Estudante discutiu violência policial em última aula na UFG

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Luiz da Luz

Policial que quebrou cassetete em rosto de estudante recebeu honrarias do governo goiano por “preservação da ordem” ano passado

Yago Sales

“A testa dele ficou aberta por causa de um cassetete”, disse à reportagem o melhor amigo de Mateus Ferreira da Silva, 33 anos, estudante de Ciências Sociais da UFG (Universidade Federal de Goiás) agredido pelo capitão da Polícia Militar goiana Augusto Sampaio de Oliveira Neto.
Sob anonimato, o amigo aceitou contar como foram os momentos de angústia ao atendimento a Mateus. O estudante foi agredido durante a greve geral convocada contra as reformas previdenciária e trabalhista, em Goiânia (GO).
O amigo contou que ficou o tempo todo com o estudante durante a passeata na manhã de sexta-feira (28/4). Pelo menos 15 mil pessoas foram às ruas de Goiânia protestar ao mesmo tempo em que atos aconteciam em todo o país.
Por volta do meio dia daquela sexta-feira, muitos dos líderes sindicais, deputados, vereadores deixaram a passeata. Mesmo assim, dezenas de estudantes permaneceram na Praça do Bandeirante, no cruzamento das avenidas Goiás e Avenida Anhanguera, no centro da capital, quando a polícia avançou contra grupos que atacaram uma agência bancária com paus e pedras.
Mateus e outros estudantes, que não participavam do ataque ao banco, entre eles seu amigo, caminhavam quando foram surpreendidos pelos policiais que os cercaram e os atacaram com truculência. Outra estudante da UFG, que também pediu para não ser identificada, revelou que os policiais batiam aleatoriamente, sem critério algum. “Uma medida de acabar com a movimentação, cercear nosso direito de protestar contra essas medidas que desrespeitam o trabalhador brasileiro”, disse.
Mateus ficou sozinho enquanto os amigos corriam para se protegerem dos ataques em meio ao tumulto de corpos atingidos por cassetetes. Mateus, contudo, não conseguiu se desviar do capitão Augusto Sampaio de Oliveira. O capitão acertou com tanta força a cabeça de Mateus que o cassetete se partiu ao meio, provocando traumatismo craniano. Em vídeos nas redes sociais, é possível escutar o barulho do impacto e ver Mateus desnorteado, caindo.
Quando o amigo de Mateus o procurou, viu que ele estava caído, ensanguentado, sendo socorrido por uma estudante de Enfermagem da UFG, que pediu para não ser identificada. O universitário se retorcia de dor. Ela percebeu a gravidade dos ferimentos, mesmo assim conservou a calma. Tudo foi transmitido ao vido pela TV Anhanguera, afiliada da Rede Globo, que filmava em cima de um prédio. Mateus ficou no chão, à espera de atendimento, sangrando muito. Entendendo que policiais bloqueavam a aproximação dos bombeiros, o amigo de Mateus sugeriu que o colocassem em um tapume, usado pelos estudantes como escudo. “A polícia não deixava os bombeiros chegarem onde ele estava. Por isso improvisamos uma maca. Os policiais fecharam as vias”, lembra o amigo.
Enquanto um grupo de estudantes fazia um cordão de isolamento, outro grupo se esforçava para carregar o universitário até a Rua 3, a uma quadra do local da agressão. “Ao mesmo tempo em que chegávamos até os Bombeiros com ele se retorcendo de dor, a polícia nos atacava com spray de pimenta”, denuncia. Quando alcançaram uma ambulância, o atendimento foi rápido. Já dentro de uma viatura do Corpo de Bombeiros, o estudante respondia às perguntas da equipe médica, mas, logo depois, com muito sangramento na testa, com a viatura em movimento, ele teve convulsão. Mateus silenciou. O amigo temeu que ele morresse ali. Com a sirene ligada, a ambulância percorria uma Goiânia sem muito trânsito. O trajeto durou, pelo menos, dez minutos até chegarem à Emergência do HUGO (Hospital de Urgências de Goiânia) às 13h.Foto: Júlio César Vieira
O amigo, depois de preencher os documentos, viu um Mateus decaído, pálido, em uma maca, já em coma induzido, aguardando leito na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Ele teve espasmos e retorcia por causa das dores”, lembra o amigo, que também sentia dor: um policial o havia pegado desprevenido com um chute na coxa. “Ver o meu melhor amigo naquela situação era desesperador. O cara estava em um protesto, independente, sem ligação partidária e sai com a cabeça aberta depois de uma agressão”, conta.
O estudante foi submetido a procedimentos cirúrgicos por aproximadamente quatro horas com as equipes de Neurocirurgia e Bucomaxilofacial para reparação dos ossos frontais no sábado (29/04).

