que o curso profissionalizante ofertado no colégio é o de Administração.
Para o diretor do Lyceu, Edjar Júnior, esse modelo de aprendizado mesclando a educação tradicional com a profissionalização representa um avanço.
“Estamos nos adequando aos novos métodos de ensino. Acredito que serão muito bem-vindos principalmente pelo desestímulo dos alunos para estudar. Espero que todo nosso trabalho sirva para contribuir com a melhor formação de cada estudante”, diz o diretor.
Desde 2012 o Colégio Lyceu é uma escola de tempo integral para estudantes do nível médio e Edjar Júnior conta que, mesmo assim, terá que adequar algumas mudanças na escola por causa da flexibilização do currículo escolar.
“Sabemos que mesmo sendo uma instituição de tempo integral vamos precisar reformular o planejamento pedagógico até o ano que vem. Porém estamos esperando que essa reestruturação beneficie todo o ambiente escolar”, relata o diretor.
No Colégio Estadual José Lobo, localizado no Setor Rodoviário, em Goiânia, que também oferece aulas para estudantes do nível médio, ainda não houve nenhum tipo de mudança relativa à reforma do ensino médio. Segundo a diretora da escola, Maura Alves, a coordenação e a diretora foram informadas no final do ano passado pela Secretaria Estadual de Educação sobre o aumento da carga horária que deverá ser oferecida e a flexibilização do currículo escolar, mas ainda não teve nenhuma modificação referente ao que está proposto.
“Na nossa escola ainda não foi implantada nenhuma mudança na parte pedagógica ou carga horária. Vamos aguardar o que será proposto nos próximos meses”, relata a diretora.
Para Maura Alves, as propostas da reforma do ensino médio parecem relevantes e satisfatórias para o estudante, mas observa que o professor pode ficar prejudicado.
“Nosso atual ensino é muito engessado e o aluno estuda matérias que futuramente nem servirão para a profissão que ele atuará. Com a flexibilidade do currículo, os estudantes poderão desenvolver melhor suas habilidades. Por outro lado temos que saber como ficará a carreira do professor, já que nem todas as disciplinas atuais existirão. Essa situação é um caso sério a se pensar também”, observa Maura Alves.

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