A via crucis de uma mala desaparecida

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Tribuna reconstitui a labuta de uma estudante atrás de sua mala que ficou dentro do ônibus depois que ela voltava do Tocantins a Goiânia

Yago Sales

O calor de 40°, a lua meio alaranjada e um vento quente. O som ficava a cargo das teclas barulhentas. Tique-taque-tique-taque. Tudo isso permeava as noites da estudante Ana Clara Ribeiro Prado, 22 anos, em Palmas (TO), durante o mês de férias do curso de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela estava deslumbrada, mas não imaginava no que se converteria sua volta a Goiânia: uma peregrinação em busca de sua mala.
Quando Ana Clara chegou a Palmas no dia 23 de março para visitar a mãe, ela não imaginava que realizaria o sonho de ganhar uma máquina Olivetti-Lettera, de 1982, do padrasto. Toda dela. Não perdeu tempo e aproveitou que ficaria longe da vida corrida da universidade, longe da internet, para datilografar cartas aos amigos. O tilintar da máquina se misturava ao som do seu peito cheio de gozo. Escrevia sem pretensão. Os dedos, ordenados pelo coração sensível, escreviam sob a inspiração de Manoel de Barros, um de seus autores favoritos. De vez em quando, lia o poema Árvore:
“Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.”
Voltou a Goiânia um mês depois, como o esperado, no dia 12 de março. Na mala, tênis, óculos originais, roupas e material de higiene pessoal. E ainda: as cartas datilografadas, as “Obras completas” de Manoel de Barros; livro de contos e crônicas de Bartolomeu Campos de Queiros; um livro da professora e jornalista, Clarissa Pinkola Estés na Universidade Federal do Tocantis (UFT), “Mulheres que correm com os lobos”; e A desigualdade de gênero no Brasil”, de Eliane Gonçalves.
Na mala, roupas que dona Terezinha, de 75 anos, costurou para a neta esses anos todos. Dona Terezinha costura desde os 14 anos e veste Ana Clara desde que ela nascera. Lenços, saias, shorts, blusas, cada uma escolhida a dedo, cada roupa feita conforme o corpo. Ela toda dentro da mala, dobrado, com seu perfume.
Antes das 7h da quinta-feira, depois de 12 horas de estrada, Ana Clara atravessou o Shopping Araguaia, anexo à rodoviária de Goiânia. Com dificuldades, ela carregava a mala marrom de rodinhas, um travesseiro com fronha branca agarrado debaixo do braço, algumas flores que a mãe lhe dera aos prantos na despedida e a Olivette que coube certinho dentro de uma bolsa de couro de lado.
Quando chegou no ponto de ônibus da Praça do Trabalhador, esperou a linha 169, que faz o percurso do Centro e o setor Morada Nova. Estava ansiosa para acomodar a máquina em um canto especial do quarto, no setor Cidade Jardim. Como de praxe de todos os viajantes que chegam a Goiânia com grandes bagagens na parada frente à rodoviária, Ana Clara aproveitou que os passageiros desciam pela porta de trás e colocou a mala e o travesseiro dentro do ônibus, com o auxílio de um rapaz. Quando se dirigia à porta da frente, o motorista fechou a porta. Ela teve tempo apenas de bater com os punhos no vidro, mas o motorista a encarou com desdém e seguiu, mesmo com os gritos de “abre, motorista, abre, minha mala!”.
Ana Clara não teria tempo para desespero. Tinha de agir rapidamente. Com a máquina de escrever pendurada nos ombros, as flores que a mãe lhe dera, Ana pediu a um moto táxi para seguir o ônibus. Mas ela não tinha dinheiro suficiente e o mototaxista a abandou na avenida T-2. O ônibus passou cerca de três minutos depois no ponto mais próximo. Quando embarcou, encontrou um motorista indiferente ao seu drama. Percorreu o interior do ônibus com olhos aflitos. Mas nada da mala.
B7“Não é minha obrigação olhar quem entra e quem sai do ônibus”, respondeu o motorista a uma jovem desamparada, irrequieta, sem sua mala, as roupas que a avó costurava, cortava, pregada botões. Sem as cartas, sem os livros, sem os perfumes, os sapatos. Fragmentos de sua história sumira.
Nesse momento, já dentro do ônibus, ela ligou para a irmã contando que não encontrou a mala. Ela chorava. Uma moça lhe disse que um rapaz desceu no ponto da avenida T-7 com a avenida Assis Chateaubriand carregando a mala e o travesseiro.
Antes de descer do ônibus, discutiu com o motorista. Na troca de afrontas, disse que processaria a empresa. Ele deu de ombros. Bufando, ela anotou o número do ônibus, a placa e o horário.
No mesmo dia Ana Clara voltou ao ponto que passageiros indicaram que o rapaz, com uma mochila preta às costas, teria descido. Andou por toda a região em busca do moço. “Andei de prédio em prédio, deixei meu telefone nas portarias, nos comércios”, lembra. Ela contava a história repetindo os pormenores, sem se esquecer da fisionomia do rapaz, que descrevia já com cansaço. Quando escreveu no perfil do Facebook, a história viralizou. Alguém a sugeriu que escrevesse cartazes. Assim ela fez. Voltou no ponto onde o rapaz teria descido e colocou os cartazes. “Moço que está com a minha mala, me devolva, por favor”, escreveu, colocando o nome e o número de telefone.
Dias após a mala desaparecer, ela voltou ao ponto no mesmo horário do dia que chegou a Goiânia, às sete da manhã. “Tinha a esperança de o rapaz descer ali, mas ninguém apareceu”. Depois Ana Clara foi ao Juizado de Pequenas Causas e denunciou a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) por danos morais e danos materiais. Ela saiu de lá com audiência marcada. Enquanto isso, centenas de compartilhamentos davam conta da história do desaparecimento da mala da estudante nas redes sociais e em grupos da UFG.
“Nos terminais, as pessoas me reconheciam”. O tempo ia passando, mas Ana Clara não se esquecia. “Eu tentava esquecer para ter uma vida normal”, disse. No dia 26 de março, Ana Clara recebeu uma mensagem do rapaz informando que ele tinha ficado com a mala. “Achei minha mala”, ela pensou.

