Pesadelos

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“Sonhei que estava sendo perseguida por um bandido. Eu corria e tentava fugir. Ele já havia matado meu namorado, minha mãe e dois policiais. Eu corria, e ele atrás de mim. Estava nu e queria abusar de mim. Acordei assustada, gritando, suada, querendo chorar”. S., 24 anos

Os pesadelos ou sonhos de angústia são considerados sonhos importantes em um processo de psicoterapia/análise por evidenciarem os conflitos do inconsciente. Normalmente ocorrem em períodos de vida conturbados, de transformações e mudanças, sendo repetitivos e aparecendo em várias noites consecutivas.
Os pesadelos evidenciam os complexos – conjunto de idéias carregadas afetivamente – mobilizando o corpo físico de forma intensa.
Apresentam diariamente o desafio de mostrar a autonomia da psique e sua força psicossomática, por nos possuir involuntariamente, apresentando pontos “cegos” – nosso inconsciente –, que a psique precisa assimilar na consciência.
Em um pesadelo, o sonhador agita-se de forma extrema, grita, chora, chuta, esmurra, entra em agitação motora influenciado por uma produção onírica que ocorre em sua mente.
Embora um pesadelo não seja real, o indivíduo o vive como se fosse algo palpável, concreto, não diferenciando fantasia de realidade e mergulhando no mundo dos sonhos. Um pesadelo ativa reações orgânicas intensas, que ocorrem durante o sonho e logo após ao acordar.
Relato de pacientes evidenciam que um pesadelo afeta o estado emocional por horas e até por dias, dependendo da força do complexo ativado. Reações de palpitação, medo, introspecção, atenção desdobrada, sudorese são comuns após um pesadelo, podendo se estender por horas.
Geralmente os pesadelos ocorrem como um mecanismo de compensação psíquica, já que a tensão produzida em um sonho, alivia outras tensões. É notório que um pesadelo mostra uma crise da personalidade que precisa ser elaborada. Vários pacientes que acompanhei como analista e psicólogo clínico com recorrentes pesadelos apresentavam quadro de alta ansiedade, estresse, depressão, fobias, compulsões, ou com outros transtornos.
Quadros patológicos como febre, infecções ou desgaste físico no contexto orgânico; crises afetivas intensas, situações que nos colocam em contato com os nossos  limites geram pesadelos. A crise no processo de individuação, a perda do sentido de vida também engendra vários pesadelos, que denotam que o individuo não está bem. Os pesadelos mostram  necessidade de mudança, a insatisfação, a tensão que às vezes ainda não é consciente, revelam aspectos sombrios negados pelo sonhador, a sua fragilidade e por vezes o distanciamento da identidade e essência.
Não há receitas para fugir de pesadelos. Devemos, ao contrário, agradecer quando estes ocorrem porque podem mostrar pontos de nossa fragilidade psíquica que ainda desconhecemos. Pesadelos podem servir de combustível para nosso crescimento se a busca do auto conhecimento existir.

(Jorge Antônio Monteiro de Lima,  analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo clínico, músico e  mestre em Antropologia Social pela UFG)

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