“Relevantes serviços” e “preservação da ordem”
Ano passado, o capitão da PM goiana Augusto Sampaio de Oliveira Neto, que é subcomandante da 37° Companhia Independente da Polícia Militar, em Goiânia, recebeu do governo de Goiás as medalhas do Mérito Policial Militar e da Ordem do Mérito Tiradentes, como consta no Diário Oficial, nos dias 5 de setembro de 2016 e 27 de julho de 2016, respectivamente. As honrarias se devem pelo “desempenho de suas funções, prestar relevantes serviços visando à preservação da ordem pública”.
Depois da nota desmentida por fotos e vídeos que flagraram as agressões em que o Comando da Polícia negava que houvesse tido confronto entre policiais e manifestantes, outra nota dava conta que houve, sim, agressões. Mesmo assim, a cúpula da polícia não divulgou o nome do agressor, que veio à tona por meio das redes sociais neste domingo (30/04). O capitão, depois de atacar o estudante, se afastou sem prestar socorro. Ele não atendeu aos telefonemas da reportagem. Sampaio foi afastado pela cúpula das atividades nas ruas de Goiânia, mas continua a trabalhar e receber salário normalmente.
Ao G1 Goiás, o comandante geral da Polícia Militar de Goiás informou que o capital Sampaio “foi afastado em decorrência do Inquérito Policial Militar instaurado em virtude da agressão que teria sido praticada por ele contra Mateus”. Mesmo assim, segundo o Comando, o capitão continua prestando serviços, mas administrativamente.
Em sua rede social, o titular da Secretaria Estadual de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP), Ricardo Balestreri, se posicionou contra o episódio. “Todo policial tem o conhecimento elementar de que para imobilizar alguém não pode atingir a cabeça ou os genitais. Aliás, qualquer pessoa adulta e racional tem esse conhecimento”.
No mesmo texto, Balestreri continua: “A polícia tem, sim, o direito e o dever de reprimir atos delinquenciais, sempre utilizando a boa técnica e o uso progressivo e proporcional da força, conforme estipulado pela ONU e por todos os bons procedimentos operacionais padrão”.

“Como a vida de uma barata”

Desde que Mateus foi levado ao HUGO, uma aglomeração se formou em frente à unidade de saúde. Estudantes que conheciam, ou não, aquele que se tornaria um símbolo da luta contra medidas do governo – noticiado em todo o país como vítima da truculência policial e na imprensa internacional –, líderes sindicais, jornalistas e curiosos, se misturavam a professores da UFG, que se revezavam para acompanhar de perto o estado de saúde de Mateus.
Na manhã seguinte à agressão, o saguão do hospital amanheceu repleto de estudantes. Todos ansiosos por notícias do rapaz. Enquanto isso, a professora de espanhol Wellyna Késia Bracho tentava amenizar a tensão ao aplicar a prova aos alunos da turma de Mateus no Centro de Línguas da UFG. “Apliquei a prova e o clima na sala estava péssimo. Todo mundo triste e ao mesmo tempo revoltado com a situação”, disse à reportagem. Segundo amigos, Mateus vinha se dedicando à língua para realizar outro sonho: estudar mestrado na área de Ciências Sociais.
“Estou muito revoltada com toda a situação. Li comentários absurdos pelas redes sociais. Me deixa triste, com raiva e sem esperança pela falta de capacidade de muitas pessoas de praticar a alteridade. Muitos falam da vida de um ser humano que estava manifestando pelo bem comum de toda a sociedade como se estivessem falando da vida de uma barata”, desabafa a professora.
Wellyna lembra que os vídeos que circulam nas redes sociais “comprovam que o Mateus não estava fazendo nada, foi ferido brutalmente por estar lá, dando a cara à tapa e se manifestando por um bem comum, enquanto muitos estavam no conforto de suas casas”.

