Falta diálogo para evitar abusos na internet

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O jogo “supre” a falta de comunicação entre pais e filhos e esse é um dos grandes perigos dessas comunidades virtuais

Sem acompanhamento dos pais, acesso ilimitado às redes sociais expõe adolescentes a situações de risco, como casos de automutilação e mesmo suicídio

Fabiola Rodrigues

O acesso cada vez mais frequente à internet por crianças e adolescentes, principalmente em redes sociais, pode ser indicativo da falta de atenção de familiares. O mau uso da internet estárelacionado, na maioria das vezes, à ausência e desatenção dos pais com a vida do filho, que então substitui o diálogo familiar pela interação através do computador, seja em bate-papos, postagens ou jogos online.
A pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e divulgada em outubro passado aponta que 80% da população brasileira entre 9 e 17 anos navega pela rede. Desses, 31% acessam a internet somente pelo celular. Nos últimos anos, viralizaram na internet jogos como o da Baleia Azul, que incentiva o suicídio, “da Fada”, que induz crianças a ligarem o gás de cozinha de madrugada, o “de Asfixia”, no qual adolescentes são desafiados a se sufocar até desmaiar. Estes são alguns dos incontáveis perigos que crianças e adolescentes estão expostos quando acessam a internet.
A psicóloga Ludmila Venturoli explica que existe hoje uma situação de extrema carência nas relações humanas e que a fuga de jovens para o mundo virtual, muitas vezes, se deve à falta de dedicação dos pais aos filhos. Essa brecha abre caminho para que eles se tornem dependentes de jogos online e redes sociais.
“Está havendo distanciamento muito grande entre pais e filhos mesmo convivendo diariamente na mesma casa. O jogo ‘supre’ uma falta e esse é um dos grandes perigos dessas comunidades. Os grupos são acolhedores. A automutilação vem se tornando frequente entre crianças e adolescentes. Estar presente na vida do filho é essencial para o desenvolvimento pessoal dele”, frisa a psicóloga.
A falta de diálogo entre pais e filhos traz muitos problemas, especialmente de natureza emocional em crianças e adolescentes. Ludmila Venturoli aponta que, para enfrentar o problema, os pais precisam notar mais os filhos e acompanhá-los, interagir com eles.
“Às vezes a criança não encontra abertura na família para compartilhar problemas enfrentados no ambiente escolar e por isso se torna mais propensa a ficar calada e se envolver com jogos indevidos e usar as redes sociais”, relata a psicóloga.
Os pais devem conhecer com quem o filho anda conversando, seja nos relacionamentosde contato pessoal direto ou nos virtuais. Quanto menor for a criança, maior deve ser o monitoramento, especialmente no uso das redes sociais. É interessante que o pai coloque filtro no acesso a certos sites para evitar navegação imprópria, até que ela se torne adolescente. Os pais devem fiscalizar mesmo o celular do filho.
Uma saída radical seria proibir o uso de aparelhos com conexão à internet. Mas apsicóloga Ludmila Venturoli diz que essa não é uma boa estratégia. Tentativas de coibir o acesso à rede pelos filhos estão fadadas ao fracasso. Além disso, elas não previnem os riscos e comprometem o vínculo de confiança entre pais e filhos.
“O pai deve estabelecer acordo sem imposição, mas negociado, como a definição dos horários adequados para usar o celular, por exemplo. Ou compartilhar a senha das redes sociais do filho. O que não pode é ver escondido o que o adolescente faz na internet”, diz.
A psicóloga ressalta ainda que, mesmo com tanta tecnologia, o contato da criança com o celular ou qualquer aparelho que dê a ele acesso à internet deve ser retardado ao máximo.
“Não recomendo que uma criança tenha acesso à internet. É importante retardar ao máximo o contato das crianças com as redes sociais. O mundo virtual é um universo de informações, que se abre, e, quanto mais novo o usuário, menor a chance dele saber lidar com tantas possibilidades e interação”, ressalta a psicóloga.

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No Colégio Pré-Universietário, do Setor Leste Universitário, em Goiânia, alunos recebem orientação de como não cairem em ciladas da internet

Professores assumem o papel da família

O contato virtual tenta suprir, ainda que de modo superficial, a carência dos relacionamentos pessoais. Os pais são imprescindíveis na formação do caráter do filho, a educação é responsabilidade da família, sendo da escola a tarefa completar a educação, com ensino pedagógico.Todavia, educadores relatam que muitos pais deixam para os professores a função que são deles. A secretária do Colégio Estadual Pré-Universitário, Ana Paula Marinho, lembra que a família tem deixado para os professores a missão de educar os filhos.
“Estamos fazendo dois papéis ao mesmo tempo, o de ensinar e educar. Não é nosso dever ter essa jornada dupla, mas não está havendo outra saída. Vários estudantes chegam na escola com uma sequência de problemas como baixa autoestima, conflitos pessoais devido à fase da adolescência”, conta a secretária.
Para Ana Paula Marinho, atividades que estimulam o autoconhecimento do estudante pode ajudá-lo a se conhecer melhor e também orientá-lo sobre qual decisão deve tomar futuramente quanto à carreira estudantil e pessoal. Por esse motivo, os alunos se reúnem em grupos frequentemente na escola e discutem sobre projetos de vida e qual a influência das redes sociais na vida de cada um.
“Oferecemos esses direcionamentos para que pensem sobre onde estão e onde querem chegar em seus objetivos. O que eles mais precisam para se desvincular do ‘mundo virtual’ é ser realistas, protagonistas, que são incentivados a agir e conquistar objetivos”, diz Ana Paula Marinho.

Escola ensina estudantes a lidar com as redes sociais

Para ajudar estudantes a não caírem em ciladas da internet ou em jogos perigosos, na Escola Estadual Pedro Gomes, localizada no Setor Campinas, em Goiânia, os alunos estão recebendo aulas da matéria Projeto de Vida, para que aprendam como devem se portar diante das polêmicas das redes sociais, além de serem estimulados a escrever sobre metas de vida. Para Weslane Sampaio, uma das coordenadoras da escola, que também ministra essas aulas, a disciplina serve de autoajuda e faz com que o aluno descubra seus valores pessoais e sinta amor próprio.
“Os professores estão fazendo debates em sala sobre o uso das redes sociais e interatividade, o que deve ou não ser levado em conta ao navegar na internet. Os pais precisam urgentemente ouvir e dar mais atenção aos filhos. Estamos fazendo nossa parte tentando formar neles caráter e autoestima elevada, mas não conseguiremos se a base – a família – não os auxiliar nessatarefa”, diz a coordenadora.
Para Weslane Sampaio a aula de Projeto de Vida, que acontece duas vezes por semana na escola, serve de incentivo aos sonhos e objetivos aos estudantes, já que muitos vêm apresentando sentimento de frustração. Ela observa que o uso excessivo das redes sociais os deixa desconectados com a vida real, por isso a necessidade de resgatar valores e projetos pessoais que os estimulem a pensar, idealizar e realizar.
“Chamamos a atenção do estudante lembrando a ele que nem tudo deve ser compartilhado e expressado nas redes sociais, alertando-o que não aceite convites de desconhecidos, que podem prejudicá-lo. Levamos ele a perceber que tem vida própria. Esse trabalho está sendo essencial para a formação de caráter do estudante e recomendo que seja feito em toda escola”, conclui a coordenadora.

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