Doada
Ela estava enganada. A via crucis estava ainda pelo meio. “Liguei para ele na hora, mas ele disse que tinha deixado a mala no guichê da empresa que me trouxe”. Ana correu para a rodoviária. No guichê, lembraram de sua história. Ligaram para um encarregado que disse que a mala estaria no achados e perdidos. Lá, Ana encontrou de quase tudo, menos uma mala com as descrições da sua no mês de março. Disseram que a mala havia sido entregue para uma pessoa da limpeza.
“Conversei com o pessoal da segurança e uma encarregada da limpeza e nada”. Horas depois, um homem, que para Ana poderia ser um encarregado do achados e perdidos, chegou e disse que a mala havia sido doada a um funcionário da limpeza que não trabalhava mais na empresa. “Ele ficou 15 dias e desapareceu”, conta.
Sete dias depois Ana Clara recebeu uma ligação. “Eu soube que a mala estava em Goianira. Sem saber a procedência da mala eles decidiram dar para alguém”.
Ana Clara ficou com medo de nunca mais ver as coisas. “Praticamente tudo está dentro da mala”. De quebra, os tênis estavam lavados. As roupas limpas e passadas. “Os óculos todos dentro da mala, meus livros, meus lenços!”.
O rapaz da limpeza deu a mala para um taxista, que não quis e deu para um passageiro, que deu para uma moça de Goianira. “Pelo esforço da empresa de me ajudar, não vou processá-los, mas a empresa de transporte coletivo de Goiânia, sim”, disse, guardando os livros que vieram com as roupas, mas lamentando as cartas que escreveu sob o luar de fevereiro em Palmas. Com sofrimento, a menina que quer estudar mestrado em Antropologia, ainda reclama seu caderninho com receitas, poemas copiados, anotações de palestras, memorias e “coisas do tipo” que certamente nunca mais verá.

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