José Mayer, seu erro e a “tempestade perfeita”

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Frederico Ribeiro
Especial para a Tribuna do Planalto

É o assunto do momento. E não só porque é o assunto do momento que merece comentário. Até porque nestes ‘tempos rápidos’, assuntos do momento mudam depressa. É porque o tema diz muito do mundo em que vivemos agora, 2017.
Não sei se a mãe dele é viva, mas creio que até ela haveria de recriminar o que seu filho fez. José Mayer errou e errou feio. Merece o desprezo público e com certeza teve sua carreira comprometida, senão arruinada. Imagino que o ator não contava com tamanha repercussão de suas ações. E, sejamos sinceros, até pouco tempo atrás o que ele fez não teria sido considerado tão horrendo como foi. Porque, para além da atitude desprezível em si, as atitudes de Mayer ocorreram em um época de forte comoção anti-machista. Ele foi o homem errado na hora. Foi arrebatado pela “tempestade perfeita”.
A expressão que, creio, já é usada por aqui, vem da inglesa “perfect storm” e não tem a ver com o filme homônimo nem com meteorologia. Pode ter com essa última, porém, é mais usada no sentido figurado referindo-se a um “situação na qual um evento, em geral não favorável, é agravado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias, transformando-se em algo de proporções maiores do que se poderia prever”.
Cabe notar, como aparte, que José Mayer, desde minha adolescência (infância?) é considerado “galã” e atuou como protagonista em várias novelas da Rede Globo. Durante todos esses anos, nunca foi acusado de nada. Diferente de vários colegas globais, ele não aparece em colunas de fofoca; também, se não me falha a memória, não é de figura em revistas de celebridades. Comparado com muitos – com a maioria, talvez – dos atores de destaque da TV brasileira, podemos dizer que ele sempre foi discreto. Uma pergunta, que dificilmente será respondida, surge inevitavelmente: por que,  agora, aos 67 anos de idade?

“A carta do ator foi muito bem pensada e escrita, indo ao cerne da questão. Mas faltou uma coisa importante: ele não pediu desculpas diretamente a Susllem Tonani. Pediu desculpas à sociedade e às mulheres em particular. Mas e vítima?”

Voltando ao ponto, ao que ele fez com a moça e a repercussão que isso teve. Houve abuso físico inaceitável, depois de recorrentes assédios verbais, que são por si só um crime. Mas a vítima, a figurinista Susllem Tonani, só decidiu tornar pública a situação depois de ser chamada, na frente de várias pessoas (e isto deve ter sido decisivo), de “vaca”.
Então vejamos. Mesmo depois de meses de assédio verbal e do abuso físico, quando Mayer pegou em suas “partes íntimas”, ela ficou calada a respeito e provavelmente teria continuado assim não fosse a humilhação pública (“vaca!”). Isso mostra sim o machismo incrustrado em nossa sociedade.
Ora, já havia motivos mais que suficientes para ela acusá-lo antes. Mas não o fez. Não fez porque sabia que muita gente acharia que o galã-estrela tinha uma espécie de direito de fazer o que fez (e vinha fazendo verbalmente). Portanto, aqui, temos um exemplo sim de chauvinismo machista, e não só. Talvez na mesma intensidade (impossível medir isto) temos o exemplo também do abuso de classe, de hierarquia. Quem é ela, uma “simples figurinista”, para reclamar do comportamento de um “astro” da casa? O direito do macho por ser macho somou-se ao direito de um chefe sobre sua subalterna.
Para azar de José Mayer, o crime que ele cometeu aconteceu em um momento da história no qual, diferente de outros tempos, não havia como ele ou a Globo varrerem a coisa para debaixo do tapete. Aconteceu em tempos extremamente politicamente corretos, quando o tópico “direito feminino” está muito em voga. Ocorreu menos de um mês depois do Dia Internacional da Mulher (quando houve uma mobilização nacional e internacional muito grande). Por fim, se deu na era da internet, onde o grito de Susllem foi divulgado, espalhado, e achou acolhida nos ouvidos de suas congêneres, que se mobilizaram, até fazendo campanhas que viralizaram, como a da frase: “Mexeu com uma mexeu com todas.” A hashtag #chegadeassédio. Etc. Percebem, então, os fatores que criaram a “tempestade perfeita?”
Acho relevante comentar algo que, acredito, passou despercebido por muita gente. A carta de desculpas do ator foi muito bem pensada e escrita, indo ao ponto, ao cerne da questão. Mas faltou uma coisa importante nessa carta: ele não pediu desculpas diretamente a Susllem Tonani. Ele pediu desculpas à sociedade e às mulheres em particular. Mas e a vítima, a pessoa Susllem, não merece pedido de desculpas?

Frederico Ribeiro é escritor, jornalista e colaborador da Tribuna do Planalto. Cinéfilo e cineasta. Email: fredericocordeiro@yahoo.com

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