A cadelinha
“Ela é o amor da vida dele”, conta Mariana Falone, 20 anos, amiga de Mateus, sobre a cadelinha Malu. Ela decidiu falar com a reportagem, mesmo assim  está preocupada com sua imagem. Quando vê seu rosto entristecido aparecendo em todos os canais de televisão, ela meneia a cabeça, em desaprovação. “Não falei com a imprensa porque são maldosos. Um jornalista me ligou perguntando coisas pessoais sobre mim e o Mateus. Desliguei na cara dele”, avisou, voltando-se à história da cadelinha Malu. “Ele cuida muito bem dela”.
“Ele encontrou a cachorrinha abandonada em São Paulo, quando os donos se mudaram e a deixaram. Depois de atropelada, sem dono, meu irmão procurou uma dona para ela”. Sem sucesso. Então ele acolheu a Malu em casa. É o que lembra o irmão, Natanael Barbosa, 17 anos, que mora em Osasco, em São Paulo e chegou a Goiânia com a mãe, a cabeleireira Suzete Barbosa, no final da tarde de sábado (29/4) para acompanhar de perto a recuperação do estudante.
Quando foi aprovado no vestibular na UFG, no curso de Ciências Sociais, a realização de um sonho, Mateus veio a Goiânia, mas deixou Malu no apartamento em São Paulo. “Ele me pagou durante um mês para ficar lá, só para cuidar da cachorrinha”.
Mateus alugou um carro e foi buscar as coisas e, claro, a Malu.
Em entrevista coletiva depois de receber as primeiras informações da equipe médica sobre o estado de saúde de Mateus assim que chegou a Goiânia, a mãe Suzete Barbosa disse que não tinha conseguido assistir aos vídeos e ver a fotos que mostram o filho sendo agredido pelo capitão da PM.
“Não consegui ver. As pessoas me disseram que a situação dele era muito grave”, disse. Revoltada, ela ressaltou: ”Não se faz isso nem com um cachorro. Nunca confiei na polícia. Ao invés dela ajudar, ela destrói a vida do ser humano. Eu quero justiça”, diz.
Mariana e Natanael contaram à reportagem sobre o gosto de Mateus pela leitura de obras ligadas à mitologia nórdica (como o livro “Rei do Inverno”, escrita pelo inglês Bernard Cornwell) e livros de fantasia (principalmente aqueles escritos pelo norte-americano George R.R Martin, autor de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, que inspiraram “Game of Thrones”).
Fã de Caetano Veloso, Chico Buarque e Belchior, seu gosto transcendia o cenário musical brasileiro. Em uma foto ao lado de Mariana, Mateus aparece trajando uma camiseta estampada com uma de suas bandas favoritas, Black Sabbath.
A professora de Sociologia da UFG, Andréa Vettorassi, doutora em Sociologia pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) revelou que, dias antes de ser atacado, Mateus participou de uma aula sobre violência policial. “O tempo todo sou contatada para investigar abusos de violência em Goiás. Discutimos em sala o caso do Robertinho [adolescente de 16 anos assassinado por policiais militares em casa, no dia 17 de abril de 2017, em Goiânia]. Havia dado entrevistas a jornais sobre este absurdo e levei o caso para a sala de aula. A gente refletiu um pouco da possibilidade de fazer esse consenso discursivo com a Polícia Militar. Dias depois daquela aula que eu tinha Mateus como ouvinte, a gente soube desta notícia de abuso, agressão, de direitos humanos gravemente violados”.
Como coordenadora do OGDH (Observatório Goiano de Direitos Humanos), Andréa Vettorassi recebe, pelo menos uma vez por mês, um caso de violência policial. “A Polícia Militar de Goiás é uma das mais violentas do país, não à toa alguns casos vão parar em cortes internacionais, por isso não é fácil falar de direitos humanos por aqui”, observa.
Notas de órgãos dão conta da importância de uma apuração rigorosa. Manifestaram, além da Universidade Federal de Goiás, OAB-Seção Goiás, MPE-GO (Ministério Público Estadual de Goiás), e sindicatos.
Enquanto essas pendências de humanos não se resolvem e Mateus não volta logo para casa, Malu, a cachorrinha trazida de São Paulo, não entende nada, mas sente falta do amigo. Logo ela, que já andava meio adoentada. Desacostumada a ficar longe de Mateus, não tira os olhos da porta, onde seu dono entrava e dizia, com voz meio infantilizada: “Vem cá, vem Malu”. E ela estremecia o rabo. Agora, a qualquer burburinho, ela rosna um rosnado de espera. É fé canina.

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